Dor Torácica na Emergência — Diretriz SBC 2025
Arq Bras Cardiol 2025;122(9):e20250620 · de Barros e Silva et al.
🇧🇷 Diretriz SBC · GECETI · FLAME · 2025

Dor Torácica na Unidade de Emergência

O guia completo — e ilustrado — da primeira diretriz brasileira dedicada exclusivamente à dor torácica aguda: do primeiro contato ao ECG em 10 minutos, da instabilidade ao algoritmo de troponina 0-1h, incluindo dissecção de aorta, TEP e o modelo de Unidades de Dor Torácica.

73 páginas 40+ tabelas de recomendação 25 figuras originais 10 mensagens-chave
Fluxo-mestre da diretriz

Figura Central — os 3 passos

Suspeita clínica confirmada (dor torácica ou sintoma equivalente) → Passo 1: ECG até 10 min → Passo 2: avaliação inicial da rota diagnóstica → Passo 3: decisão clínica detalhada com apoio de algoritmos. ECG diagnóstico? Segue a rota terapêutica da doença estabelecida. Instável? Repetir ECG a cada 10-20 min + buscar ativamente diagnósticos diferenciais.

Figura Central da Diretriz: fluxograma dos 3 passos do atendimento à dor torácica
Figura Central. Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência — 2025. Critérios de instabilidade: ECG limítrofe, dor persistente, instabilidade hemodinâmica/má perfusão, congestão pulmonar aguda, taquiarritmia/bradiarritmia no cenário de dor torácica aguda.
🕒 Tempo é músculo. TPE (tempo porta-ECG) > 10 min associou-se a IAM recorrente ou morte (OR 3,95; IC 95% 1,06-14,72) em registro de >7.500 pacientes (EUA/Canadá), onde apenas 40% dos IAMCSST receberam ECG em ≤ 10 min. A cada 30 min de atraso na reperfusão: +7,5% de mortalidade.

As 10 mensagens-chave da diretriz

1
Qualquer pessoa com dor torácica aguda (ou sintoma equivalente) deve procurar atendimento médico imediatamente (orientar a população).
2
Serviços de pronto-atendimento devem instituir métricas para conseguir realizar e interpretar o ECG dentro de 10 minutos do atendimento inicial.
3
Avaliar achados de oclusão coronária no ECG — indo além dos critérios clássicos de SCA com elevação de ST (De Winter, Aslanger, T hiperaguda, distorção terminal do QRS).
4
Pedir ajuda imediata nos casos de ECG limítrofe ou de difícil interpretação.
5
POCUS é ferramenta complementar útil, especialmente nos casos de instabilidade ou suspeitas específicas (ex.: dissecção de aorta).
6
Utilizar escores de risco e probabilidade diagnóstica para investigação de dissecção de aorta e embolia pulmonar.
7
Na investigação de IAM, preferência por algoritmos 0-1h ou 0-2h com troponina cardíaca de alta sensibilidade.
8
Pacientes “rule-out” podem ser liberados para investigação ambulatorial com segurança — especialmente na ausência de doença coronária conhecida e HEART score < 4.
9
Classificação “rule-in” (admissão) indica necessidade de definir se há diagnóstico de IAM ou investigar ativamente outra causa de injúria miocárdica.
10
Exame de imagem deve ser indicado em casos de probabilidade intermediária (zona de observação); a escolha do método se baseia na disponibilidade/experiência do serviço, antecedente de DAC conhecida e exames prévios.
Figura 17: 10 mensagens principais da diretriz
Figura 17. 10 mensagens principais da Diretriz de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência.
Seção 01

Triagem & Abertura do Protocolo

O primeiro contato médico (FMC — first medical contact) idealmente ocorre no pré-hospitalar. A triagem de Manchester classifica a urgência por código de cores; para dor torácica (ou equivalente), o paciente deve sair da triagem como vermelho ou laranja — em ambos os casos, ECG nos primeiros 10 minutos.

Figura 1: Triagem de Manchester — pulseiras de identificação por código de cores
Figura 1. Triagem de Manchester — pulseiras de identificação. O protocolo funciona com um código de 5 cores atribuídas às pulseiras de identificação dos pacientes; dor torácica = prioridade vermelho/laranja.

Objetivos do protocolo (Tabela 1)

ObjetivoAção correspondente
Identificar, de forma precoce, pacientes com SCA (e outras doenças tempo-sensíveis)ECG em até 10 minutos (repetir ECG, seriar marcadores e solicitar exames para diagnósticos diferenciais conforme indicado)
Evitar altas inadvertidas e internações desnecessáriasAlgoritmos de decisão (pathways) baseados nas melhores práticas
Salvar vidas e reduzir sequelas (ex.: insuficiência cardíaca pós-infarto)Tratamento precoce baseado em evidências (seguir diretrizes de tratamento específicas, como as de SCA)
SCA: síndrome coronariana aguda; ECG: eletrocardiograma.

Critérios para ABERTURA do protocolo (enfermagem)

ClasseNívelCritério
ICQualquer dor ATUAL (vigente na admissão) entre a cicatriz umbilical e a mandíbula
ICQualquer dor torácica que tenha durado mais de 10 minutos (mesmo que ausente na admissão)
IIaCPaciente assintomático na admissão, mas com relato de desconforto epigástrico ou dor em braços/mandíbula antes da entrada no PS
IIaCEquivalentes isquêmicos (dispneia, diaforese e/ou PAS < 90 mmHg) em > 50 anos e/ou com diabetes ou doença cardiovascular conhecida
IIaCSolicitação após avaliação médica, na ausência dos critérios acima (suspeita de SCA ou de outras condições potencialmente fatais, como dissecção de aorta)
10-30% dos pacientes com SCA não apresentam dor torácica (especialmente idosos ou diabéticos) — critérios sensíveis com equivalentes ampliam a detecção, com vigilância contra sobrecarga da unidade.

Após a abertura: acrônimo MOVE

M — Monitorização

Com desfibrilador prontamente disponível.

O₂ — Oxigênio

Checar saturação; oxigenioterapia se SatO₂ < 90%.

V — Venoso

Acesso venoso; coletar sangue para laboratório durante a punção.

E — ECG em 10 min

ECG com avaliação médica imediata — sem esperar anamnese completa.

⚠️ Avaliação detalhada da dor é PARALELA ao ECG — nunca atrasa o traçado. A prioridade é o ECG rápido, tanto na dor “típica” quanto “atípica” (termos em desuso).
ClasseNívelConduta inicial (Tabela 4)
IBEm pacientes com critérios de abertura do protocolo, realizar ECG de 12 derivações (idealmente + derivações complementares), avaliado por médico em até 10 minutos (tempo total desde o primeiro contato). ECG com paciente monitorizado (especialmente se sintoma persistente) ou, no mínimo, em ambiente com desfibrilador disponível.
Seção 02

ECG nos Primeiros 10 Minutos

O ECG de 12 derivações é a ferramenta de primeira linha. Deve ser realizado em até 10 min após a chegada (ou no FMC pré-hospitalar) e imediatamente interpretado. A interpretação pode preceder a anamnese detalhada — ECG feito em 10 min mas não lido imediatamente não traz benefício ao paciente.

#Ação para reduzir o TPE (Tabela 5)
1Mapeamento de processos para reconhecimento de falhas
2ECG dedicado com técnico treinado na triagem
3Treinamento da equipe de triagem para reconhecimento de sintomas suspeitos
4Organização do fluxo da triagem (reduzir burocracias e priorizar ECG nos casos com indicação)
5Feedback constante à equipe sobre o TPE
Caso real (Sprockel et al.): ECG dedicado na triagem + técnico exclusivo → mediana caiu de 16 min para 5 min; % em ≤10 min: 41% → 63%. Outro serviço: 21,3 min → 9,5 min (melhora de 55%).
📏 Como medir: tempo “porta” = FMC (padrão internacional) — monitorar também o tempo pré-triagem. Tempo “ECG” = horário registrado no aparelho (desde que calibrado e com entrega imediata ao médico). Em tele-ECG, o laudo em < 5 min é a meta desejável.
Seção 03

ECG — Lesão Miocárdica & Oclusão Coronária

A diretriz recomenda avaliar achados de oclusão coronária além dos critérios clássicos de supra (mensagem 3) e pedir ajuda imediata em ECGs limítrofes (mensagem 4). Dois fluxogramas: Passo 1 — lesão miocárdica (elevação de ST / BVE / BVI) e Passo 2 — critérios de oclusão coronária.

Figura 5: Passo 1 — presença ou ausência de lesão miocárdica no ECG
Figura 5 — Passo 1. Presença ou ausência de lesão miocárdica (elevação de ST, BVE, BVI) no ECG de 12 derivações realizado em até 10 min após a abertura do protocolo. BVE = bloqueio de ramo esquerdo; BVI = bloqueio de ramo direito; ST = segmento ST; LAD = artéria descendente anterior. ECG diagnóstico → rota terapêutica da doença estabelecida.
Figura 6: Passo 2 — critérios de oclusão coronária
Figura 6 — Passo 2. Critérios para oclusão coronária além do supra clássico. BVE: bloqueio de ramo esquerdo; TCE: tronco da coronária esquerda.

Critérios ECG diagnósticos de SCA (Tabela 7)

SCACSST sem bloqueio de ramo esquerdo — elevação nova do ST (ponto J) em ≥ 2 derivações contíguasPonto de corte
Homens < 40 anos em V2-V3≥ 2,5 mm
Homens ≥ 40 anos em V2-V3≥ 2,0 mm
Mulheres em V2-V3≥ 1,5 mm
Demais derivações (independente de idade/sexo)≥ 1,0 mm
Derivações complementares (V7-V9, V3R-V4R)≥ 0,5 mm em ≥ 2 contíguas pode ser considerada; elevações limítrofes em D1 e aVL devem ser valorizadas (especialmente com depressão recíproca inferior)
SCACSST com bloqueio de ramo esquerdoCritério
Sgarbossa original + modificadoElevação concordante do ST ≥ 1 mm em derivações com QRS positivo
Depressão concordanteInfradesnível do ST ≥ 1 mm em V1-V3 (Sgarbossa)
Elevação discordanteST ≥ 5 mm em derivações com QRS negativo e/ou relação ST/S ≥ 25% da amplitude da onda S (Sgarbossa modificado)
BVE novo isoladoNão é mais critério diagnóstico de SCACSST — situa em maior risco; correlacionar com a clínica

Padrões de oclusão além do supra clássico

De Winter

Supradesnivelamento de base + onda T terminal negativa assimétrica em território anterior, sem supra clássico — oclusão de LAD proximal.

Aslanger

Infradesnivelamento difuso (> 5 derivações) com supra > 1 mm em aVR — oclusão de TCE ou 3 vasos.

T hiperaguda

Ondas T largas e assimétricas precoces — sinal de oclusão recente em evolução.

Distorção terminal do QRS

Alteração da fase terminal do QRS discordante da deflexão principal — marcador sensível de oclusão (De Winter/T-wave inversions territory).

Sgarbossa (BVE)

No BVE: concordância ST/QRS > 25%, supra ≥ 5 mm discordante, ou infradesnivelamento > 1 mm discordante.

BVE novo

Não é mais critério diagnóstico isolado de IAMCSST — situa o paciente em maior risco; correlacionar com a clínica.

Classificação do ECG na dor torácica (Figura 4)

Figura 4: classificação das alterações do ECG
Figura 4. Classificação das alterações do ECG no atendimento à dor torácica aguda (diagnóstico de SCA / achados de oclusão / não diagnóstico → investigação).

Diferencial ECG: IAMCSST × Pericardite × Repolarização precoce (Tabela 10)

Parâmetro ECGIAM com supraPericardite agudaRepolarização precoce
Morfologia do STConvexidade para cima (côncava nas fases iniciais, evolui se não tratado)Concavidade para cimaConcavidade para cima
Imagem em espelho (infradesnível em derivações opostas)Presente na maioria dos casosAusenteAusente
Ondas Q patológicasPresentes em boa parte dos casosAusentesAusentes
Localização do supradesnívelParede envolvida pelo IAMDifuso (poupa V1 e aVR)Mais frequente em derivações precordiais
Infradesnível do PRAusentePresenteAusente
Inversão da onda TNa vigência do supraApós normalização do STSem mudança ao repouso
Relação ST/onda TNão se aplica≥ 0,25< 0,25 (onda T de maior amplitude)
Na pericardite, o ECG via de regra não respeita territórios coronários — mas há exceções em que a pericardite (ou miopericardite) pode ser localizada.

Alterações de repolarização — exemplos (Figuras 2 e 3)

Figura 2: representação das alterações no segmento ST
Figura 2. Representação das alterações no segmento ST — A) ST normal; B) infradesnível horizontal e C) infradesnível descendente (corrente de lesão subendocárdica); D) supradesnível do ST, mostrando a maneira correta de medi-lo.
Figura 3: representação das alterações na onda T
Figura 3. Representação das alterações na onda T — A) onda T normal (assimetria com ascensão lenta e descenso rápido); B) onda T isquêmica, simétrica, invertida e de maior amplitude; C) T hiperaguda, de grande magnitude e simétrica, que costuma preceder o supradesnível do ST.
Seção 04

Diagnósticos Diferenciais

Dor torácica não é sinônimo de SCA. Na prática, as causas são amplas — e a diretriz organiza a investigação por probabilidade pré-teste. Os principais diferenciais fatais: dissecção de aorta, TEP, pneumotórax hipertensivo, tamponamento, rotura esofágica.

ClasseNívelConduta nos diagnósticos diferenciais (Tabelas 20-21)
ICEm pacientes instáveis, realizar POCUS com urgência e/ou ecocardiograma completo para busca ativa de causas potencialmente fatais (infarto, dissecção de aorta, TEP, tamponamento, rotura esofágica, pneumotórax hipertensivo).
ICUtilizar escores de probabilidade diagnóstica (ADD-RS para aorta; Wells/Geneva para TEP) para direcionar os exames de imagem.
IIaCConsiderar D-dímero para descarte em baixa probabilidade pré-teste (dissecção e TEP).
IIbCConsiderar POCUS como triagem em pacientes estáveis quando houver suspeita específica (dissecção, tamponamento).
🚨 Dissecção de aorta + trombolítico = catástrofe. A dissecção se apresenta com dor torácica aguda em ~10% dos casos de dor. Se a suspeita de dissecção existir, a trombólise está contraindicada — investigar antes de trombolisar.
Seção 05

Instabilidade & POCUS

Critérios de instabilidade na Figura Central: ECG limítrofe, dor persistente, instabilidade hemodinâmica, má perfusão, congestão pulmonar aguda, taquiarritmia/bradiarritmia no cenário de dor torácica aguda. O POCUS (ecocardiograma no leito) é a ferramenta complementar para busca ativa das causas fatais quando o choque/dor for obscuro.

Janelas de POCUS (Figura 7)

Figura 7: janelas ecocardiográficas de POCUS
Figura 7. Janelas de POCUS no atendimento à dor torácica com instabilidade — avaliação rápida de função ventricular, derrame pericárdico, trombo, dissecção de aorta, pneumotórax.
Figura 8: estruturas avaliadas no POCUS
Figura 8. Estruturas cardíacas avaliadas no POCUS durante o protocolo de dor torácica.

Exemplos clínicos de POCUS (Figuras S3–S6)

Dissecção de aorta

Figura S3A: dissecção — fluxo pela luz verdadeira
Fig. S3A. Fluxo (em azul) segue pela luz verdadeira.
Figura S3B: aneurisma de aorta descendente
Fig. S3B. Aneurisma de aorta descendente; Fig. S3C — linha de dissecção visualizada.
Figura S3C: linha de dissecção
Fig. S3C. Linha de dissecção — dissecção e aneurisma em aorta ascendente no corte paraesternal longitudinal.

Tromboembolismo pulmonar (sobrecarga pressórica do VD)

Figura S4A: sobrecarga pressórica do VD
Fig. S4A. Sobrecarga pressórica do VD sobre o VE — VD com diâmetros aumentados empurra o septo interventricular em direção ao VE.
Figura S4B: VD dilatado
Fig. S4B. VD dilatado com colapso septal (sinal de sobrecarga pressórica aguda).

Infarto agudo do miocárdico

Figura S5A: dilatação do VE com contraste espontâneo
Fig. S5A. Importante dilatação do VE com contraste espontâneo em seu interior.
Figura S5B: insuficiência mitral grave e CIV pós-IAM
Fig. S5B. Insuficiência mitral grave secundária à isquemia de músculo papilar; CIV pós-IAM (fluxo do VE para o VD em vermelho).

Derrame pericárdico

Figura S6A: derrame pericárdico volumoso — paraesternal transversal
Fig. S6A. Derrame pericárdico volumoso — janela paraesternal transversal (líquido ao redor de todo o coração).
Figura S6B: derrame pericárdico — subcostal
Fig. S6B. Derrame pericárdico volumoso — janela subcostal.
⚠️ POCUS não substitui o ecocardiograma completo quando a suspeita persiste — é uma ferramenta de triagem e busca rápida das causas fatais no paciente instável.
Figura S7: avaliação do paciente com dor torácica e instabilidade hemodinâmica
Figura S7. Avaliação do paciente com dor torácica e instabilidade — pensar nas principais causas: infarto, embolia pulmonar, ruptura esofágica, pneumotórax, tamponamento, dissecção de aorta.
Seção 06

Síndrome Aórtica Aguda (Dissecção)

A dissecção de aorta se apresenta com dor torácica em ~10% dos casos e tem mortalidade que dobra a cada 4-8 horas sem tratamento. A diretriz propõe um algoritmo em 2 estágios: probabilidade pré-teste (escore ADD-RS + POCUS/RT) → D-dímero (baixa probabilidade) → angiotomografia (alta probabilidade ou D-dímero positivo).

Figura 9: algoritmo diagnóstico de síndrome aórtica aguda
Figura 9. Algoritmo diagnóstico para síndrome aórtica aguda — ADD-RS (aortic dissection risk score), D-dímero < 500 ng/mL para descarte em baixa probabilidade, angiotomografia em alta probabilidade ou D-dímero positivo.
🎯 D-dímero < 500 ng/mL + baixa probabilidade (ADD-RS ≤ 1 e POCUS/RT sem sinais) = rule-out para dissecção: procurar outro diagnóstico. Acima disso — ou alta probabilidade — angiotomografia aórtica (TC de tórax + abdome + pelve com contraste).
Seção 07

Tromboembolismo Pulmonar

A diretriz recomenda escores de probabilidade diagnóstica (Wells, Geneva) para investigar TEP na dor torácica. O algoritmo começa com a estratificação: choque/instabilidade → angiotomografia direta; estável → probabilidade pré-teste → D-dímero (baixa) ou angiotomografia (alta).

Figura 10: fluxograma para diagnóstico de TEP
Figura 10. Fluxograma para diagnóstico de tromboembolismo pulmonar — estratificação por estabilidade, escores de probabilidade (Wells/Geneva) e D-dímero para descarte em baixa probabilidade.

Escore de Wells (Tabela 19)

CritérioPontos
Sinais clínicos de TVP+3
Ausência de diagnóstico alternativo mais provável que TEP+3
TVP ou TEP prévios+1,5
FC > 100 bpm+1,5
Imobilização por mais de 2 dias ou cirurgia nas últimas 4 semanas+1,5
Hemoptise+1
Câncer (atual, tratado nos últimos 6 meses, ou cuidados paliativos)+1
Interpretação (Tabela 20) — 3 níveis: baixa < 2 (1-3%), intermediária 2-6 (16-28%), alta > 6 (> 40%). 2 níveis: improvável ≤ 4 (~3%), provável > 4 (~28%). Baixa/improvável → D-dímero; intermediária/alta/provável → exame de imagem.

PERC — Pulmonary Embolism Rule-out Criteria (Tabela 22)

🎯 PERC positivo = presença de ≥ 1 dos itens abaixo (sugere fazer D-dímero). PERC zero (baixa probabilidade) = TEP pode ser excluído sem exames adicionais.
Item (PERC positivo se presente)
Idade ≥ 50 anos
Frequência cardíaca ≥ 100 bpm
Saturação de O₂ < 95% em ar ambiente
Edema assimétrico dos membros inferiores
Hemoptise
Cirurgia ou trauma nas últimas 4 semanas
História prévia de TVP ou TEP
Tratamento hormonal
Uso (Tabela 23): Wells/Geneva aplicados na avaliação inicial de probabilidade pré-teste (classe I, nível A). PERC usado em baixa probabilidade pré-teste para protocolo de rule-out (classe IIa, B). D-dímero positivo ≥ 500 ng/mL (µg/L) ou ponto de corte ajustado por idade (idade × 10 a partir dos 50 anos) para melhorar especificidade.
Seção 08

Algoritmos de Troponina

A troponina cardíaca de alta sensibilidade (TCas) é o marcador de escolha para investigação de IAM (classe I, B). A diretriz recomenda priorizar algoritmos de 0-1h (primeira escolha), 0-2h (alternativa), e usar 0-3h apenas na impossibilidade dos dois primeiros.

Figura 11: fluxograma de troponina de alta sensibilidade 0-1 hora
Figura 11. Fluxograma de troponina de alta sensibilidade 0-1 hora — classificação em rule-out, observação (zona cinza) e rule-in.
Figura 11b: fluxograma 0-3 horas
Figura 11b. Fluxograma 0-3 horas (apenas se impossível 0-1h/0-2h) — única dosagem se sintomas > 6h ou seriadas a cada 3h se < 6h.
Figura 12: zonas do algoritmo de troponina
Figura 12. Zonas de classificação no algoritmo de troponina 0-1h/0-2h: rule-out (verde), observação (amarelo, probabilidade intermediária), rule-in (vermelho).

Valores por kit (Tabela 26) — fluxograma 0-1/2h

EnsaioMuito baixoBaixoSem Δ 1hElevadoΔ 1h
hs-cTnT (Elecsys; Roche)< 5< 12< 3≥ 52≥ 5
hs-cTnI (Architect; Abbott)< 4< 5< 2≥ 64≥ 6
hs-cTnI (Centaur; Siemens)< 3< 6< 3≥ 120≥ 12
hs-cTnI (Access; Beckman Coulter)< 4< 5< 4≥ 50≥ 15
hs-cTnI (Pathfast; LSI Medience)< 3< 4< 3≥ 90≥ 20
Valores-guia (ng/L). “Muito baixo” (rule-out imediato + sintomas > 3h, assimptomático); “Baixo” sem delta (rule-out); “Elevado” e/ou Δ ≥ (rule-in). Na dúvida do kit, consultar a tabela completa do artigo (inclui também Vitros, Singulex, TriageTrue, Dimension EXL). Cuidado com troponina alterada sem delta — pode ser fase de platô de um IAM.

Direcionamento dos casos (Tabela 27)

ClasseNívelConduta
IBNa ausência de outras hipóteses de risco (ex.: angina instável, dissecção de aorta), pacientes com clínica-ECG não-diagnóstica e classificação rule-out nos algoritmos 0-1h/0-2h podem receber alta para investigação ambulatorial, especialmente na ausência de DAC conhecida e escore de baixo risco (HEART ≤ 3).
IBPacientes com classificação rule-in devem ter ativamente checados os critérios diagnósticos de IAM (tipo 1 ou 2) e de outras causas de injúria miocárdica, com abordagem inicialmente intra-hospitalar.
IBSituações fora de rule-in/rule-out (zona “cinza”) e/ou clínica não caracterizada de baixo risco (HEART elevado, suspeita persistente de diagnóstico fatal) = probabilidade intermediária, avaliar individualmente com exames não invasivos (grupo observação).

TINOCA / MINOCA

Cerca de 5-15% dos casos diagnosticados como IAM que vão à cineangio não apresentam obstrução ≥ 50%. Troponina anormal + coronárias sem obstrução = TINOCA; se confirmado IAM = MINOCA. Subgrupos: MINOCA, outras causas cardíacas (miocardite, Takotsubo) e causas extracardíacas.

Figura S1: dinâmica do segmento ST em paciente com SCA
Figura S1. SCA tipo I — mulher de 52 anos com angina recorrente de 15 min: A) ECG na admissão; B) ECG no momento da recorrência evidenciando infradesnivelamento horizontal do ST > 0,5 mm em DII, DIII, aVF, V3-V6 (SCASSST).
Figura 15: fluxograma de investigação de TINOCA/MINOCA
Figura 15. Fluxograma de investigação de casos de troponina elevada sem obstrução coronária (TINOCA/MINOCA).
ClasseNívelInvestigação adicional (Tabela 29)
ICConfirmar se realmente é TINOCA (rever imagem da angiografia em busca de obstrução, dissecção, embolia, trombo coronário; checar outros exames para diferenciais como Takotsubo).
IIaCSolicitar ressonância magnética cardíaca e outros exames conforme suspeita clínica (imagem intracoronária, testes para espasmo ou doença microvascular).
Seção 09

Uso Racional dos Testes Não Invasivos

Para probabilidade intermediária (zona de observação), o exame complementar deve ser escolhido por disponibilidade/experiência do serviço + antecedente de DAC conhecida + exames prévios. Na probabilidade intermediária, a diretriz permite ecocardiograma, teste ergométrico, RM, medicina nuclear ou angiotomografia, conforme o contexto.

Figura 13: fluxograma de teste não invasivo sem DAC conhecida
Figura 13. Fluxograma de realização de testes não invasivos em pacientes sem DAC conhecida na probabilidade intermediária.
Figura 14: fluxograma de teste não invasivo com DAC conhecida
Figura 14. Fluxograma de realização de testes não invasivos em pacientes com DAC conhecida — angio-TC, estresse, eco, RM, conforme risco e disponibilidade.
🎯 Regra prática (classe IIb, C): com angio-TC completamente normal nos últimos 2 anos (ou teste de estresse adequadamente negativo no último ano) e sintomas estáveis, pode-se considerar não repetir o teste não invasivo.
Seção 10

Unidades de Dor Torácica

O protocolo institucional pode atuar no pré-hospitalar (ambulância, telemedicina, ECG pré-hospitalar, tele-ECG) e no intra-hospitalar. As Unidades de Dor Torácica (UDT) são recomendadas em serviços de alto volume e capacidade de reperfusão/hemodinâmica, com o objetivo de acelerar o diagnóstico e reduzir o tempo de reperfusão.

🏥 UDT: estrutura dedicada com leitos de observação, equipe treinada (emergencista/cardiologista), biomarcadores em tempo oportuno e protocolo escrito. A implementação reduz mortalidade cardiovascular e o número de altas inadvertidas.
Figura 16: campanha de conscientização sobre dor no peito
Figura 16. Material de conscientização da diretriz: “Dor no peito — cuidado precoce salva vidas”, destacando que mulheres têm dor no peito com frequência semelhante à dos homens no infarto.
🗓️ Pr growth <> qualidade: a diretriz enfatiza métricas contínuas de desempenho (TPE ≤ 10 min, % de ECG interpretados em tempo hábil, tempos de reperfusão) — medir, auditar e dar feedback à equipe.
Simulador

Calculadora do Escore HEART

Combine os 5 domínios (História, ECG, Idade, Fatores de Risco, Troponina) — cada um de 0 a 2 pontos — e veja o risco de evento cardíaco adverso maior em 6 semanas. HEART < 4 + troponinas normais = VPN de 99% (segurança para alta).

H — História (suspeita de SCA)
E — ECG
A — Idade
R — Fatores de risco
T — Troponina (inicial)
Total: 0/10
risco de MACE em 6 semanas
Quiz

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Referências

Fonte & Referências

[1]de Barros e Silva GM, Jardim C, et al. Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência — 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250620. doi: 10.36660/abc.20250620 ↗
[2]Todas as figuras são reproduzidas da diretriz original (autorizadas para fins didáticos); tabelas e diagramas foram recriados para esta página. Este material é um resumo didático — toda conduta deve seguir a diretriz original e o julgamento clínico local.