Infarto · 5ª Definição Universal 2026
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Infarto do Miocárdio

Quinta Definição Universal — classificação clínica (primário / secundário / procedimento), critérios, biomarcadores, ECG, imagem e ICD-11 traduzidos em PT-BR.

CARDIOLOGIA CONSENSO 2026 UDMI V
§ 1 · Visão Geral

A Quinta Definição Universal de Infarto do Miocárdio

Documento conjunto da ESC (Sociedade Europeia de Cardiologia), ACC, AHA e WHF (Federação Mundial do Coração), publicado em 2026 no European Heart Journal. É a atualização da Quarta Definição Universal (Thygesen, 2018), com duas mudanças estruturais de grande impacto.

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CLASSIFICAÇÃO

Clínica, não numérica

1º · 2º · Procd.
Substitui os tipos 1–5 por classificação clínica: primário, secundário ou procedimento-relacionado.
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ICD-11

Códigos próprios

BA41
Alinhamento com o ICD-11: STEMI (BA41.0) vs NSTEMI (BA41.1) e códigos de 6º dígito para a patologia coronária aguda.
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BIOMARCADOR

Troponina hs

99º pct
Critérios objetivos com 99º percentil por sexo, vias aceleradas e interpretação de lesão miocárdica aguda vs crônica.
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Por que isso importa

A classificação em primário, secundário e procedimento-relacionado alinha diagnóstico com fisiopatologia e permite aplicação consistente — diferenciando IM de lesão miocárdica não-isquêmica.

Ilustração central da Quinta Definição Universal
Figura 1 — Ilustração central (reproduzida do original): IM primário (apresentação espontânea por aterotrombose ou patologia coronária alternativa), secundário (condição aguda com desequilíbrio oferta–demanda que desmascara DAC obstrutiva ou novo prejuízo ventricular) e procedimento-relacionado (complicação causando oclusão/enxerto e novo prejuízo ventricular <30 dias). Clique para ampliar.
§ 2 · Tabela 1

O que muda da 4ª para a 5ª Definição

Comparação dos pilares da Quarta (2018) e Quinta (2026) Definições, com a justificativa de cada mudança.

4ª Definição5ª Definição — o que há de novoJustificativa
Classificação numérica: tipos 1, 2, 3, 4a, 4b, 4c, 5.Classificação clínica: primário, secundário ou procedimento-relacionado.Refletir fisiopatologia, alinhar com a avaliação clínica e permitir aplicação consistente.
IM tipo 1: restrito a aterotrombose.IM primário: inclui todas as patologias coronárias agudas (aterotrombose, dissecção espontânea, embolia, vasoespasmo, restenose/trombose de stent/falência de enxerto >30 dias).Prioriza sensibilidade; promove angiografia e testes adjuvantes; reclassifica falência tardia de stent/enxerto como doença de novo.
IM tipo 2: desequilíbrio oferta–demanda± patologia aguda ou condição aguda com ou sem DAC.IM secundário: desequilíbrio oferta–demanda por condição aguda alternativa e DAC obstrutiva sem patologia aguda e/ou nova anormalidade de motilidade/ausência de viável.Prioriza especificidade; critérios objetivos; identifica pacientes com implicações terapêuticas.
IM tipo 3: morte cardíaca com provável IM.Termo removido. Morte provável por IM → classificação clínica conforme cenário ou achados post-mortem.Uso limitado na prática.
IM tipo 4a (>5× URL)/5 (>10× URL); 4b/c a qualquer momento.IM procedimento-relacionado: complicação coronária <30 dias e nova anormalidade de motilidade/ausência de viável (ambos quando no procedimento ou IM agudo).Especificidade; critérios objetivos; iguais para todos os procedimentos; exclui falência tardia de stent/enxerto.
UDMI = Definição Universal de IM · DAC = doença arterial coronariana · URL = limite superior de referência. © ESC/ACC/AHA/WHF 2026.
§ 3 · Lesão Miocárdica

Lesão miocárdica aguda e crônica

A lesão miocárdica é definida como nível elevado de troponina cardíaca I ou T com ≥1 valor acima do 99º percentil do URL, qualquer que seja a causa. Distinguem-se as formas aguda e crônica.

📦 Lesão miocárdica aguda

  • Elevação e/ou queda da troponina cardíaca I ou T com ≥1 valor acima do 99º percentil específico por sexo.

📦 Lesão miocárdica crônica

  • ≥2 valores de troponina I ou T acima do 99º percentil específico por sexo, em condição clínica estável.
  • Confirmada com condição cardíaca/não cardíaca associada a remodelamento; excluída se explicada por interferência analítica ou depuração reduzida.

A forma crônica é até 5× mais frequente com troponina T do que com troponina I. O IM é uma das causas de lesão miocárdica.

Tabela 2 — Mecanismos de lesão miocárdica aguda

MecanismoCondição
IsquemiaInfarto do miocárdio
InflamaçãoMiocardite (autoimune, infecciosa, tóxica) · Rejeição de transplante · Mediada por citocinas na sepse
Estresse hemodinâmicoDesequilíbrio oferta–demanda · Taqui/braquiarritmia · IC aguda · Embolia pulmonar aguda · Hipertensão maligna
Estresse fisiológicoExercício extenuante
Estresse por catecolaminasTakotsubo · Hemorragia subaracnóidea · AVC · Convulsões · Feocromocitoma
ToxicidadeAntraciclinas · Terapias anti-ErbB · Inibidores de tirosina-quinase · Inibidores de checkpoint imune · Radiação
TraumaCardioversão elétrica · Intervenção coronária/estrutural · Ablação · Cirurgia cardíaca · Contusão cardíaca

O desequilíbrio oferta–demanda ocorre por oferta reduzida (hipóxia, anemia, hipotensão) e/ou demanda aumentada (taquicardia, hipertensão). © ESC/ACC/AHA/WHF 2026.

Tabela 3 — Mecanismos de lesão miocárdica crônica

EtiologiaCondição
IsquemiaSíndrome coronariana crônica · Cardiomiopatia isquêmica
Outras cardiomiopatiasHipertrófica · Hipertensiva · Dilatada · Inflamatória crônica · Restritiva · Infiltrativa · Urêmica (DRC)
Estresse hemodinâmicoIC crônica · Hipertensão sistêmica · Hipertensão pulmonar
EstruturalDoença valvular · Doença cardíaca congênita · Tumor cardíaco
⚠️

Ponto‑chave

Nem toda lesão miocárdica é infarto. O IM é a lesão miocárdica isquêmica (com sintomas/sinais de isquemia e, conforme o tipo, evidência de patologia coronária ou nova anormalidade de motilidade). A lesão não-isquêmica não é IM.

§ 4 · IM Primário

Infarto do miocárdio primário

O IM primário é sinônimo de IM espontâneo: ocorre por uma patologia coronária aguda (não apenas por aterotrombose como no tipo 1 da 4ª definição). Em geral, pode-se chamá-lo simplesmente de “infarto do miocárdio”.

P
Primário
Patologia coronária aguda (aterotrombose, dissecção, embolia, vasoespasmo, falência tardia de stent/enxerto).
S
Secundário
Desequilíbrio oferta–demanda por condição aguda alternativa + DAC obstrutiva.
R
Procedimento
Complicação coronária de procedimento cardíaco <30 dias + perda de miocárdio.

Patologias coronárias agudas do IM primário (BA41)

Patologia coronária agudaCódigo ICD-11 (6º dígito)
AterotromboseBA41._1
Dissecção espontânea de artéria coronária (SCAD)BA41._2
Embolia coronarianaBA41._3
Vasoespasmo coronarianoBA41._4
Restenose > 30 dias do procedimentoBA41._5
Trombose de stent > 30 dias do procedimentoBA41._6
Falência de enxerto > 30 dias do procedimentoBA41._7
Etiologia indeterminada (após imagem coronária)BA41._8
Etiologia desconhecida (sem imagem coronária)BA41._9
IM primário por patologia coronária aguda
Figura 3 — IM primário por patologia coronária aguda (reproduzida do original). Clique para ampliar.

Vias diagnósticas do IM primário

A Figura 2 do documento (abaixo, reproduzida do original) resume o fluxo diagnóstico. Nota: quando há suspeita de MINOCA (IM sem artérias obstruídas), a RMC é a modalidade de escolha para confirmar o diagnóstico.

CENÁRIO Apresentação espontânea com sintomas de isquemia miocárdica aguda AVALIAÇÃO CLÍNICA — supradesnivelamento de ST (a) ou não Supradesnivelamento de ST Biomarcadores não necessários p/ diagnóstico Sem supradesnivelamento de ST Lesão miocárdica aguda em teste seriado (b) IM com supradesnivelamento (STEMI) BA41.0 · 6º dígito p/ patologia IM sem supradesnivelamento (NSTEMI) BA41.1 · 6º dígito p/ patologia CORONARIOGRAFIA ± imagem intravascular / teste funcional Patologia coronária aguda Aterotrombose · dissecção espontânea (SCAD) · embolia · vasoespasmo · restenose trombose de stent ou falência de enxerto >30 dias do procedimento código 6º dígito BA41._1–_7 / BA41._A Sem patologia coronária aguda Imagem cardíaca: nova anormalidade de motilidade segmentar ou ausência de viável em padrão isquêmico — confirma IM código 6º dígito BA41._9 IM PRIMÁRIO CONFIRMADO BA41._1–_7 (patologia) · _8 indeterminada · _9 desconhecida a-b notações do documento original · © ESC/ACC/AHA/WHF 2026 — Fonte: Fifth Universal Definition of MI (Eur Heart J 2026)

📦 Critérios — IM primário (detecção)

  • Detecção de elevação e/ou queda da troponina cardíaca com ≥1 valor acima do 99º percentil por sexo, com sintomas de isquemia miocárdica aguda.
  • Sintomas: desconforto torácico ou equivalente (ver § 8); ou novas alterações isquêmicas no ECG.
  • Diagnóstico confirmado com coronariografia e/ou imagem cardíaca; quando indisponíveis, pode-se dar o diagnóstico por biomarcadores + ECG + critérios clínicos.
§ 5 · IM Secundário

Infarto do miocárdio secundário

O IM secundário decorre de desequilíbrio de oxigênio miocárdico (oferta–demanda) causado por uma condição aguda alternativa, quando há sintomas/sinais de isquemia. A demanda aumenta (taquicardia, hipertensão grave) e/ou a oferta cai (hipóxia, anemia, hipotensão).

IM secundário por desequilíbrio oferta-demanda
Figura 5 — IM secundário por desequilíbrio oferta–demanda de oxigênio miocárdico (reproduzida do original). Clique para ampliar.

O diagnóstico é confirmado quando a isquemia resulta de DAC obstrutiva sem patologia coronária aguda, ou quando a lesão é suficiente para causar nova anormalidade de motilidade segmentar ou perda de viabilidade miocárdica. Os critérios priorizam especificidade.

CENÁRIO Sintomas ou sinais de isquemia miocárdica secundários a uma condição aguda alternativa (desequilíbrio oferta–demanda) Lesão miocárdica aguda em teste seriado >=1 valor de troponina > 99º percentil (específico por sexo) Imagem guiada pelo estado clínico, comorbidades e grau de certeza NÃO-obstrutiva / sem DAC CORONARIOGRAFIA (c) e/ou imagem cardíaca → SEM nova anormalidade de motilidade / perda de viável em padrão isquêmico → IM excluído DAC obstrutiva (d) SEM patologia aguda e/ou nova anormalidade de motilidade / ausência de viável em padrão consistente com etiologia isquêmica IM SECUNDÁRIO BA41.0A ou BA41.1A (c) se IM primário improvável, considerar CCTA · (d) >=70% em vaso epicárdico ou >=50% limitante ao fluxo · © ESC/ACC/AHA/WHF 2026

📦 Critérios — IM secundário

  • Considerado em pacientes com lesão miocárdica aguda (troponina) + condição aguda alternativa com desequilíbrio oferta–demanda e ≥1: sintomas de isquemia; novas alterações isquêmicas no ECG; desenvolvimento de ondas Q patológicas.
  • Provável com≥1 adicional: DAC conhecida; forte suspeita pela extensão da isquemia no ECG ou elevação da troponina.
  • Confirmado (com imagem): DAC obstrutiva (≥70% por angiografia, ou ≥50% limitante ao fluxo na avaliação fisiológica) sem patologia aguda; ou nova anormalidade de motilidade/ausência de viável em padrão isquêmico.
⚠️

Mudança na prática

A 4ª definição permitia diagnóstico de tipo 2 sem imagem. Agora, sem confirmação objetiva (DAC obstrutiva ou anormalidade de motilidade), muitos casos antes rotulados como “tipo 2” passam a ser lesão miocárdica aguda, não IM.

§ 6 · IM Procedimento-Relacionado

Infarto do miocárdio procedimento-relacionado

Substitui os antigos tipos 4a/4b/4c e 5. Não é possível usar um único limiar de troponina nesse cenário — a imagem cardíaca é necessária para confirmar ou excluir.

IM procedimento-relacionado
Figura 7 — IM procedimento-relacionado por complicação de cirurgia ou intervenção cardíaca (reproduzida do original). Clique para ampliar.

Diagnóstico confirmado quando há evidência angiográfica de complicação coronária E nova anormalidade de motilidade/ausência de viável em padrão isquêmico (ambos necessários quando a complicação surge durante o procedimento ou em cenário de IM agudo).

CENÁRIO Sintomas/sinais de isquemia ou deterioração súbita após procedimento cardíaco complicação coronária suspeita/identificada <30 dias Lesão miocárdica aguda em teste seriado (a) troponina elevada e crescente: >5× URL (intervenção) · >35× (cirurgia) CORONARIOGRAFIA: complicação coronária no procedimento oclusão de ramo · dissecção iatrogênica · trombose de stent · no-reflow/baixo fluxo · embolia · falência de enxerto · impingement SEM complicação e/ou sem nova anormalidade de motilidade / ausência de viável → IM excluído Complicação coronária + imagem cardíaca: nova anormalidade de motilidade / perda de viável — ambos IM PROCEDIMENTO-RELACIONADO BA41.0B/1B (percutâneo) · BA41.0C/1C (cirúrgico) falência tardia de stent/enxerto >30 dias = IM primário, não procedimento-relacionado · © ESC/ACC/AHA/WHF 2026

📦 Critérios — IM procedimento-relacionado

  • Complicação coronária dentro de 30 dias de procedimento percutâneo (B) ou cirúrgico cardíaco (C).
  • Limiares orientativos (arbitrários, para guiar imagem): troponina >5× URL (intervenção) e >35× URL (cirurgia) — níveis que aumentaram do pré-procedimento e continuam a subir às 6 h / 24 h.
  • Exemplos de complicação coronária: oclusão de ramo lateral, dissecção iatrogênica, trombose de stent, no-reatlow/slow-flow, embolia, impingement coronariano (PCI); falência de enxerto, oclusão de ostium (cirurgia).
  • Falência tardia de stent/enxerto >30 dias = IM primário, não procedimento-relacionado.
§ 7 · Morte Súbita

IM após morte súbita

Quando há sintomas/sinais de isquemia miocárdica e o paciente morre subitamente antes que a avaliação confirme o diagnóstico, aplica-se a classificação clínica com base no cenário ou autópsia.

MORTE SÚBITA Sem avaliação idade >40 anos · dor/equivalente precedente· história de DAC · FV sem cardiomiopatia/ canalopatia conhecida → IM de etiologia desconhecida BA41.09/19 Avaliação incompleta / sem autópsia considerar causas alternativas; recomendar autópsia ou imagem post-mortem → IM não especificado BA41.Z AUTOPSIA: patologia coronária aguda identificada IM confirmado com (BA41.01–08) ou sem (BA41.11–18) oclusão coronária © ESC/ACC/AHA/WHF 2026 — Fonte: Fifth Universal Definition of MI (Eur Heart J 2026)

📦 Classificação na morte súbita

  • Sem avaliação + idade >40 anos, dor/equivalente precedente, história de DAC, FV sem cardiomiopatia/canalopatia conhecida → IM de etiologia desconhecida (BA41.09 ou BA41.19).
  • Avaliação incompleta: considerem-se causas alternativas de morte; IM de etiologia indeterminada (BA41.Z) → recomendar autópsia ou imagem post-mortem.
  • Autópsia: confirma IM e identifica a patologia coronária aguda (BA41.01–08 com/sem oclusão).
§ 7 · ECG

Achados eletrocardiográficos

A Tabela 5 do documento lista os achados de isquemia ou infarto no ECG. A Figura 9 ilustra o espectro da elevação do ST e os sinais de oclusão aguda.

Espectro de elevação de ST e sinais de oclusão coronária aguda
Figura 9 — Sinais eletrocardiográficos de isquemia/infarto: alterações precoces até infarto completado. Clique para ampliar.
AchadoCritério
Elevação de STNova elevação do ponto J em ≥2 derivações contíguas: ≥1 mm em todas exceto V2–V3 (≥2,5 mm em homens <40 a; ≥2 mm em homens ≥40 a; ≥1,5 mm em mulheres), sem BRE/sobrecarga de VE.
Depressão de STNova depressão horizontal ou descendente ≥0,5 mm no ponto J em ≥2 derivações contíguas.
Onda T hiperagudaOndas T simétricas, largas, desproporcionais ao QRS precedente, em ≥2 derivações contíguas.
Ondas T de de WinterT altas e proeminentes com depressão de ST ascendente nas precordiais.
Ondas T bifásicasDeflexão inicial positiva seguida de negativa.
Inversão de TInversão nova ou dinâmica ≥1 mm em ≥2 derivações contíguas.
Síndrome de WellensOndas T bifásicas ou profundamente invertidas em V2 e V3.
Ondas Q patológicasDuração ≥40 ms e/ou profundidade ≥25% da onda R em ≥2 derivações contíguas.
Critérios de SgarbossaBRE/estimulação ventricular: elevação de ST ≥1 mm concordante com o QRS; depressão de ST ≥1 mm em V1–V3; elevação de ST ≥5 mm discordante.
Arritmia ventricularFibrilação ou taquicardia ventricular.
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Dica

Na suspeita de oclusão coronária aguda, além da elevação do ST, observe achados adicionais/alternativos (depressão recíproca, onda T hiperaguda, de Winter). A Figura 9 mostra o espectro do supradesnivelamento até o infarto completado com ondas Q e T invertidas persistentes.

§ 9 · Biomarcadores

Troponina e biomarcadores

A troponina cardíaca (cTn) I e T é o biomarcador de escolha. Recomenda-se ensaio de alta sensibilidade (hs-cTn): coeficiente de variação ≤10% no 99º percentil por sexo e detecção em >50% de homens e mulheres saudáveis.

Elevação e queda da troponina cardíaca ao longo do tempo cTn 99º percentil URL (A) mudanças peq. <3 h (B) maiores 3–12 h pico 12–24 h (C/D) mínima no pico / queda (E) mimetiza crônica se tardio (F) semanas p/ normalizar Figura 10 (recriada em SVG) · © ESC/ACC/AHA/WHF 2026

Figura 10 (recriada em SVG) — Elevação e queda da cTn desde o início dos sintomas: (A) mudanças absolutas pequenas em <3 h; (B) maiores às 3–12 h; (C) mudança mínima em torno do pico (12–24 h); (D) queda maior após o pico; (E) padrão pode mimetizar lesão crônica se apresentação tardia; (F) pode levar semanas até normalizar.

Interpretação (Box 6)

📦 Interpretação da troponina para diagnóstico de IM

  • Interpretar com avaliação clínica (história, exame físico, ECG de 12 derivações).
  • Apresentação precoce → elevação pode não aparecer mesmo com hs-cTn; teste seriado necessário.
  • Sintomas recorrentes/persistentes → teste seriado antes de excluir.
  • Elevação é comum em sepse, doença renal, AVC (sem indicação clínica de teste) — não assumir IM.
  • 99º percentil é menor em mulheres; usar limites específicos por sexo evita subdiagnóstico feminino.
  • Idade: prevalência de IM e de elevação persistente aumenta com a idade.
  • Elevação de origem incerta → ± ensaios seriados para diferenciar aguda de crônica.
  • Suspeitar interferência analítica (ex.: macrotroponina) quando o valor não bate com o quadro.

Vias diagnósticas aceleradas

Vias validadas com hs-cTn melhoram segurança e eficiência: (i) descarte de amostra única (2 grupos); (ii) teste seriado 0/1h ou 0/2h com limiares e delta (3 grupos: baixo risco, observação, alto risco); (iii) via convencional com escore de risco + 99º percentil às 0 e 3 h. Durante a triagem usa-se limiar uniforme (não por sexo); o 99º percentil por sexo é para o diagnóstico final.

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Biomarcador alternativo

Se não houver ensaio hs-cTn, prefere-se troponina não-hs a CK-MB. A proteína C ligadora de miosina cardíaca (cMyC) está em desenvolvimento, mas não é rotina.

§ 10 · Imagem

Imagem coronária e cardíaca

Invasiva

A coronariografia invasiva é o padrão‑ouro para IM; também identifica a patologia coronária aguda. A imagem intravascular (IVUS/OCT) ajuda em NSTEMI sem lesão culpada clara (~14% dos casos). O teste funcional (FFR/iFR, teste provocativo com acetilcolina/ergonovina) é útil em coronárias angiograficamente não-obstrutivas.

Não invasiva

  • Ecocardiografia: à beira-leito, detecta anormalidade de motilidade, complicações e causas alternativas. Similar nas 3 formas de IM.
  • Ressônancia cardíaca (RMC): avalia lesão reversível e irreversível (edema/T2, obstrução microvascular, hemorragia, necrose/LGE). De escolha na MINOCA (idealmente <2 semanas). Preferida para confirmar IM.
  • AngioTC coronariana (CCTA): crescente; útil em NSTEMI de baixo risco, fenotipagem de placa, falência de enxerto e diferenciação primário/secundário.
  • Medicina nuclear (SPECT/PET): fluxo e viabilidade, mas resolução limita a detecção a infartos transmurais.
Estágios do IM primário por RMC
Figura 11 — Estágios do IM primário na ressonância magnética cardíaca: de edema isolado (estágio 1) a necrose, obstrução microvascular e hemorragia (estágio 4). Clique para ampliar.
Papel da RMC no IM primário
Figura 12 — Papel da RMC no IM primário possível/confirmado: miocardite, IM focal, Takotsubo, IM com obstrução microvascular, trombo, ruptura contida. Clique para ampliar.
§ 11 · Situações Especiais

Cenários desafiadores

📦 IM recorrente

  • 1º mês: alterações de ECG/biomarcadores/imagem podem refletir anormalidades residuais; sintomas recorrentes ≠ IM (podem ser pericardite, trauma de RCP, IC).
  • Variações sintomáticas: ~10% homens, ~16% mulheres reportam sintomas diferentes da 1ª apresentação.
  • Troponina sobe por semanas; elevação em série sugere recorrência; CK-MB não agrega.
  • Classificar pela mesma lógica (primário/secundário/procedimento), não por um código separado.

📦 Insuficiência cardíaca (IC)

  • Até 90% dos pacientes com IC aguda têm troponina T acima do URL; lesão sem infarto é comum.
  • Elevação pode vir de isquemia, desequilíbrio oferta–demanda, estiramento mecânico (pré-carga), inflamação, neuro-hormônios.
  • Suspeitar IM primário quando dor/equivalente + isquemia no ECG e/ou DAC conhecida; secundário com arritmia, hipóxia, hipotensão, anemia.
  • Avaliar cTn + ECG na admissão; seriado melhora discriminação aguda/crônica.

📦 Doença renal crônica (DRC)

  • cTn frequentemente elevada e estável; não descartar como “apenas clearance” — síndrome cardiovascular-renal-metabólica.
  • Probabilidade de elevação aumenta 10% (eGFR≥90) → 66% (eGFR<30).
  • Teste seriado é essencial para diferenciar aguda de crônica; especificidade e VPP do 99º percentil são menores.
  • Vias diagnósticas são as mesmas; imagem importante devido à incerteza.

📦 Doença crítica

  • IM é um dos diagnósticos mais frequentemente perdidos no paciente crítico (~1 em 4 com DAC conhecida, não reconhecido).
  • ~40% têm lesão miocárdica e isquemia no ECG; elevação de ST é menos específica.
  • Padrão de subida e queda na série é importante; confirmação com coronariografia e/ou imagem (levar em conta risco de transporte e sangramento).
  • Cuidado multidisciplinar com cardiologia é essencial.

📦 Cirurgia não cardíaca

  • IM pode ser primário ou secundário a oferta–demanda; a maioria dos eventos ocorre em ≤2 dias, até 2/3 assintomáticos.
  • ECG essencial em deterioração/lesão aguda; elevação de ST → coronariografia urgente.
  • Lesão miocárdica perioperatória (PMI): ~1 em 8 cirurgias de alto risco; MINS (subconjunto isquêmico) tem mortalidade 30d ~8× maior.
  • Troponina pré-operatória é essencial para comparar (até 40% têm elevação basal).

📦 Intervenção estrutural

  • TAVI: IM complica até 5,6% (estimativas 1,1%); obstrução de ostium por folheto (0,7%, alta mortalidade); embolia (1%); lesões via RMC até 18%.
  • Lesão miocárdica ocorre em 66–100% após TAVI — biomarcador isolado NÃO define IM; requer imagem (nova perda de miocárdio em padrão isquêmico por complicação).

📦 Cardio-oncologia

  • Quimioterapia (antraciclina, checkpoint imune) → miocardite, disfunção e tromboembolismo podem mimetizar/desencadear IM; troponina elevada é comum.
  • Imagem cardíaca é necessária para confirmar/excluir; aterotrombose é a causa mais comum (mas vasoespasmo e embolia são mais comuns no câncer).
§ 12 · Impacto

Pacientes, prevenção e saúde pública

PACIENTE

Avaliação e reabilitação

O IM tem impacto prognóstico, psicológico, social, financeiro, securitário e ocupacional. A decisão compartilhada e a reabilitação cardíaca são recomendadas; a maioria dos empregados retorna ao trabalho em 1 ano. Poucos conhecem as metas de secundária prevenção (1/3 da PA, 1/10 do colesterol).

SAÚDE PÚBLICA

ICD-11 e epidemiologia

A 4ª definição não estava alinhada ao ICD: <20% dos pacientes com tipo 2 receberam código de IM no ICD-10. A 5ª definição incorpora códigos ICD-11: STEMI (BA41.0) vs NSTEMI (BA41.1), com 6º dígito para patologia coronária aguda, diferenciando primário (A) de procedimento (B percutâneo / C cirúrgico).

PESQUISA

Padronização

Incluir todas as etiologias coronárias agudas no IM primário padroniza estudos de vias diagnósticas e ensaios. A IA promete automatizar ECG e biomarcadores. Há grande espaço para ensaios em IM secundário (ex.: transfusão na anemia) e procedimento-relacionado.

Baixa disponibilidade de recursos (Box 7)

O diagnóstico é presumido em pacientes com sintomas de isquemia miocárdica aguda quando há ≥1: novas alterações isquêmicas no ECG ou desenvolvimento de ondas Q patológicas — em cenários sem troponina e imagem.
§ 13 · Classificador

Assistente de classificação do IM

Selecione o cenário clínico e os achados. O classificador aplica os critérios da Quinta Definição (primário / secundário / procedimento-relacionado / lesão sem infarto).

CENÁRIO CLÍNICO
PATOLOGIA CORONÁRIA AGUDA (angiografia/imagem)
CONDIÇÃO AGUDA ALTERNATIVA COM DESEQUILÍBRIO OFERTA–DEMANDA?
DAC OBSTRUTIVA (≥70% ou ≥50% limitante ao fluxo) SEM patologia aguda?
NOVA ANORMALIDADE DE MOTILIDADE / AUSÊNCIA DE MIOCÁRDIO VIÁVEL EM PADRÃO ISQUÊMICO?
RESULTADO

Aguardando seleção…

Escolha o cenário e os achados para classificar o IM.

§ 14 · Quiz

Quiz — 5ª Definição 2026

10 questões × 10 pts.

§ 15 · Fontes

Referência