Corticoides na Pneumonia e na Crise Crítica
Pneumonia (Lond) 2026;18(1):19 · Khoshnam Rad et al.
Revisão · Pneumonia 2026;18:19 · Open Access CC BY-NC-ND

Corticosteroides na Pneumonia Grave e na Crise Crítica

Khoshnam Rad, Lakzaei, Nakhostin & SoltanmohammadiPneumonia 2026;18:19 · doi:10.1186/s41479-026-00209-y ↗
CAPE CODRECOVERYDEXA-ARDS APROCCHSSADRENALSCCM/ESICM 2024

Corticosteroides são terapia-pilar na pneumonia grave, ARDS e choque séptico — mas exigem decisão específica por síndrome, não "tamanho único". Este guia integra 5 ensaios marco + diretrizes 2024 em 6 pilares práticos para a UTI adulta.

1
PathofisiologiaCIRCI — por que os corticoides funcionam na crise crítica.
2
Seleção por síndromeAgente correto para CAP, COVID-19, gripe, ARDS e choque séptico.
3
Dosagem & taperRegimes precisos, formulações, infusão contínua vs. bolus.
4
MonitoramentoProtocolo estruturado: glicemia, K⁺, infecções, delirium.
5
InteraçõesDesfechos com CYP3A4, NMBA, NSAIDs e desmopressina.
6
Eficácia comparadaRede-meta-análises e limitações do ranking indireto.
🎯 Mensagem central: hidrocortisona 200 mg/dia para CAP grave e choque séptico; dexametasona 6 mg/dia para COVID-19 hipoxêmico; dexametasona 20→10 mg por 10 dias para ARDS não-COVID; e evitar em pneumonia por gripe.
Pilar 1

Pathofisiologia — CIRCI

Na saúde, o estresse agudo dispara o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e multiplica o cortisol 5–10× em horas — mantendo tônus vascular (sensibilização a catecolaminas), freando a cascata de citocinas (IL-1, IL-6, TNF-α) e regulando a glicose.

CIRCI: 40–60% do choque séptico

A Insuficiência de Corticosteroides Relacionada à Crise Crítica (CIRCI) é o estado em que a adrenocortical não produz suficiente cortisol para a gravidade ou os tecidos ficam resistentes ao cortisol circulante.

Mecanismos

  • Resistência tecidual — disfunção do receptor GR-α
  • Síntese reduzida — inibição adrenal por citocinas (IL-1, TNF-α)
  • Metabolismo alterado — conversão acelerada em cortisona inativa (11β-HSD2)
  • Supressão do eixo HPA — corticoides prévios, etomidato, disfunção hipotalâmica

Sinais clínicos (nonspecíficos)

  • Choque dependente de vasopressores apesar de fluidos adequados
  • Febre ou hipotermia não explicada
  • Eosinofilia
  • Alterações glicêmicas/eletrolíticas não explicadas
🔬 Não teste de rotina: nem cortisol basal nem estímulo com ACTH identificam consistentemente quem vai se beneficiar. Ensaios na UTI são imprecisos (cortisol total ≠ livre; etomidato interfere). A decisão é clínica e por síndrome — a maioria dos pacientes com choque séptico recebe dose de estresse empírica.
Pilar 2

Seleção por Síndrome

Pneumonia Comunitária Grave (CAP)

CAP grave = admissão em UTI, ventilação mecânica ou O₂ por cânula de alto fluxo. Escores de gravidade: PSI classe IV–V (> 130) e CURB-65 3–5 identificam candidatos (CAPE COD usou PSI > 130; os dois escores se completam).

🧪 CAPE COD — fase 3, duplo-cego (2023, NEJM)
795 pacientes · 31 UTIs francesas · hidrocortisona 200 mg/dia (infusão contínua ou 50 mg/6h) por 4–7 dias + taper obrigatório de 7 dias
Redução significativa da mortalidade aos 28 dias — benefício persistiu aos 90 dias em todos os subgrupos (mesmo com choque séptico concomitante), sem aumento de infecções hospitalares ou sangramento GI.
6,2% vs 11,9%mortalidade 28 dias (NNT 17,5)
9,3% vs 14,7%mortalidade 90 dias (NNT 18,5)
0↑infecções / sangramento GI
🧪 REMAP-CAP (2025)
Hidrocortisona 200 mg/dia × 7 dias fixos sem taper
Mortalidade 28 dias não-significante, mas probabilidade de benefício substancial + redução na duração de vasopressores. O resultado neutro levanta a dúvida: o taper do CAPE COD contribuiu para o benefício? (controvérsia aberta)
💊 Recomendação CAP (certeza moderada): hidrocortisona IV 200 mg/dia por 5–7 dias, seguida de desmame gradual 5–7 dias (100 mg/dia × 2–3 d → 50 mg/dia × 2–3 d → 25 mg/dia × 2–3 d). Atenção: IDSA/ATS 2019 (mais conservador) recomenda contra uso rotineiro a menos que haja choque refratário — o CAPE COD é o dado que muda a prática.

COVID-19 — o padrão global

🧪 RECOVERY (2021, NEJM) — 6.425 pacientes hospitalizados
Dexametasona 6 mg/dia (oral/IV) × até 10 dias, sem taper · desfecho divergente por suporte respiratório basal
RR 0,64ventilados: 29,3% vs 41,4% (−1/3)
RR 0,82O₂ não-invasivo: 23,3% vs 26,2%
RR 1,19sem suporte: 17,8% vs 14,0% (tendência a dano)
💊 Recomendação COVID-19 (certeza alta): dexametasona 6 mg/dia IV/PO por até 10 dias, sem taper, em pacientes hipoxêmicos. Dose é o gatilho: hipoxemia sem O₂ suplementar não se beneficia. Doses 12–24 mg não acrescentam sobrevida e aumentam hiperglicemia/infecção.

🚫 Gripe — cenário "NÃO USAR"

  • Corticoides sistêmicos aumentam mortalidade bruta, infecções secundárias (inclusive aspergilose pulmonar invasora) e prolongam a eliminação viral
  • Evidência mais rigorosa: 1.846 pacientes críticos por pneumonia gripal (148 UTIs espanholas, matching por propensity) — HR 1,32 (IC 95% 1,08–1,60), mesmo com metilprednisolona
⚠️ Exceções absolutas (usar apesar da gripe): choque séptico refratário concomitante, exacerbação de DPOC/asma, insuficiência adrenal, ou ARDS não-gripal grave tardio. (Certeza baixa para dano)

ARDS não-COVID

🧪 DEXA-ARDS (2020, Lancet Respir Med) — 277 pacientes, 17 UTIs
ARDS moderado–grave estabelecido (P/F ≤ 200, PEEP ≥ 10, FiO₂ ≥ 0,5) · dexametasona 20 mg/dia × 5 d → 10 mg/dia × 5 d (10 dias totais, sem taper)
+4,8 diaslivres de ventilador a 28 d (IC 2,6–7,0)
21% vs 36%mortalidade 60 dias (NNT 7)
0↑hiperglicemia grave / infecção / sangramento
💊 Recomendação ARDS (certeza moderada): dexametasona IV 20 mg/dia × 5 dias → 10 mg/dia × 5 dias, terminar sem taper. Este protocolo curto substituiu os tapers prolongados de metilprednisolona históricos no leito.

Choque Séptico

Em choque séptico refratário a fluidos (≈30 mL/kg) e dependente de vasopressores, a hidrocortisona de baixa dose é o padrão — iniciada idealmente em ≤ 6 h. Dois ensaios marco de 2018:

APROCCHSS (NEJM 2018)
1.241 pacientes · hidrocortisona 200 mg/dia + fludrocortisona 50 µg/dia × 7 d
43,0% vs 49,1%mortalidade 90 d (NNT ≈ 16–17)
ADRENAL (NEJM 2018)
3.800 pacientes ventilados · hidrocortisona 200 mg/dia em infusão, sem fludro
27,9% vs 28,8%mortalidade 90 d (ns) · duração do choque 3 vs 4 dias ↓
💊 Recomendação choque (certeza moderada): hidrocortisona IV 200 mg/dia (contínua ou 50 mg/6h) por 7 dias ou até desmame de vasopressores; considere fortemente fludrocortisona 50 µg/dia PO (especialmente com alta necessidade de vasopressores ou CAP grave concomitante).
Atalho de cabeceira

Tabela 1 — Recomendações por Síndrome (com grau de evidência)

ClínicaAgenteDose e viaDuraçãoTaper?EvidênciaCerteza
CAP graveHidrocortisona200 mg/dia IV5–7 diasSugeridoCAPE CODModerada
COVID-19 (hipoxêmico)Dexametasona6 mg/dia IV/POAté 10 diasNãoRECOVERYAlta
InfluenzaEvitar +CorticoideObservacionaisBaixa
ARDS não-COVIDDexametasona20 mg/dia (d1–5) → 10 mg/dia (d6–10)10 diasNãoDEXA-ARDSModerada
Choque sépticoHidrocortisona ± fludrocortisona200 mg/dia IV; ±50 µg/dia PO7 dias ou até resolução do choqueSim (se > 5 dias)APROCCHSS/ADRENALModerada
Paciente crítico — qual a síndrome? Decisão por cenário clínico (Tabela 1 do artigo) Pneumonia grave (CAP) PSI > 130 ou UTI/VM/HFO AGENTE / DOSE Hidrocortisona 200 mg/dia IV · 5–7 d Taper: Taper 5–7 d EVIDÊNCIA CAPE COD Certeza: Moderado COVID-19 hipoxêmico O₂ suplementar (sem VM invasiva) AGENTE / DOSE Dexametasona 6 mg/dia IV/PO · até 10 d Taper: Sem taper EVIDÊNCIA RECOVERY Certeza: Alto Pneumonia por gripe Influenza confirmada AGENTE / DOSE EVITAR corticoides Taper: EVIDÊNCIA Observacional Certeza: Baixo ARDS não-COVID (mod–grav) P/F < 150 · PEEP ≥ 5 AGENTE / DOSE Dexametasona 20 mg/d × 5 d → 10 mg/d × 5 d Taper: Sem taper EVIDÊNCIA DEXA-ARDS Certeza: Moderado Choque séptico Vasopressores em dose crescente AGENTE / DOSE Hidrocortisona 200 mg/dia IV ± fludrocortisona 50 µg · 7 d Taper: Taper se > 5 d EVIDÊNCIA APROCCHSS/ADRENAL Certeza: Moderado

Fluxograma de decisão por síndrome — dados da Tabela 1 do artigo.

População especial

Corticoides no Host Imunocomprometido

Os ensaios marco foram quase todos em imunocompetentes — extrapolar para transplantados, imunossuprimidos de base ou HIV-com-pneumonia exige cautela: o risco de infecção oportunista é desproporcional (CMV, fungos invasores, PJP).

🧩 Modelo do "triplo impacto": imunossupressão de base (1º) → disfunção imune da crise crítica (2º) → modulação pelo corticóide exógeno (3º), que acalma a inflamação mas aprofunda a supressão.
CategoriaDefeito imune de basePatógenos oportunistas comunsRiscos com corticoides
Neoplasia hematológica (quimio ativa)Neutropenia, linfopeniaAspergillus, Candida, P. jirovecii, GNBFungemia invasora, mascarar diagnóstico
Transplante de órgão sólidoSupressão T por calcineurinaCMV, PJP, Aspergillus, NocardiaReativação CMV/PJP; interações
TCTH (fase aguda)Linfopenia profunda, GVHDAspergillus, CMV, EBV, PJPRisco muito alto de doença fúngica invasora
HIV/AIDS (CD4 < 200)Depl. CD4+, macrófagoPJP, TB, CryptococcusBenefício forte na PJP grave; risco de IRIS
Uso crônico de corticoideT-função, fagocitose ↓PJP, Aspergillus, ListeriaImunossupressão cumulativa
Imunodeficiências primáriasDefeitos B/T/fagócitosBactérias encapsuladas, PJP, micobactériasRisco individualizado
🗣️ Evidência por patógeno especial: a maior força de evidência para adjuvante em imunocomprometido com pneumonia é específica — em PJP grave associada à AIDS, corticoides melhoram desfechos; isso não se estende uniformemente ao HIV-negativo. Pairwise: evite corticoide empírico rotineiro a menos que a patologia seja intensamente responsiva (ex.: PJP hipoxêmica grave).

Na ausência de RCT dedicado, guie por 6 domínios: caracterização do host · avaliação do patógeno · gravidade/objetivo · estratificação de risco oportunista · princípios de implementação · monitoramento com reavaliação. Em alto risco: biomarcadores fúngicos, carga viral CMV, BAL — e considere antifúngico preemptivo.

Pilar 3

Como Doses, Administra e Desmama

⏱️ Timing

  • CAP grave/choque: iniciar o quanto antes, idealmente ≤ 12 h
  • CAP sem choque: início em ≤ 24 h da admissão é adequado
  • Início precoce = reversão de choque mais rápida, menos disfunção de órgão

💊 Transição para oral

  • Dexametasona: bioavail. 100% — trocar direto (clinicamente melhorando, afebril, hemodinâmica estável)
  • Hidrocortisona: raramente oral; manter IV até alta da UTI ou trocar para prednisona (≈ 20 mg IV hidro → 5 mg PO prednisona)
  • Prontidão: defervescência > 24 h, choque resolvido, ↑ P/F ≥ 50 pontos, ↓ CRP > 50%

Formulações — Referência de Beira de Leito (Tabela 3)

PropriedadeHidrocortisona fosfatoDexametasona fosfatoMetilprednisolona succinato
Apresentações100 mg/mL solução pronta4 ou 10 mg/mL soluçãoFrascos liofilizados 40 mg–2 g
ReconstituiçãoNão (pronta)Não (pronta)Sim (diluente; 40 mg + 1 mL → 40 mg/mL)
Administração IVPush lento ≥ 30 s; doses ≥ 500 mg em ≥ 10 minPush ≥ 1 min; ou diluído em 5–30 minPush em vários min; > 250 mg em 30–60 min
pH / Osmolalidade7,5–8,5 / 533 mOsm (50 mg/mL)7,0–8,5 / 356 mOsm (4 mg/mL)7,0–8,0 / 318 mOsm (10 mg/mL)
EstabilidadeAlta em seringas; sem sorção a PVCDiluído estável 24 h (TA)Reconstituído 48 h (TA); diluído usar em 4 h
AvisosNão misturar em pH > 8 (oxidação)Push rápido → queimação perineal; diluirTurvação ao diluir é normal
PreservativoLivre de álcool benzílico (seguro neonatal)Multi-dose tem benzil; escolher free p/ neonatoÁlcool benzílico — contraindicado em prematuros
ArmazenamentoTA < 25 °C; sem congelar20–25 °C, proteger da luz20–25 °C, proteger da luz

Populações especiais de dose

⚖️ Obesidade (IMC ≥ 30)

Em dose por peso (ex.: pulso alto), preferir peso ideal ao atual. Hidrocortisona/metilprednisolona usam dose fixa — sem ajuste.

🧪 Renal / Hepático

Renal: sem ajuste (excreção renal < 10%; mesmo em diálise). Hepático (Child B/C): meia-vida prolongada — sem redução definida, monitorar hiperglicemia, retenção e imunossupressão.

Infusão contínua vs. bolus — hidrocortisona

Meta 2026 (14 estudos, 2.834 pacientes, choque séptico): mortalidade equivalente, mas infusão contínua ≥ bolus em — reversão do choque no dia 7 (RR 1,14), menos hipocalemia (RR 0,67) e variação glicêmica ↓ 24 mg/dL.

⚡ Bolus intermitente cria janelas sem exposição; infusão contínua mantém exposição alta o dia todo. Em ARDS, ensaios com infusão contínua ganharam mais dias livres de ventilação. Loading dose se preciso (ex.: metilprednisolona 1 mg/kg + infusão 1 mg/kg/dia).

Taper — curto vs. prolongado

✅ Curto (< 3–4 semanas)

Parada abrupta é segura — supressão HPA rara e clinicamente insignificante. Dexametasona ≤ 10 dias tem auto-taper (meia-vida 36–54 h). Estudo de 414 pacientes: parada abrupta + UTI menor. Inclui a maioria dos pacientes da UTI (5–10 dias).

⏳ Prolongado (> 3–4 semanas)

Taper estruturado em 2 fases: (1) reduzir a ~dose fisiológica — prednisolona 5 mg/dia ou hidro 20 mg/dia — orientado pela doença de base; (2) desmame lento até cessar para recuperação adrenal. Risco real de crise adrenal se ápice abrupto.

🧪 Cortisol matinal guia a fase final: > 300 nmol/L → HPA recuperou (cessar). 150–300 nmol/L → reavaliar em semanas. < 150 nmol/L → supressão, manter reposição fisiológica. Não medir cortisol durante dexametasona (meia-vida longa confunde) — trocar para corticoide de ação curta antes.
Curto curso (< 3–4 semanas) Dose terapêutica (5–10 dias) Parada abrupta segura (supressão HPA insignificante) • Dexametasona ≤ 10 d tem T½ biológica de 36–54 h → auto-taper embutido • A maioria absoluta dos pacientes de UTI está nesse cenário Curso prolongado (> 3–4 semanas) Dose terapêutica FASE 1 — nível fisiológico prednisona 5 mg/d (≈ hidro 20 mg/d) FASE 2 — redução lenta recuperação HPA / inversão de atrofia Cessação • Velocidade da Fase 1 guiada pela doença de base — tatear o mais rápido possível sem flare Guia final: cortisol matinal (após cessar) > 300 nmol/L HPA recuperado pode cessar definitivamente 150 – 300 nmol/L Recuperação possível manter dose fisiológica + retestar em semanas < 150 nmol/L Supressão HPA em curso continuar reposição fisiológica ⚠ Em dexametasona, NÃO medir cortisol matinal (T½ prolongada confunde a interpretação) — trocar por agente de ação curta antes.

Linha do tempo: parada abrupta (curto) vs taper em 2 fases (prolongado) + guia de cortisol matinal.

Pilar 4

Protocolo de Monitoramento (Tabela 4)

EfeitoMétrica (meta)Freq.Manejo no leito
HiperglicemiaGlicemia 140–180 mg/dL4–6 h (2 h se infusão esteroide/insulina)Insulina IV contínua se 2 leituras > 180
Infecção secundáriaVasopressores, P/F, CRP/PCTRevisão clínica contínuaIgnorar pico de leucocitose não-infecciosa (5–10 mil); suspeitar de fungos (CAPA/IAPA)
Fraqueza ICUAWMRC diário / força de preensãoDiárioEvitar NBMA contínua + esteroide; limitar NMBA < 48 h; TOF
Sangramento GIHemoglobina estável; fezesDiárioPPI/H2RA só com fatores de risco independentes (VM > 48 h, coagulopatia)
Eletrólitos/fluídoK⁺ ≥ 4,0; balanço cumulativoBMP diário (q12h se diurético alto)Repor K⁺ agressivo; diurético de alça p/ balanço neutro na CAP/ARDS
DeliriumCAM-ICU negativoA cada 12 hReorientação + higiene do sono; dexmedetomidina/quetiapina se agitação
🩸 Leucocitose não-infecciosa: corticosteroides desmarginalizam neutrófilos e elevam o leucograma em 5.000–10.000/µL acima da base — não interpretar como falha terapêutica ou infecção nova. Rastrear infecção por marcadores não-térmicos (P/F, CRP, PCT, vasopressores).
Pilar 5

Interações Farmacológicas Críticas (Tabela 5)

Corticosteroides são substrato e modulador do CYP3A4 e da P-glicoproteína. A dexametasona é substrato e indutor potente de CYP3A4/P-gp (risco bidirecional); hidro e prednisolona são menos dependentes.

ClasseAgentesMecanismoManejo
Inibidores fortes CYP3A4Voriconazol, posaconazol, claritromicina↓ clearance → ↑ exposição e toxicidadeReduzir 50% a dose de esteroide; preferir azitromicina a claritromicina
Indutores fortes CYP3A4Rifampicina, fenitoína, carbamazepina↑ clearance → risco de falha terapêuticaEvitar; se inevitável, dobrar dose basal e titular
Bloqueadores neuromuscularesCisatracúrio, vecurônio, rocurônioCatabolismo muscular sinérgico → CIMLimitam infusão NMBA < 48 h; TOF; fisioterapia precoce
Agentes ulcerogênicosAINEs (cetorolaco, ibuprofeno)Lesão mucosa composta → sangramento GISuspender AINE sistêmico; PPI/H2RA se parear
Análogos de vasopressinaDesmopressina (DDAVP)Potencializa resposta V₂ → hiponatremia dilucional agudaEvitar; restrição hídrica; Na⁺ a cada 6–12 h; "clamp" de DDAVP se risco de ODS
🛑 Coorte DDAVP — maior sinergia de alto risco: potência extrema da resposta antidiurética V₂ → risco exponencial de hiponatremia dilucional e edema cerebral. Se coexistência inevitável, restrição hídrica estrita + Na⁺ seriado a cada 6–12 h. Evitar retirada abrupta de DDAVP durante correção (Síndrome de Desmielinização Osmótica).
Pilar 6

Eficácia Comparada — o que os rankings dizem (e não dizem)

SíndromeAnáliseAchado
CAP graveMeta de rede 2025 (11 RCTs, n=2.042)Hidrocortisona mais eficaz p/ mortalidade (SUCRA 0,89) — alinhado ao CAPE COD
ARDSMeta dose-resposta 2025 (28 trials, n=6.502)Dexametasona e metilprednisolona (~1,5 mg/kg/d) mais eficazes; hidro 200–300 mg menos para desfecho pulmonar
COVID-19 graveMeta 2023 + RCT diretoMetilprednisolona vs dexametasona sem diferença (RR 0,96; mortalidade 28 d ~4,8% em ambos)
Choque sépticoMeta rede 2024 (17 trials)Hidro + fludro ↓ mortalidade 12% rel. vs hidro isolada (RR 0,88; ARR 3,8%)
Choque sépticoMIMIC-IV 2025 (n=1.607)Metilprednisolona vs hidro sem diferença mortalidade (HR 1,10); mas mais UTI, glicemia ↑, vasopressina mais curta
⚠️ Leia com cautela: rankings de rede-meta-análise têm suposições de transitividade não verificáveis sem comparações diretas. Priorize o agente e a dose testados nos ensaios marco de cada síndrome — não extrapole o ranking SUCRA para o leito.
Mortalidade por ensaio — corticoide × controle Pontos finais diferentes por ensaio (28 d / 60 d / 90 d) — comparar dentro de cada par, nunca entre pares. Corticoide Controle 6.2% 11.9% CAPE COD 28 d NNT 17,5 29.3% 41.4% RECOVERY 28 d · VM RR 0,64 21.0% 36.0% DEXA-ARDS 60 d NNT 7 43.0% 49.1% APROCCHSS 90 d NNT ≈ 16 27.9% 28.8% ADRENAL 90 d NS

Mortalidade nos 5 ensaios-marco (pontos finais por ensaio) — valores verbatim do texto do artigo.

Ponto de cuidado

Algoritmo de Beira de Leito (Figura 1)

Doença → agente → portão de segurança pré-dose (farmácia clínica cruza CYP3A4, exclui co-medicação contraindicada) → monitoramento diário estruturado → reavaliação no dia 5–7 para completar a dose (com ou sem taper) ou re-diagnosticar o não-responedor.

Figura 1: Algoritmo de corticosteroides na UTI
Figura 1. Algoritmo para terapia com corticosteroides na crise crítica — da identificação da condição clínica ao desmame e reavaliação (reproduzida da publicação original, CC BY-NC-ND).

🟢 Caminho de melhora (d5–7)

Completa o curso curto: hidrocortisona com taper estruturado; dexametasona ≤ 10 dias parada abrupta (auto-taper).

🔴 Falha terapêutica (d5–7)

Rever agressivamente: patógenos nosocomiais ocultos, eventos tromboembólicos, resistência verdadeira aos corticosteroides.

Quando NÃO usar

Corticoides Não Indicados — Cenários Comuns

Marque os cenários que você reconhece na prática. ✅
⚠️ Cautela adicional: hipersensibilidade a corticoide, TB ativa sem cobertura antimicrobiana apropriada, vacina de vírus vivo recente.
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Referências

Fonte & Referências

[1]Khoshnam Rad N, Lakzaei T, Nakhostin M, Soltanmohammadi S. A clinician’s guide to corticosteroid therapy in pneumonia and critical illness: agent selection, dosing, monitoring, and interactions. Pneumonia (Lond). 2026;18(1):19. doi:10.1186/s41479-026-00209-y ↗
[2]Ensaio-marco citados: CAPE COD (NEJM 2023), RECOVERY (NEJM 2021), DEXA-ARDS (Lancet Respir Med 2020), APROCCHSS (NEJM 2018), ADRENAL (NEJM 2018), diretriz SCCM/ESICM 2024.
[3]Material open access CC BY-NC-ND 4.0 — figura e tabelas reproduzidas com crédito para fins didáticos. Este resumo não substitui o artigo original nem a decisão clínica local.