Diagnóstico dos Estados de Choque
Fases · VATI-O · Fenótipos EASy · Pms · VTI do LVOT — apenas PT-BR
🫀 Review · Critical Care Clinics · 2025

Diagnóstico dos Estados de Choque

O choque é um processo dinâmico, com fases que exigem abordagem específica em cada uma. A ecocardiografia é ferramenta essencial: inicia rápida, qualitativa e por reconhecimento de padrões — depois semiquantitativa e quantitativa. Este guia destila a VATI-O, os fenótipos EASy, a pressão média sistêmica (Pms), a responsividade a pré-carga e a tolerância à remoção de fluidos.

Miller, Wilkinson & Kasal Crit Care Clin 41(3):397–428 PMID 40484612

10.1016/j.ccc.2025.03.001 · Online 10/abr/2025 · Washington University St. Louis / NHS UK

§ A essência em 30 segundos

Pontos-chave da review

  • Choque = falha circulatória aguda com uso inadequado de O2 — objetivo inicial é diagnosticar a causa, depois otimizar, estabilizar e descalar.
  • As causas fundamentais são 2: falência cardíaca e baixo Pms (hipovolemia OU vasodilatação).
  • 4 fases de fluidos: salvamento (bolus liberal) → otimização (balanço guiado por PR) → estabilização (só manutenção) → descalada (remoção).
  • VTI do LVOT estima SV/CO: <14 = baixo, 14–22 = zona cinza, >22 = alto (distributivo).
  • Responsividade a pré-carga (PmsR/PR) guia fluidos E vasopressor — é fisiológica, não indica "dar fluido" por si só.
  • Congestão de órgão-alvo (pulmão B, VEXUS) = ponto de parada para fluido e gatilho para remoção com monitoramento de tolerância.
  • Ecocardiografia não é inocente: viés de disponibilidade e erros humanos são fontes de conduta equivocada.
§ 01 · Fases do choque

Salvamento → Otimização → Estabilização → Descalada

FaseEstado do pacienteObjetivo do ultrassomEstratégia de fluido
Salvamento (ressuscitação)Choque ameaçador da vida2D qualitativo: padrões (tamponamento, hipovolemia, falência V/VD, valva catastrófica); VTI inicialFluido liberal em bolus, se hipovolemia supeita
OtimizaçãoCompensado, alto risco de deterioraçãoSemiquantitativo/quantitativo: SV (VTI), PR, E/e’, TAPSECauteloso — bolus só se teste de pré-carga responsivo; evitar fluido creep
EstabilizaçãoSem choque, vasopressor estável2D + congestionamento (pulmão B, VEXUS)Só manutenção (repor perdas); iniciar balanço negativo
DescaladaAusência de choque, em recuperação2D + congestionamento + PR p/ tolerânciaRemoção passiva/ativa (diurético/ultrafiltração) se congestão; monitorar tolerância
📐 VATI-O (View = coração, Abdominal/vascular, Thoracic/lung, IVC, Other): abordagem por padrões. A visão subcostal única (EASy) rende o máximo de informação num exame rápido — o Navegador de Choques abaixo usa exatamente esse conceito.
§ 02 · Variáveis dinâmicas

O que procurar em cada fase

🩺 Salvamento — reconhecer padrões

Prioridade é assimilar sinais em visões 2D básicas (PLAX, PSAX, A4C, subcostal), antes de medidas quantitativas demoradas. Comece com lista de hipóteses por probabilidade pré-teste (ED: sepse 1º; UTI geral: sepse, hipovolemia por sangramento, cardiogênico). Descarte primeiro: tamponamento, pneumotórax, falha valvar catastrófica e obstrução dinâmica do LVOT.

📏 Otimização — quantificar

Medir SV (VTI do LVOT), responsividade a pré-carga, TAPSE, função diastólica (E/A, E/e’), congesnto venoso. Reavaliar a cada mudança aguda (sepse é dinâmica, mecanismos mudam/sobrepõem). Acompanhar resposta a tratamento (efeito do vasopressor na pós-carga do VE, do PEEP no VD).

§ 03 · Mecanismos do choque

Falência cardíaca vs. baixo Pms

A pressão média sistêmica (Pms) governa o retorno venoso (VR = (Pms − Pra)/RVR). Quando o coração bombeia eficientemente, o débito é controlado pelo Pms. Há 2 causas de choque:

Falência cardíacaBaixo Pms
Extremos de FC; arritmiasVasodilatação
· Infecção / sepse
· SIRS · cirurgia maior
· Anafilaxia
· Perda de tônus simpático (anestesia, sedação, lesão medular)
Contratilidade baixa
· Cor pulmonale agudo
· Disfunção valvar (incl. obstrução dinâmica LVOT)
· Tamponamento/pericardite constritiva
· Dissecção de aorta
Hipovolemia
· Sangramento
· Perdas gastrointestinais
· Anafilaxia (fuga capilar)
· RRT (remoção > refill)
· Síndrome de fuga capilar sistêmica (Clarkson)
Insight-chave: hipovolemia e vasodilatação (pré-ressuscitação) têm a mesma aparência ao eco — coração pequeno/hiperdinâmico. O eco diagnostica baixo Pms; identificar a causa exige os fatores clínicos adicionais. Vasopressor e fluido ambos aumentam Pms.
§ 04 · Padrões eco básicos

Padrões 2D, diagnóstico diferencial e conduta

PadrãoAchados qualitativosConduta / diferencial
TamponamentoEfusão pericárdica circunferencial; colapso sistólico do AD, diastólico do VD; IVC dilatadaPericardiocentese/janela; ponte com vasopressor/volume. Intubar pode agravar. TEE se pós-cardiotorácica suspeita.
Pneumotórax hipertensivoAusência de sliding/lung pulse/B-lines; lung point; IVC dilatadaDreno torácico — não atrasar por exame demorado.
Falha valvar catastróficaIM/IAo grave aguda (ruptura de papilar, endocardite); IM com fluxo excêntrico, veia contracta ≥7mmCirurgia cardíaca / suporte MCS; NÃO IABP se IAo.
Obstrução LVOTSAM (movimento sistólico anterior do folheto mitral); LV hiperdinâmico; septo sigmoide em idososVolume + vasopressor + betabloqueador; EVITAR inotrópico e furosemida (pioram obstrução e podem ser catastróficos).
Dissecção de aortaFlap de íntima na aorta ascendente; derrame pericárdico; IAoCirurgia cardiotorácica urgente; TEE.
HipovolemiaLV pequeno hiperdinâmico, beijo de papilares; IVC pequena/cologável; FAST +Cristaloide/coloide/sangue; tratar a causa.
Falência LVDisfunção sistólica (FE <40%), dilatada, alteração segmentar, E/e’>14Inotrópico, revascularização, suporte MCS; tratar takotsubo (suspender β-agonista).
Falência RVVD dilatado, TAPSE <17, septo em D, sinal de McConnell, 60/60Inotrópico/vasopressor, diurese/RRT, ajustar VM, anticoagular/trombólise/embolectomia se TEP, vasodilatador pulmonar, ECMO.
Tônus vasomotor reduzidoLV normal/hiperdinâmico, IVC não extrema, E/A>1Vasopressor; corticoide se insuficiência adrenal; controle de fonte.
Figura — Abordagem diagnóstica básica do choque
Fig. (artigo): abordagem básica — anamnese gera a hipótese, o eco a testa, distinguindo falência de pump vs. baixo Pms (hipovolemia vs. vasodilatação).
§ 05 · Fenótipos EASy

EASy — pulseiro rápido da subcostal

O EASy usa a visão subcostal 4-câmaras (função miocárdica), a IVC subcostal (pré-carga/responsividade) e a avaliação pulmonar (tolerância a fluido: A-profile = tolera, B-profile = não tolera). Dez fenótipos organizados em 4 clusters.

Figura — Fenótipos EASy do choque
Fig. EASy (artigo, cortesia de N. Bughrara): Fenótipos 1–3 = cluster 1; 4–5 = cluster 2; 6–7 = cluster 3; 8–10 = cluster 4. Fenótipo 1 = hipovolemia (VD pequeno, IVC cologável, A). Fenótipo 2 = distributivo ressuscitado. Fenótipos 4–5 = disfunção LV/biventricular. Cluster 4 = tamponamento (8), valvar grave (9), pneumotórax (10).
§ 06 · VTI do LVOT

Estimando débito sistólico

📊 Cutoffs

Adultos têm LVOT ~2 cm. VTI do LVOT:
<14 cm → SV baixo (mesmo LVOT até 2,3cm)
14–22 → zona cinza (mais desafiador)
>22 → SV normal/alto
Alternativa: RVOT VTI <15 (diâmetro maior). SV ≈ VTI × 3,14 (assumindo LVOT 2cm). Vmax >4 m/s e gradiente médio >40 = estenose aórtica severa.

🎯 Por que é essencial

VTI baixo identifica choque normotensivo de alto risco; revela CO baixo quando ScvO2 está inapropriadamente normal (sepse); diferencia distributivo (VTI alto) de cardiogênico (VTI baixo) — mesmo com LVEF variável; em LV hiperdinâmico, VTI alto sugere paciente repleto (não tratar como hipovolemia). VTI baixo + disfunção estrutural + hipoperfusão → inotrópico.

§ 07 · Responsividade a pré-carga

Quando o fluido (ou o vasopressor) eleva o SV?

A Pms responsiveness (PmsR/PR) é um estado fisiológico em que aumentar o Pms aumenta o SV. Não significa que aumentar é indicado — só se houver hipoperfusão e risco < benefício.

TécnicaCritério de respostaVálido / limitado por
Variação ΔLVOT VTI respiratóriaΔVTI ≥ 18%, ΔAoVmax ≥ 12%VM passiva, Vt ≥ 8 ml/kg, ritmo sinusal
Elevação passiva das pernas (PLR)ΔVTI ≥ 12%Contraindicado em HIC; difícil em estoque/abdômen/Cirúrgi; não confiável se leito não posicionado
Mini-bolus (100–150 ml)ΔVTI ≥ 15%Embolia; abaixo do limiar de eco (10%) − recomendação de 15%
Teste de oclusão expiratório (EOE)ΔVTI acumulado EOE+EOI ≥ 13%Efeito pequeno e fugaz; requer combinar ins+exp
ΔIVC / ΔSVCΔIVC ≥ 18–12% (ventilado); ≥ 48% (espontâneo); ΔSVC ≥ 36%ΔSVC/ΔVmax superiores a ΔIVC (PLR padrão)
Regras e pegadinhas: NÃO fazer teste em hipovolemia franca (atrasa); teste é indicado só com hipoperfusão; vasopressor também aumenta Pms (use se risco do fluido > benefício — congestão); PR tende a falhar em falência de VD (variação vem do afterload cíclico, não de pré-carga); tamponamento espontâneo produz variação (perdida na VM); resultado é contínuo, não binário. Estática (pressões, IVC) útil só nos extremos.
§ 08 · Sobrecarga e remoção de fluido

Fluid accumulation syndrome e tolerância à remoção

A ressuscitação frequentemente leva a sobrecarga (definição: >10% do peso corporal) — mas é um contínuo, não tudo-ou-nada.

Marcadores não-ultrassônicos: variação de peso, balanço cumulativo, impedância. Ultrassom: congestão pulmonar (padrão B = aumento do EVLW, reflete mais congestão pulmonar que congestão intravascular) e congestão venosa sistêmica (VEXUS: veia hepática/portal/renal/femoral; aplica-se se IVC >2,1 cm).
Tolerância à remoção: remoção muito agressiva (>1,75 ml/kg/h de ultrafiltração líquida) piora desfechos; mas baixa intensidade também. Pode-se predizer quem NÃO tolera com teste de PR (ΔCl ≥9% na PLR → risco de hipotensão intradialítica). Alguma hipotensão com vasopressor é aceitável se não houver hipoperfusão (lactato). Deescalation (parar/remover passivamente) vs deresuscitation (remover ativamente com diurético/RRT) — termos debatidos, princípios: remover se congestão e monitorar tolerância.
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§ Referências

Artigo principal e fontes-chave

Miller A, Wilkinson J, Kasal J. Diagnosis of Shock States. Crit Care Clin 2025;41(3):397–428. 10.1016/j.ccc.2025.03.001
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