Dor Torácica na Unidade de Emergência
O guia completo — e ilustrado — da primeira diretriz brasileira dedicada exclusivamente à dor torácica aguda: do primeiro contato ao ECG em 10 minutos, da instabilidade ao algoritmo de troponina 0-1h, incluindo dissecção de aorta, TEP e o modelo de Unidades de Dor Torácica.
Figura Central — os 3 passos
Suspeita clínica confirmada (dor torácica ou sintoma equivalente) → Passo 1: ECG até 10 min → Passo 2: avaliação inicial da rota diagnóstica → Passo 3: decisão clínica detalhada com apoio de algoritmos. ECG diagnóstico? Segue a rota terapêutica da doença estabelecida. Instável? Repetir ECG a cada 10-20 min + buscar ativamente diagnósticos diferenciais.
As 10 mensagens-chave da diretriz
Triagem & Abertura do Protocolo
O primeiro contato médico (FMC — first medical contact) idealmente ocorre no pré-hospitalar. A triagem de Manchester classifica a urgência por código de cores; para dor torácica (ou equivalente), o paciente deve sair da triagem como vermelho ou laranja — em ambos os casos, ECG nos primeiros 10 minutos.
Objetivos do protocolo (Tabela 1)
| Objetivo | Ação correspondente |
|---|---|
| Identificar, de forma precoce, pacientes com SCA (e outras doenças tempo-sensíveis) | ECG em até 10 minutos (repetir ECG, seriar marcadores e solicitar exames para diagnósticos diferenciais conforme indicado) |
| Evitar altas inadvertidas e internações desnecessárias | Algoritmos de decisão (pathways) baseados nas melhores práticas |
| Salvar vidas e reduzir sequelas (ex.: insuficiência cardíaca pós-infarto) | Tratamento precoce baseado em evidências (seguir diretrizes de tratamento específicas, como as de SCA) |
Critérios para ABERTURA do protocolo (enfermagem)
| Classe | Nível | Critério |
|---|---|---|
| I | C | Qualquer dor ATUAL (vigente na admissão) entre a cicatriz umbilical e a mandíbula |
| I | C | Qualquer dor torácica que tenha durado mais de 10 minutos (mesmo que ausente na admissão) |
| IIa | C | Paciente assintomático na admissão, mas com relato de desconforto epigástrico ou dor em braços/mandíbula antes da entrada no PS |
| IIa | C | Equivalentes isquêmicos (dispneia, diaforese e/ou PAS < 90 mmHg) em > 50 anos e/ou com diabetes ou doença cardiovascular conhecida |
| IIa | C | Solicitação após avaliação médica, na ausência dos critérios acima (suspeita de SCA ou de outras condições potencialmente fatais, como dissecção de aorta) |
Após a abertura: acrônimo MOVE
M — Monitorização
Com desfibrilador prontamente disponível.
O₂ — Oxigênio
Checar saturação; oxigenioterapia se SatO₂ < 90%.
V — Venoso
Acesso venoso; coletar sangue para laboratório durante a punção.
E — ECG em 10 min
ECG com avaliação médica imediata — sem esperar anamnese completa.
| Classe | Nível | Conduta inicial (Tabela 4) |
|---|---|---|
| I | B | Em pacientes com critérios de abertura do protocolo, realizar ECG de 12 derivações (idealmente + derivações complementares), avaliado por médico em até 10 minutos (tempo total desde o primeiro contato). ECG com paciente monitorizado (especialmente se sintoma persistente) ou, no mínimo, em ambiente com desfibrilador disponível. |
ECG nos Primeiros 10 Minutos
O ECG de 12 derivações é a ferramenta de primeira linha. Deve ser realizado em até 10 min após a chegada (ou no FMC pré-hospitalar) e imediatamente interpretado. A interpretação pode preceder a anamnese detalhada — ECG feito em 10 min mas não lido imediatamente não traz benefício ao paciente.
| # | Ação para reduzir o TPE (Tabela 5) |
|---|---|
| 1 | Mapeamento de processos para reconhecimento de falhas |
| 2 | ECG dedicado com técnico treinado na triagem |
| 3 | Treinamento da equipe de triagem para reconhecimento de sintomas suspeitos |
| 4 | Organização do fluxo da triagem (reduzir burocracias e priorizar ECG nos casos com indicação) |
| 5 | Feedback constante à equipe sobre o TPE |
ECG — Lesão Miocárdica & Oclusão Coronária
A diretriz recomenda avaliar achados de oclusão coronária além dos critérios clássicos de supra (mensagem 3) e pedir ajuda imediata em ECGs limítrofes (mensagem 4). Dois fluxogramas: Passo 1 — lesão miocárdica (elevação de ST / BVE / BVI) e Passo 2 — critérios de oclusão coronária.
Critérios ECG diagnósticos de SCA (Tabela 7)
| SCACSST sem bloqueio de ramo esquerdo — elevação nova do ST (ponto J) em ≥ 2 derivações contíguas | Ponto de corte |
|---|---|
| Homens < 40 anos em V2-V3 | ≥ 2,5 mm |
| Homens ≥ 40 anos em V2-V3 | ≥ 2,0 mm |
| Mulheres em V2-V3 | ≥ 1,5 mm |
| Demais derivações (independente de idade/sexo) | ≥ 1,0 mm |
| Derivações complementares (V7-V9, V3R-V4R) | ≥ 0,5 mm em ≥ 2 contíguas pode ser considerada; elevações limítrofes em D1 e aVL devem ser valorizadas (especialmente com depressão recíproca inferior) |
| SCACSST com bloqueio de ramo esquerdo | Critério |
|---|---|
| Sgarbossa original + modificado | Elevação concordante do ST ≥ 1 mm em derivações com QRS positivo |
| Depressão concordante | Infradesnível do ST ≥ 1 mm em V1-V3 (Sgarbossa) |
| Elevação discordante | ST ≥ 5 mm em derivações com QRS negativo e/ou relação ST/S ≥ 25% da amplitude da onda S (Sgarbossa modificado) |
| BVE novo isolado | Não é mais critério diagnóstico de SCACSST — situa em maior risco; correlacionar com a clínica |
Padrões de oclusão além do supra clássico
De Winter
Supradesnivelamento de base + onda T terminal negativa assimétrica em território anterior, sem supra clássico — oclusão de LAD proximal.
Aslanger
Infradesnivelamento difuso (> 5 derivações) com supra > 1 mm em aVR — oclusão de TCE ou 3 vasos.
T hiperaguda
Ondas T largas e assimétricas precoces — sinal de oclusão recente em evolução.
Distorção terminal do QRS
Alteração da fase terminal do QRS discordante da deflexão principal — marcador sensível de oclusão (De Winter/T-wave inversions territory).
Sgarbossa (BVE)
No BVE: concordância ST/QRS > 25%, supra ≥ 5 mm discordante, ou infradesnivelamento > 1 mm discordante.
BVE novo
Não é mais critério diagnóstico isolado de IAMCSST — situa o paciente em maior risco; correlacionar com a clínica.
Classificação do ECG na dor torácica (Figura 4)
Diferencial ECG: IAMCSST × Pericardite × Repolarização precoce (Tabela 10)
| Parâmetro ECG | IAM com supra | Pericardite aguda | Repolarização precoce |
|---|---|---|---|
| Morfologia do ST | Convexidade para cima (côncava nas fases iniciais, evolui se não tratado) | Concavidade para cima | Concavidade para cima |
| Imagem em espelho (infradesnível em derivações opostas) | Presente na maioria dos casos | Ausente | Ausente |
| Ondas Q patológicas | Presentes em boa parte dos casos | Ausentes | Ausentes |
| Localização do supradesnível | Parede envolvida pelo IAM | Difuso (poupa V1 e aVR) | Mais frequente em derivações precordiais |
| Infradesnível do PR | Ausente | Presente | Ausente |
| Inversão da onda T | Na vigência do supra | Após normalização do ST | Sem mudança ao repouso |
| Relação ST/onda T | Não se aplica | ≥ 0,25 | < 0,25 (onda T de maior amplitude) |
Alterações de repolarização — exemplos (Figuras 2 e 3)
Diagnósticos Diferenciais
Dor torácica não é sinônimo de SCA. Na prática, as causas são amplas — e a diretriz organiza a investigação por probabilidade pré-teste. Os principais diferenciais fatais: dissecção de aorta, TEP, pneumotórax hipertensivo, tamponamento, rotura esofágica.
| Classe | Nível | Conduta nos diagnósticos diferenciais (Tabelas 20-21) |
|---|---|---|
| I | C | Em pacientes instáveis, realizar POCUS com urgência e/ou ecocardiograma completo para busca ativa de causas potencialmente fatais (infarto, dissecção de aorta, TEP, tamponamento, rotura esofágica, pneumotórax hipertensivo). |
| I | C | Utilizar escores de probabilidade diagnóstica (ADD-RS para aorta; Wells/Geneva para TEP) para direcionar os exames de imagem. |
| IIa | C | Considerar D-dímero para descarte em baixa probabilidade pré-teste (dissecção e TEP). |
| IIb | C | Considerar POCUS como triagem em pacientes estáveis quando houver suspeita específica (dissecção, tamponamento). |
Instabilidade & POCUS
Critérios de instabilidade na Figura Central: ECG limítrofe, dor persistente, instabilidade hemodinâmica, má perfusão, congestão pulmonar aguda, taquiarritmia/bradiarritmia no cenário de dor torácica aguda. O POCUS (ecocardiograma no leito) é a ferramenta complementar para busca ativa das causas fatais quando o choque/dor for obscuro.
Janelas de POCUS (Figura 7)
Exemplos clínicos de POCUS (Figuras S3–S6)
Dissecção de aorta
Tromboembolismo pulmonar (sobrecarga pressórica do VD)
Infarto agudo do miocárdico
Derrame pericárdico
Síndrome Aórtica Aguda (Dissecção)
A dissecção de aorta se apresenta com dor torácica em ~10% dos casos e tem mortalidade que dobra a cada 4-8 horas sem tratamento. A diretriz propõe um algoritmo em 2 estágios: probabilidade pré-teste (escore ADD-RS + POCUS/RT) → D-dímero (baixa probabilidade) → angiotomografia (alta probabilidade ou D-dímero positivo).
Tromboembolismo Pulmonar
A diretriz recomenda escores de probabilidade diagnóstica (Wells, Geneva) para investigar TEP na dor torácica. O algoritmo começa com a estratificação: choque/instabilidade → angiotomografia direta; estável → probabilidade pré-teste → D-dímero (baixa) ou angiotomografia (alta).
Escore de Wells (Tabela 19)
| Critério | Pontos |
|---|---|
| Sinais clínicos de TVP | +3 |
| Ausência de diagnóstico alternativo mais provável que TEP | +3 |
| TVP ou TEP prévios | +1,5 |
| FC > 100 bpm | +1,5 |
| Imobilização por mais de 2 dias ou cirurgia nas últimas 4 semanas | +1,5 |
| Hemoptise | +1 |
| Câncer (atual, tratado nos últimos 6 meses, ou cuidados paliativos) | +1 |
PERC — Pulmonary Embolism Rule-out Criteria (Tabela 22)
| Item (PERC positivo se presente) | |
|---|---|
| Idade ≥ 50 anos | |
| Frequência cardíaca ≥ 100 bpm | |
| Saturação de O₂ < 95% em ar ambiente | |
| Edema assimétrico dos membros inferiores | |
| Hemoptise | |
| Cirurgia ou trauma nas últimas 4 semanas | |
| História prévia de TVP ou TEP | |
| Tratamento hormonal |
Algoritmos de Troponina
A troponina cardíaca de alta sensibilidade (TCas) é o marcador de escolha para investigação de IAM (classe I, B). A diretriz recomenda priorizar algoritmos de 0-1h (primeira escolha), 0-2h (alternativa), e usar 0-3h apenas na impossibilidade dos dois primeiros.
Valores por kit (Tabela 26) — fluxograma 0-1/2h
| Ensaio | Muito baixo | Baixo | Sem Δ 1h | Elevado | Δ 1h |
|---|---|---|---|---|---|
| hs-cTnT (Elecsys; Roche) | < 5 | < 12 | < 3 | ≥ 52 | ≥ 5 |
| hs-cTnI (Architect; Abbott) | < 4 | < 5 | < 2 | ≥ 64 | ≥ 6 |
| hs-cTnI (Centaur; Siemens) | < 3 | < 6 | < 3 | ≥ 120 | ≥ 12 |
| hs-cTnI (Access; Beckman Coulter) | < 4 | < 5 | < 4 | ≥ 50 | ≥ 15 |
| hs-cTnI (Pathfast; LSI Medience) | < 3 | < 4 | < 3 | ≥ 90 | ≥ 20 |
Direcionamento dos casos (Tabela 27)
| Classe | Nível | Conduta |
|---|---|---|
| I | B | Na ausência de outras hipóteses de risco (ex.: angina instável, dissecção de aorta), pacientes com clínica-ECG não-diagnóstica e classificação rule-out nos algoritmos 0-1h/0-2h podem receber alta para investigação ambulatorial, especialmente na ausência de DAC conhecida e escore de baixo risco (HEART ≤ 3). |
| I | B | Pacientes com classificação rule-in devem ter ativamente checados os critérios diagnósticos de IAM (tipo 1 ou 2) e de outras causas de injúria miocárdica, com abordagem inicialmente intra-hospitalar. |
| I | B | Situações fora de rule-in/rule-out (zona “cinza”) e/ou clínica não caracterizada de baixo risco (HEART elevado, suspeita persistente de diagnóstico fatal) = probabilidade intermediária, avaliar individualmente com exames não invasivos (grupo observação). |
TINOCA / MINOCA
Cerca de 5-15% dos casos diagnosticados como IAM que vão à cineangio não apresentam obstrução ≥ 50%. Troponina anormal + coronárias sem obstrução = TINOCA; se confirmado IAM = MINOCA. Subgrupos: MINOCA, outras causas cardíacas (miocardite, Takotsubo) e causas extracardíacas.
| Classe | Nível | Investigação adicional (Tabela 29) |
|---|---|---|
| I | C | Confirmar se realmente é TINOCA (rever imagem da angiografia em busca de obstrução, dissecção, embolia, trombo coronário; checar outros exames para diferenciais como Takotsubo). |
| IIa | C | Solicitar ressonância magnética cardíaca e outros exames conforme suspeita clínica (imagem intracoronária, testes para espasmo ou doença microvascular). |
Uso Racional dos Testes Não Invasivos
Para probabilidade intermediária (zona de observação), o exame complementar deve ser escolhido por disponibilidade/experiência do serviço + antecedente de DAC conhecida + exames prévios. Na probabilidade intermediária, a diretriz permite ecocardiograma, teste ergométrico, RM, medicina nuclear ou angiotomografia, conforme o contexto.
Unidades de Dor Torácica
O protocolo institucional pode atuar no pré-hospitalar (ambulância, telemedicina, ECG pré-hospitalar, tele-ECG) e no intra-hospitalar. As Unidades de Dor Torácica (UDT) são recomendadas em serviços de alto volume e capacidade de reperfusão/hemodinâmica, com o objetivo de acelerar o diagnóstico e reduzir o tempo de reperfusão.
Calculadora do Escore HEART
Combine os 5 domínios (História, ECG, Idade, Fatores de Risco, Troponina) — cada um de 0 a 2 pontos — e veja o risco de evento cardíaco adverso maior em 6 semanas. HEART < 4 + troponinas normais = VPN de 99% (segurança para alta).
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