Humanizar a UTI é cuidar de quem vive, de quem acompanha e de quem cuida.
Esta apostila reúne as 160 boas práticas de humanização das Unidades de Terapia Intensiva, organizadas em 7 linhas estratégicas. Leia como um livro — e use cada lista como autoavaliação, marcando o que sua unidade já alcançou.
Solicitação
A unidade pede, de forma voluntária, para entrar no processo de revisão.
Autoavaliação
A equipe reúne as evidências de cumprimento das boas práticas (até 12 meses).
Avaliação
Auditoria externa: análise documental e verificação presencial.
Certificação
Relatório com o nível atingido e oportunidades de melhoria.
Como funciona a certificação
O programa de certificação em humanização nasceu do Projeto HU-CI (Humanizando los Cuidados Intensivos), grupo multidisciplinar de profissionais, pacientes e familiares, e foi trazido ao Brasil pela AMIB. Ele reconhece, de forma pública, as unidades que cumprem os requisitos de uma atenção humanizada e de qualidade.
São 160 boas práticas distribuídas em 7 linhas estratégicas. A certificação tem validade de quatro anos e parte de uma autoavaliação: a unidade identifica onde está, define onde quer chegar e planeja as ações. É exatamente para isso que servem as listas desta apostila.
As boas práticas se organizam em três níveis, que definem o grau de reconhecimento alcançado:
Obrigatórias
Necessárias para afirmar que a unidade tem um nível básico de humanização.
Essenciais
Não obrigatórias, mas seu cumprimento revela um patamar mais avançado.
Desejáveis
Elevam a unidade a um nível de excelência no cuidado humanizado.
Como usar esta página: clique em qualquer item para marcá-lo como implementado na sua unidade. O progresso aparece em cada linha e no topo da página, e fica salvo no seu navegador. Use o botão ↺ para recomeçar e o ⎙ para gerar um PDF.
Sobre os níveis: o manual original assinala caso a caso quais práticas são obrigatórias, essenciais ou desejáveis. Para preservar a fidelidade à fonte, esta apostila não atribui o nível de cada item individualmente — consulte o manual oficial HU-CI/AMIB para a classificação detalhada.
UTI de portas abertas
Historicamente, na maior parte das UTIs de adultos, a visita seguiu um modelo restritivo: uma a três visitas por dia, cada uma com uma hora ou menos. As UTIs pediátricas e neonatais foram as primeiras a abrir as portas, integrando a família ao cuidado e ao vínculo afetivo — mas o modelo fechado ainda prevalece entre adultos, apesar da literatura crescente a favor da flexibilização.
As barreiras à abertura têm duas origens: hábitos e premissas cristalizados nos profissionais e gestores (o receio de que a família atrapalhe o trabalho, cause complicações ou agrave o trauma psicológico) e a própria estrutura física das unidades, que separa o paciente do mundo externo.
A evidência, porém, aponta no sentido oposto. A visita aberta e flexível beneficia pacientes, familiares e profissionais: não aumenta as complicações infecciosas, melhora o nível dos hormônios de estresse e pode favorecer o manejo do delirium e do desmame. Quando as condições clínicas permitem, a família pode colaborar na higiene, na alimentação e na mobilização, sob treinamento e supervisão.
Participar das decisões e dos rounds diários melhora a comunicação, reduz o estresse emocional e aproxima todos os envolvidos. A figura do cuidador principal ajuda a adaptar a presença dos demais familiares às necessidades de cada paciente. Chegar a um modelo de abertura exige reflexão, aprendizagem e consenso de toda a equipe.
Sensibilização e formação da equipe assistencial
3 práticasComissionamento de atividades de sensibilização e formação à equipe assistencial sobre os benefícios da implantação do modelo de UTI de portas abertas.
- 1.1Há um grupo de trabalho interprofissional encarregado de coordenar e monitorar o cumprimento do modelo de flexibilidade dos horários de acompanhamento.
- 1.2São realizadas atividades reflexivas/sessões multidisciplinares.
- 1.3Realiza-se a formação continuada em habilidades não técnicas direcionadas à equipe assistencial para facilitar a presença e a participação da família.
Acessibilidade
6 práticasComissionamento de atividades que facilitam a acessibilidade dos familiares de pacientes às UTIs.
- 1.4Há um protocolo assistencial de atenção à família que apresente períodos flexibilizados de acesso.
- 1.5A figura do cuidador principal/acompanhante com acesso contínuo é reconhecida e respeitada, independentemente dos familiares que puderam visitar o paciente em outros períodos previstos.
- 1.6É permitida a visita de menores de idade previamente instruídos à unidade.
- 1.7Existe um procedimento para preparar menores de idade para terem acesso à unidade.
- 1.8Existe a possibilidade do acesso de animais de estimação à unidade.
- 1.9Existe um guia, folheto e/ou cartaz informativo de acolhimento a familiares e pacientes internados na UTI, que abrange as indicações de acesso à unidade.
Contato
2 práticasComissionamento de medidas para favorecer o contato e a relação de familiares com o paciente durante a sua estadia na UTI.
- 1.10Dispositivos de proteção desnecessários (avental, máscaras, gorros etc.) não são utilizados, exceto em casos especiais previamente definidos.
- 1.11A amamentação é facilitada quando as condições da mãe e do lactante estão adequadas.
Presença e participação em procedimentos e cuidados
11 práticasOferecer à família a participação nos cuidados do paciente e em determinados procedimentos.
- 1.12Existe um protocolo assistencial referente à participação da família nos cuidados básicos (alimentação, higiene, mobilização) ao paciente crítico.
- 1.13Valorizam-se a estrutura e a função da família, identificando-se os familiares que desejam, possivelmente, assumir o papel de cuidadores principais.
- 1.14Realizam-se atividades programadas de formação aos familiares (Escola dos Familiares da UTI).
- 1.15Considera e facilita que os familiares acompanhem o paciente em determinados procedimentos, quando solicitado.
- 1.16Nos casos de entradas programadas, considera-se a possibilidade de realizar visitas prévias à internação na UTI (com o intuito de minimizar o estresse gerado pela entrada em uma unidade de pacientes críticos).
- 1.17O protocolo assistencial referente à participação da família nos cuidados ao paciente crítico inclui a tomada de decisões relativas ao tratamento e aos cuidados de forma compartilhada, quando o estado do paciente o.
- 1.18O protocolo assistencial referente à participação da família nos cuidados ao paciente crítico inclui a formação individualizadain situ.
- 1.19Registra-se o consentimento do paciente para o envolvimento de sua família nos cuidados, quando aplicável.
- 1.20O sistema organizacional promove a continuidade dos cuidados, atribuindo profissionais de referência para cada paciente concreto.
- 1.21Há um guia, folheto ou cartaz informativo de acolhimento para os familiares, nos quais está indicada a possibilidade da sua participação nos cuidados do paciente.
- 1.22Há um guia de acolhimento para os familiares, no qual está indicada a possibilidade da sua participação na visita interdisciplinar diária.
Suporte às necessidades emocionais, psicológicas e espirituais dos familiares
4 práticasDetectar e dar apoio às necessidades emocionais, psicológicas e espirituais da família.
- 1.23Há algum procedimento para avaliar e detectar possíveis necessidades emocionais, psicológicas, religiosas e espirituais dos familiares.
- 1.24Há algum procedimento para facilitar o uso regulamentado de telefonia móvel ou outros dispositivos (para favorecer o contato com familiares).
- 1.25Há algum guia, folheto e/ou cartaz informativo de acolhimento para os familiares, em que se indicam os métodos diferentes que os familiares têm para poderem se comunicar com o paciente.
- 1.26Há disponibilidade de atenção psicológica para as famílias que necessitem.
Comunicação
Esta linha atua sobre três frentes: a comunicação dentro da equipe multidisciplinar, a qualidade da informação a pacientes e familiares, e a comunicação do próprio paciente com a equipe e a família — especialmente em situações de últimos desejos.
Na equipe, uma comunicação inadequada gera conflito, ameaça a segurança do paciente, desgasta os profissionais e fragiliza a coesão. Por isso é prioritário estabelecer processos estruturados de passagem de plantão e de transferência, além de espaços de diálogo em que enfermeiros e auxiliares possam apresentar o que sabem do paciente e da família.
O acesso à informação de qualidade é uma das maiores necessidades de pacientes e familiares. Ainda é frequente que a informação seja limitada a uma vez ao dia, sem adaptação às necessidades específicas, e que a participação do enfermeiro no momento de informar seja insuficiente — apesar de seu papel central no cuidado.
Por fim, muitos pacientes que morrem na UTI não conseguem comunicar suas necessidades ou deixar mensagens a quem amam. É imprescindível aprimorar a comunicação com quem tem dificuldade de se expressar, promovendo sistemas potencializadores (que complementam a fala) e alternativos (que a substituem quando ausente).
Comunicação com a equipe
6 práticas- 2.1Há um protocolo estruturado de transmissão de informações na mudança de turno/plantão.
- 2.2Há um protocolo estruturado de transmissão de informações na alta da UTI para enfermaria.
- 2.3São realizadas atividades de capacitação para os profissionais da UTI de trabalho em equipe e comunicação efetiva utilizandose ferramentas, tais como a simulação clínica e o CRM (Crisis Resource Management).
- 2.4São realizadas sessões conjuntas e/ou Rounds diários pela equipe assistencial.
- 2.5Estão implantadas ferramentas específicas para melhoria da comunicação efetiva: objetivos de tratamento diários /checklists/briefings/AASTRE (Análise Aleatória de Segurança em Tempo Real) / técnica SBAR.
- 2.6Há ferramentas para identificar conflitos entre os profissionais de terapia intensiva.
Comunicação e informações à família
11 práticasFacilitar elementos que ajudam a iniciar uma comunicação adequada e empática com os familiares por todos os membros da equipe, para chegar a uma relação satisfatória de ajuda, bem como acessibilidade à informação.
- 2.7Há espaços físicos adequados para a informação aos familiares.
- 2.8Existe um protocolo de informações conjuntas entre médico e enfermeiros a pacientes e familiares, realizado de forma habitual.
- 2.9São realizadas atividades de capacitação em habilidades não técnicas e de relação de ajuda que incluam comunicação de más notícias, em situações difíceis e luto.
- 2.10Além da informação programada, existem outras estratégias que facilitam a informação e a comunicação com os pacientes e famílias, tais como a flexibilização dos horários de visita e de informações, a informação telefônica e por meio de ferramentas telemáticas nos casos selecionados.
- 2.11Em pacientes competentes, explora-se com o próprio paciente a vontade de se informar à família ou aos mais próximos.
- 2.12Estão disponíveis sistemas de comunicação potencializada/alternativa (CAA).
- 2.13Há um protocolo para favorecer a comunicação com pacientes que apresentam dificuldades de comunicação.
- 2.14Há um procedimento para avaliar os pacientes com dificuldades de linguagem e suas necessidades quanto a isso.
- 2.15Está disponível uma equipe interprofissional que possa apoiar as estratégias de comunicação em pacientes com limitações de linguagem (otorrinolaringologista, fonoaudiólogo).
- 2.16Treinam-se os profissionais, pacientes e familiares quanto ao uso de sistemas potencializadores e alternativos de comunicação.
- 2.17Há um sistema em que os pacientes podem chamar os profissionais de saúde quando precisam.
Bem-estar do paciente
O adoecimento gera desconforto e dor, muitas vezes somados aos das próprias intervenções e da imobilidade. Os pacientes sentem dor, sede, frio e calor, e têm dificuldade para dormir pelo excesso de ruído e iluminação. A avaliação e o controle da dor, a sedação adequada e a prevenção do delirium são peças imprescindíveis do conforto.
Ao sofrimento físico soma-se um intenso sofrimento psicológico e emocional: solidão, isolamento, medo, tristeza, perda da identidade, sensação de dependência e insegurança por falta de informação. Avaliar e dar suporte a essas necessidades é elemento-chave da qualidade assistencial.
Garantir a formação dos profissionais e promover iniciativas para minimizar esses sintomas — cuidando do bem-estar físico, psicológico, da autonomia e do descanso noturno — é um dos principais objetivos da atenção ao paciente crítico, e segue sendo um grande desafio prático.
Bem-estar físico
8 práticasPromover medidas que evitam ou diminuam as enfermidades físicas e que favoreçam a recuperação motora precoce.
- 3.1Existe um protocolo atualizado de analgesia e sedação.
- 3.2Há um monitoramento dos níveis de analgesia e sedação, por meio de escalas validadas.
- 3.3Há um protocolo atualizado de prevenção e manejo do delirium.
- 3.4Há um protocolo de contenção física.
- 3.5Há um protocolo de fisioterapia respiratória antecipada nos pacientes críticos.
- 3.6Há um protocolo de mobilização precoce.
- 3.7Há disponibilidade de um fisioterapeuta integrado à equipe assistencial.
- 3.8Há um protocolo de cuidados pessoais (higiene e hidratação) do paciente acamado.
Bem-estar psicológico
5 práticasPromover atuações para diminuir o sofrimento psicológico do paciente e atender suas necessidades espirituais.
- 3.9O uso de meios de entretenimento é facilitado aos pacientes com a regulamentação devida da utilização (leitura, jogos, dispositivos de multimídia, rádio, TV...).
- 3.10Aplicam-se intervenções para dar suporte às necessidades espirituais do paciente.
- 3.11Há psicólogos disponíveis integrados à equipe assistencial.
- 3.12Há um protocolo de passeios fora da UTI para pacientes selecionados que possam se beneficiar deles.
- 3.13É fornecida a possibilidade de realizar cuidados corporais para favorecer a autopercepção do paciente (cabelereiro, maquiagem, depilação...).
Promoção da autonomia do paciente
6 práticas- 3.14Promove-se a deambulação controlada.
- 3.15O uso do banheiro/chuveiro é facilitado em casos selecionados.
- 3.16É facilitado o uso regulamentado de telefone celular ou outras tecnologias para favorecer o contato com familiares e amigos.
- 3.17Há um guia no qual são listadas as indicações para o autocuidado direcionado a pacientes ou cuidador principal.
- 3.18Terapia ocupacional está disponível como medida de prevenção e tratamento do delirium no paciente crítico.
- 3.19A realização de atividades lúdicas e de entretenimento é facilitada na unidade.
Bem-estar ambiental e descanso noturno
9 práticasPromover medidas que facilitem o ritmo sono-vigília e o descanso noturno, bem como outras medidas de bem-estar ambiental.
- 3.20Medidas de controle do ruído ambiental estão definidas e são promovidas na UTI.
- 3.21Há aparelho medidor de decibéis com aviso luminoso quando os limites estabelecidos são ultrapassados.
- 3.22Há um protocolo de medidas de descanso noturno.
- 3.23O tom dos alarmes e de outros dispositivos é ajustado segundo o momento do dia.
- 3.24A luz ambiental noturna é ajustada com possibilidade de reduzir a intensidade geral à noite nos espaços comuns e individualizada em cada quarto.
- 3.25Inclui-se, no protocolo de descanso noturno, a adaptação dos horários das intervenções aos períodos de descanso dos pacientes.
- 3.26Avalia-se e monitora-se a qualidade do sono.
- 3.27Favorece-se a iluminação externa durante o dia (quartos com luz natural).
- 3.28Realizam-se intervenções relacionadas à música e/ou musicoterapia.
Cuidados ao profissional
O profissional de terapia intensiva trabalha, em geral, a partir de uma perspectiva profundamente vocacional. A entrega diária traz grande satisfação quando as coisas vão bem — mas, quando não vão, gera desgaste emocional. Sem cuidado da própria saúde, esse desgaste evolui para a Síndrome de Burnout.
A Síndrome de Burnout, ou Síndrome do Desgaste Profissional, é um transtorno de origem psicossocial com três dimensões: esgotamento emocional, despersonalização e baixa autoestima profissional. É uma resposta ao estresse ocupacional crônico, com consequências nocivas ao indivíduo e à organização.
Entre os fatores contribuintes estão características pessoais, ambientais e organizacionais, que podem se manifestar por síndromes intermediárias como o distress moral e a fadiga por compaixão. No indivíduo, pode chegar ao estresse pós-traumático e ao suicídio; na instituição, relaciona-se à substituição de profissionais e à piora dos desfechos. Cuidar de quem cuida deixou de ser opção — é dever ético e legal.
Sensibilização sobre a síndrome de burnout e fatores associados
2 práticasAprimorar o conhecimento sobre a síndrome de desgaste profissional, favorecendo a sua visibilidade.
- 4.1Realizam-se atividades de capacitação sobre o conhecimento e a gestão do estresse e do desgaste profissional, bem como de promoção do engagement (ou vínculo com o trabalho), competências emocionais e habilidades psicossociais no trabalho.
- 4.2Avalia-se periodicamente o processo de desgaste profissional e o engagement, utilizando-se ferramentas validadas.
Prevenção da síndrome de burnout e promoção do bem-estar
12 práticasPrevenir a síndrome de desgaste profissional e promover o engagement.
- 4.3A composição quantitativa da equipe está adequada, cumprindo as recomendações vigentes.
- 4.4Oferece-se um programa de acolhimento a todos os funcionários da UTI (para explicação adequada da organização, dinâmicas internas da UTI, ajuste de expectativas dos novos profissionais, motivação, difusão de propostas de humanização etc.).
- 4.5Funcionários com mais de 55 anos: oferece-se a possibilidade de redução ou não participar de turnos de plantões.
- 4.6Facilita-se a possibilidade de mudar os turnos de trabalho e adaptar o horário às necessidades particulares dos profissionais.
- 4.7Há reuniões preestabelecidas e periódicas da equipe de UTI, nas quais pode-se estabelecer pautas inclusivas de atuação e organização do trabalho.
- 4.8Facilita-se a atividade docente, de formação e de pesquisa.
- 4.9Promove-se a participação e a opinião dos profissionais na cultura organizacional da Unidade, na sua gestão e nos objetivos dela.
- 4.10Estão disponíveis estratégias de prevenção perante problemas emocionais e apoio do profissional, inclusive a disponibilidade de um psicólogo.
- 4.11Mediante incidentes críticos, situações difíceis ou traumáticas para a equipe assistencial (por complicações inesperadas num paciente, erros na prática assistencial, atitudes violentas de familiares etc.), realizam-se ações facilitadoras do processamento emocional da situação, promotoras do bemestar da equipe e detecção antecipada de alterações emocionais nos profissionais.
- 4.12Uma área adequada de descanso está disponível para os profissionais.
- 4.13Material/dispositivos de trabalho estão disponíveis para mobilizar os pacientes, minimizando o risco de lesões dos profissionais.
- 4.14Promovem-se atividades em grupo para promover as relações positivas entre os membros da equipe.
Síndrome Pós-Terapia Intensiva (PICS)
A Síndrome Pós-Terapia Intensiva (PICS) acomete um número importante de pacientes — entre 30% e 50% — após a doença grave. Caracteriza-se por sintomas físicos (dor persistente, fraqueza adquirida na UTI, desnutrição, lesões por pressão, alterações do sono), neuropsicológicos (déficits de memória, atenção e processamento) e emocionais (ansiedade, depressão, estresse pós-traumático).
A doença grave também desencadeia uma crise familiar. A incerteza da evolução e a necessidade de decidir levam os familiares a descuidarem da própria saúde — daí a sigla PICS-F, para a repercussão na família. A equipe multiprofissional deve apoiá-los na gestão do estresse e na preservação do sono, da alimentação e da identidade.
Prevenir, detectar e tratar a PICS exige equipes interprofissionais — intensivistas, fisioterapeutas, enfermeiros, psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos — e a participação ativa da família, que ajuda o paciente a se manter orientado e reduz o estresse de todos. O seguimento após a alta fecha o ciclo do cuidado.
Prevenção e manejo
12 práticasPrevenir, detectar e tratar a Síndrome Pós-Terapia intensiva (PICS), tanto no paciente quanto na sua família.
- 5.1Há um protocolo interprofissional para a prevenção e o manejo da PICS para pacientes e familiares.
- 5.2Há um protocolo atualizado de analgesia e sedação.
- 5.3Há monitoramento dos níveis de analgesia e sedação, por meio de escalas validadas.
- 5.4Há um protocolo atualizado de desconexão da ventilação mecânica.
- 5.5Há um protocolo atualizado de prevenção e manejo do delirium.
- 5.6Há um protocolo de fisioterapia respiratória precoce para os pacientes gravemente doentes.
- 5.7Há um protocolo de mobilização precoce.
- 5.8Um fisioterapeuta integrado à equipe assistencial está disponível.
- 5.9Aplicam-se outras medidas de prevenção e tratamento da enfermidade neuromuscular (adequação do medicamento miorrelaxante, uso de prótese antiequino, entre outros).
- 5.10Um protocolo de passeios fora da UTI está disponível para pacientes selecionados que possam se beneficiar deles.
- 5.11Há um protocolo que implementa os Diários da UTI na unidade.
- 5.12Terapia ocupacional está disponível como medida de prevenção e tratamento do delirium no paciente grave.
Seguimento
7 práticas- 5.13Realiza-se uma avaliação física funcional que conste no relatório de alta do paciente.
- 5.14Realiza-se uma avaliação psicológica que conste no relatório de alta do paciente.
- 5.15Realiza-se uma avaliação cognitiva que conste no relatório de alta do paciente.
- 5.16Há um protocolo de seguimento intra-hospitalar de pacientes e familiares com PICS na alta da UTI.
- 5.17Há uma consulta específica de seguimento de pacientes com risco de PICS após a alta do hospital.
- 5.18Empregam-se instrumentos validados para mensurar a qualidade de vida do paciente antes e após a entrada na UTI.
- 5.19Realizam-se “grupos de apoio” para ex-pacientes da UTI e seus familiares.
Cuidados no final da vida
Cuidados paliativos e intensivos não são opções excludentes — deveriam coexistir durante todo o processo de atenção ao paciente crítico. Quando restituir a condição prévia não é possível, o cuidado se reorienta para reduzir o sofrimento e oferecer a melhor atenção, sobretudo no final da vida.
A atenção paliativa busca um cuidado integral do paciente e da família, permitindo uma morte livre de mal-estar e sofrimento, segundo seus desejos e seus padrões clínicos, culturais e éticos. Deve ser aplicada de forma multidisciplinar, cobrindo necessidades físicas, psicossociais, emocionais e espirituais, com protocolos específicos e avaliação periódica.
A limitação dos tratamentos de suporte vital (LTSV) é frequente no paciente crítico e deve seguir as diretrizes das sociedades científicas. As decisões complexas podem gerar discrepâncias entre profissionais e familiares; a equipe precisa de competências e ferramentas para resolver conflitos por meio do diálogo aberto e construtivo, reduzindo a carga emocional envolvida.
Protocolização de cuidados no final da vida
3 práticasDispor de um protocolo de cuidados no final da vida.
- 6.1Há um protocolo multiprofissional de Cuidados no final da vida no paciente crítico, adaptado às recomendações das Sociedades Científicas.
- 6.2Há um procedimento para identificação das necessidades paliativas em pacientes internados na UTI.
- 6.3Utiliza-se uma sinalização adequada para que os profissionais identifiquem os quartos dos pacientes que se encontram em situação de final de vida/LTSV.
Suporte de sintomas físicos
2 práticasDetectar e dar suporte aos sintomas físicos nos pacientes em situações no final da vida.
- 6.4Instaura-se sedação paliativa adequada aos pacientes em situação no final da vida, segundo o protocolo estabelecido.
- 6.5Há um registro adequado da decisão de se instaurar sedação paliativa (termo de consentimento informado, medicamentos, indicação...).
Acompanhamento em situações ao final da vida
2 práticasFacilitar o acompanhamento dos pacientes em situações no final da vida.
- 6.6Facilita-se o acompanhamento contínuo dos familiares de pacientes em situação no final da vida.
- 6.7Facilita-se a formação no acompanhamento no final da vida e atenção a dor aos profissionais envolvidos no cuidado do paciente/família.
Suporte das necessidades e preferências emocionais e espirituais
7 práticasDetectar e dar suporte às necessidades emocionais e espirituais aos pacientes e familiares em situações no final da vida.
- 6.8Aplicam-se estratégias de apoio emocional a pacientes e familiares em situações no final da vida.
- 6.9Consulta-se, de modo sistemático, o registro de vontades e diretrizes antecipadas nos pacientes que entraram na UTI, especialmente aqueles em que se realize limitação dos tratamentos de suporte vital (LTSV).
- 6.10Incorporam-se as vontades antecipadas na tomada de decisões, tendo uniformidade do processo no histórico clínico.
- 6.11Quando não existem vontades antecipadas, planeja-se a decisão de modo compartilhado com o paciente e sua família.
- 6.12Oferece-se apoio emocional e de suporte aos profissionais que participam nos cuidados ao final da vida, com o objetivo de reduzir a aparição de síndromes, tais como o sofrimento moral, a percepção de cuidados inadequados e a fadiga por compaixão.
- 6.13Identifica-se a figura do representante para a tomada de decisões em pacientes incompetentes.
- 6.14Existe a possibilidade de consultoria com um serviço de cuidados paliativos.
Protocolo de limitação dos tratamentos de suporte vital (LTSV)
6 práticasDispor de um protocolo de LTSV que siga as recomendações das Sociedades Científicas.
- 6.15Há um protocolo de Limitação dos Tratamentos de Suporte Vital (LTSV).
- 6.16Utiliza-se um registro específico para a LTSV.
- 6.17Há procedimentos para a resolução de conflitos relacionados com os tratamentos considerados potencialmente inadequados.
- 6.18Incorpora-se a doação de órgãos e tecidos nos cuidados ao final da vida nos casos em que seja indicado.
- 6.19Facilita-se a formação específica aos profissionais em aspectos bioéticos e legais, relacionados com a tomada de decisões e os cuidados no final da vida.
- 6.20Mensura-se a satisfação dos familiares dos pacientes falecidos na UTI sobre os cuidados no final da vida.
Implicação multidisciplinar na decisão e no desenvolvimento de medidas de ltsv
3 práticasGarantir a participação de todos os profissionais envolvidos na LTSV.
- 6.21A decisão de LTSV é realizada contando com a participação de todos os profissionais envolvidos na atenção do paciente, com o objetivo de se ter um maior consenso pela equipe assistencial.
- 6.22Dispõe-se de protocolos e ferramentas que facilitem a avaliação prognóstica e a tomada de decisões nos pacientes com alta probabilidade de falecimento.
- 6.23Dispõe-se de um procedimento de consulta com o Comitê de Ética Médica para casos em que não há o consenso.
Infraestrutura humanizada
O espaço físico da UTI deve permitir que o cuidado ocorra em um ambiente saudável, que melhore o estado físico e psicológico de pacientes, profissionais e familiares. As recomendações de Evidence Based Design buscam reduzir o estresse e promover o conforto, trabalhando localização, fluxos de trabalho e condições ergonômicas de luz, temperatura, acústica, materiais e mobiliário.
Essas escolhas influenciam sentimentos e emoções e ajudam a criar espaços humanizados, adaptados à funcionalidade de cada unidade. O conceito vale também para as salas de espera, que devem ser redesenhadas como salas de estar, oferecendo mais conforto às famílias.
Esta linha promove espaços em que a eficácia técnica se une à qualidade da atenção e à comodidade de todos. Um projeto adequado pode reduzir erros dos profissionais, encurtar a internação e contribuir para o controle de custos — unindo cuidado e arquitetura.
Privacidade do paciente
4 práticasGarantir a privacidade do paciente.
- 7.1Há quartos individuais.
- 7.2Os quartos individuais têm janelas e portas translúcidas, as quais os funcionários podem escurecer para realizarem exames, procedimentos ou qualquer outro ato que requeira a privacidade do paciente e de sua família.
- 7.3Há biombos, cortinas e outros elementos de separação, com material antimicrobiano e de fácil limpeza, que possibilitam a privacidade.
- 7.4Há chuveiro acessível aos pacientes ou sanitários/chuveiros portáteis que garantem uma mínima intimidade para as funções fisiológicas que geram pudor.
Conforto ambiental do paciente
7 práticasGarantir o conforto ambiental do paciente.
- 7.5Dispõe-se de luz natural que chega em quantidade e qualidade suficiente ao paciente, com opção de escurecimento.
- 7.6Incorporam-se cores ou imagens adequadas aos pacientes. Presta-se atenção, além disso, ao teto e à parte alta das paredes em frente ao paciente.
- 7.7Há mobília adequada e corretamente distribuída para criar um espaço funcional, com uma ótima circulação, evitando-se incômodos e obstáculos desnecessários.
- 7.8Conta-se com opções de “personalização do espaço” (fotos da família, desenhos de familiares, cartões com mensagens carinhosas, fotos de bandas musicais ou equipes de futebol etc.).
- 7.9Há o controle autônomo e individualizado em cada quarto da temperatura, umidade e ventilação conforme as normas publicadas.
- 7.10Há um sistema para controle de luz, em quantidade suficiente em todas os quartos de pacientes.
- 7.11São definidas e promovidas medidas de controle do ruído ambiente.
Orientação do paciente
5 práticasPromover a comunicação e a orientação do paciente.
- 7.12Dispõe-se de conexão visual com a parte externa (janela em uma altura adequada), para não perder a orientação e manter o ciclo circadiano.
- 7.13Dispõe-se de elementos que facilitam a orientação temporal de fácil acesso e visibilidade (como relógio e/ou calendário).
- 7.14Estão disponíveis sistemas de comunicação potencializada /alternativa.
- 7.15Há um sistema em que os pacientes ou familiares podem chamar os profissionais quando precisarem.
- 7.16Quando o quarto não tem luz natural e/ou janela, há janelas virtuais digitais ou vinis que se assemelham a paisagens.
Conforto na área dos familiares
4 práticasGarantir o conforto na área dos familiares.
- 7.17Há uma sinalização adequada e visível dos quartos e a indicação das vias de acesso, mantendo-se a estética estabelecida para a unidade.
- 7.18Há uma orientação quanto ao uso como “salas de estar” do espaço em que se encontram os familiares no período em que não estão na unidade.
- 7.19Há quartos para familiares em situações especiais, que garantem privacidade, sempre que possível.
- 7.20Há um quarto de despedida, em que se pode acompanhar uma pessoa no processo de morte em condições de intimidade.
Conforto e funcionalidade na área de cuidados
5 práticasGarantir o conforto e a funcionalidade na área de trabalho.
- 7.21Realiza-se o controle acústico adequado na área de trabalho.
- 7.22Possibilita-se o acesso adequado à documentação com postos de computadores suficientes para consulta de prontuários e avisos de monitoramento nas salas de médicos e de enfermeiros.
- 7.23Há um sistema de informação clínico (prontuário eletrônico) adaptado ao fluxo de trabalho da Unidade que permite trabalhar em rede.
- 7.24Há um sistema de monitoramento central que reúne todos os monitores da unidade, controlados pelos médicos e enfermeiros, a partir de um espaço facilmente acessível.
- 7.25Há um sistema de visualização adequada do paciente a partir do controle.
Conforto na área administrativa e de profissionais
3 práticasGarantir o conforto na área administrativa e de profissionais.
- 7.26Há espaços de trabalho adequados, dotados de instalações necessárias para se realizar a assistência habitual.
- 7.27Há quartos para profissionais plantonistas, com espaços adequados e mantendo-se o fio condutor estético marcado na unidade.
- 7.28Uma sala de estar está disponível para profissionais com acesso rápido à unidade.
Distração do paciente
4 práticasPromover a distração do paciente.
- 7.29Há luz disponível para leitura.
- 7.30Dispõe-se de conexão wi-fi para uso de tablets e celulares que permitam que o paciente se comunique com seus parentes e esteja conectado com o mundo externo, favorecendo seu entretenimento.
- 7.31É permitido o uso de telefones dentro do quarto.
- 7.32O uso de meios de entretenimento é facilitado aos pacientes com a regulamentação devida da utilização (leitura, jogos, dispositivos de multimídia, rádio, TV...).
Habilitar espaços em jardins ou pátios
1 práticasPromover espaços em jardins ou pátios para pacientes com garantia de acesso aos mesmos (cadeira de rodas, camas etc.).
- 7.33Dispõe-se de espaços em jardins, pátios ou terraços para pacientes nos quais está indicado, com garantia de acesso aos mesmos (cadeira de rodas, camas etc.).