Infecções Pleurais — O Que Há de Novo
BREATHE 2026 · Central de Estudos · Dr. Jackson Fuck
🫁 ERS · BREATHE 2026 · REVIEW

Infecções Pleurais
O que há de novo

Da prevalência crescente à toracoscopia médica: imagem, biomarcadores, 16S/metagenômica, escore RAPID, antibioticoterapia curta, protocolo MIST-2 refinado e a janela da cirurgia precoce — a revisão state-of-the-art traduzida e reconstruída.

GUIA Pneumologia · Intensivismo Kenig et al. · Hadassah Breathe 2026;22:250038
§ 00 · Mapa

Inovações em infecções pleurais — as 7 frentes

Figura 1 do artigo, recriada em PT-BR: cada etapa do manejo tem desenvolvimentos atuais e esperados.

Avaliação inicial

  • Identificação de risco por epidemiologia atualizada
  • IA na leitura do derrame
  • POCUS amplo
  • biomarcadores de imagem para tipo de líquido e risco

Toracentese

  • Novos biomarcadores (PAI-1, suPAR, NETs) na decisão
  • microbiologia molecular (16S rRNA, metagenômica, painéis PCR sindrômicos)

Drenagem

  • Migração para drenos de pequeno calibre
  • definir papel do manejo conservador e toracenteses iterativas
  • IPC em infecções crônicas

Antibióticos

  • Cursos mais curtos guiados por parâmetros clínicos
  • terapia empírica personalizada pela nova microbiologia
  • amplo espectro precoce conforme resistência local

Terapia intrapleural

  • Otimizar dose e protocolo
  • novos agentes intrapleurais
  • identificar pacientes em risco de falha de IET

Cirurgia

  • Seleção individualizada para intervenção precoce
  • técnicas/equipero perioperatório em melhoria
  • ampliar papel da toracoscopia médica

Estratificação

  • RAPID embutido em algoritmos
  • modelos de risco com imagem, microbiologia e biomarcadores do líquido
§ 01 · Visão Geral

O que há de novo em infecções pleurais

Revisão state-of-the-art publicada na BREATHE (ERS, 2026;22:250038) — Kenig, Azmanov, Alsharif, Idais, Cytter-Kuint, Darawshy & Kuint (Hadassah / Universidade Hebraica de Jerusalém). Foco: adulto imunocompetente — empiema infantil, tuberculoso e infecções oportunistas estão fora do escopo.

A prevalência mundial de infecção pleural continua subindo, e cada etapa do manejo foi redesenhada nos últimos anos: ultrassom point-of-care, biomarcadores, microbiologia molecular, antibioticoterapia mais curta, terapia enzimática intrapleural refinada, cirurgia precoce e toracoscopia médica.

📖

Definições (ERS × BTS)

Infecção pleural (ERS): coleção pleural com sintomas infecciosos + pH <7,2 ou glicose <2,2 mmol/L ou cultura positiva. BTS: entrada e replicação de bactérias na cavidade pleural, diagnóstico multimodalidade. Empiema: pus franco na cavidade. Derrame paraneumônico complicado: derrame no contexto de pneumonia com sinais de infecção do líquido — termo que não cobre todos os casos (pode haver infecção pleural sem pneumonia evidente).

§ 02 · Epidemiologia

Prevalência em alta — quem é o paciente típico

  • EUA: internações por empiema 8,1 → 11,1 por 100.000 adultos (2007–2016), com readmissão em 30 dias maior (Mummadi). Inglaterra e França: alta, sobretudo em idosos; tendência mista nos EUA.
  • Predominância masculina, idade média ~60 anos — mas 42–60% dos casos têm <65 anos.
  • Comorbidades: revisão sistemática com 227.898 pacientes — prevalência mediana de comorbidades 72% (IIQ 58–83%): câncer, diabetes, cardiopatia (isquemia, FA, hipertensão). COPD, antes tida como protetora, tem prevalência aumentada de empiema (Lu et al.).
  • Por que subiu? Envelhecimento, imunossupressão, diabetes/DRC, mais CT/US detectando casos, patógenos resistentes e — pós-vacina pneumocócica — mudança de sorotipos: os sorotipos 1 e 3 (maior predileção pleural) não caíram com PCV13; sorotipos não vacinais aumentaram.

Desfechos

PILOT

Mortalidade

10% em 3 meses · 19% em 12 meses. Revisão com >200 mil pacientes: 4% intrahospitalar (menor que relatos antigos).

UK / ITÁLIA

Varia com perfil

UK 2008–2018: 14,9% intrahospitalar. Bobbio: 17,1% — com câncer salta para 29,5% vs 10,7%.

AUSTRÁLIA 6 ANOS

Comunitária × saúde

Intra-hospitalar: 13,4% (comunitária) vs 16,6% (assistencial); em 1 ano: 32,4% vs 45,5%.

Internação média de 2 a 3 semanas quando há infecção pleural. Fatores de mortalidade: idade, multimorbidade, baixo estado funcional, etilismo.

§ 03 · Fisiopatologia

Três fases: exsudativa → fibrinopurulenta → organização

FASE 1

Exsudativa

Inflamação pulmonar adjacente irrita a pleura visceral → permeabilidade vascular ↑, neutrófilos migram, líquido estéril se acumula ("derrame simples").

FASE 2

Fibrinopurulenta

Bactérias + produtos de degradação invadem o espaço; cascata de coagulação + fibrinólise reduzida → septos e loculações encapsulam bolsões de pus. pH ↓ e LDH ↑. IL-8 é o quimiotático central para neutrófilos; correlaciona com TNF-α (motor da fibrose).

FASE 3

Organização

Sem tratamento, camada fibrosa densa reveste as pleuras → pulmão aprisionado ("trapped lung") e fibro-tórax crônico.

§ 04 · Diagnóstico por Imagem

USG primeiro; CT com 5 marcadores; RM emergente

  • USG torácico (TUS) = modalidade inicial recomendada pela ERS para avaliação e decisão — acurácia superior a CT e radiografia, com VPP/VPN de até 82%; guia toracentese e dreno.
  • 5 marcadores de CT mais informativos (meta-análise): realce pleural, espessamento pleural, loculações, espessamento gorduroso e estranding de gordura.
  • Sinal da pleura dividida (realce das duas camadas) + volume >30 mL discrimina derrame complicado antes mesmo da toracentese.
  • CT também categoriza exsudato por unidades Hounsfield elevadas e razão líquido/sangue.
  • RM: sem radiação, série follow-up; estudo prospectivo pequeno (13 pacientes) — 23 min/exame, experiência positiva e superior à CT para detectar septos. Limites: tempo, cooperação, custo, disponibilidade.
Figura 2 — Imagem em infecções pleurais
Figura 2 — Imagem em infecções pleurais (reproduzida fielmente do original, CC BY-NC 4.0). a–d) CT axial/coronal com contraste: multiloculação com espessamento e realce pleural (seta) junto a consolidação (*); sinal da pleura dividida com estranding (b), grande derrame com componente loculado anterior (c), coleções múltiplas (d). e–g) USG: derrame livre hipoecoico (*, e); turvo com septos (f); líquido junto a consolidação com broncograma aéreo (g). h) RM T2: derrame pleural esquerdo.
§ 05 · Toracentese & Biomarcadores

pH segue no trono; suPAR, PAI-1 e NETs na fila

Toracentese diagnóstica urgente em toda suspeita. Pus franco = empiema = dreno (pus também prediz anaeróbios, menos origem extrapulmonar e mais conversão para toracotomia).

Regra central (BTS/ERS)

pH <7,2 → dreno. Zona intermediária (7,2–7,4): considerar dreno se LDH >900 UI/L + apoio clínico (febre persistente, alto volume, glicose ≤4,0 mmol/L, realce na CT, septos no USG). PCR pleural alta (cut-off usual 10 mg/dL) apoia o diagnóstico — procalcitonina pleural não tem papel.

suPAR

Receptor solúvel do ativador de plasminogênio — superior aos biomarcadores convencionais para prever necessidade de terapia intrapleural e cirurgia (Arnold).

PAI-1

Inibidor do ativador de plasminogênio 1 — associa-se a septos, tempo de internação e mortalidade em 12 meses (Bedawi). Mas o papel na falha de fibrinólise foi contestado: 82% do PAI-1 está inativo antes da intervenção e a atividade se perde em 2 dias — deficiência de plasminogênio pode ser a culpada da fibrinólise ineficaz.

NETs

Armadilhas extracelulares de neutrófilos (DNA livre, histona H3 citrulinada, α-defensinas 1–3, IL-1β) — elevadas em derrames paraneumônicos vs. malignos/transsudatos; correlacionam diretamente com LDH e inversamente com pH — candidatas a biomarcadores diagnóstico-prognósticos (Twaddell).

Outras frentes: perfil de aminoácidos por metabolismo alterado; atividade de LXR baixa associa-se a sobrevida menor (Kanellakis) — aumento farmacológico do LXR é alvo terapêutico em investigação.

§ 06 · Microbiologia

Cultura cega 50% das vezes; molecular enxerga o biofilme

Quem causa

§ 07 · Estratificação de Risco

Escore RAPID — o único validado

Derivado do MIST-1, validado retrospectivamente no MIST-2 e prospectivamente no PILOT. Prediz mortalidade, tempo de internação e custos.

Componente0 ponto+1+2
Renal (ureia)<14 mg/dL (5 mmol/L)14–23 (5–8)>23 (>8)
Age (idade)<50 anos50–70>70
Purulence (purulência)PurulentoNão purulento
Infection source (origem)ComunidadeHospitalar
Dietary (albumina)≥2,7 g/dL<2,7 g/dL
0–2

Baixo risco

Mortalidade 3 meses ~3%. Candidatos potenciais a intervenção cirúrgica precoce (LIOU: menor LOS e falência orgânica).

3–4

Risco intermediário

~9%. Antibiótico curto (≤14–21 d) demonstrado eficaz com RAPID <4 (SLIM).

5–7

Alto risco

~30–31% em 3 meses. Considerar intervenção mais precoce; doentes instáveis podem preferir menos invasivo (dreno + fibrinolítico).

Adicionar diabetes e diálise melhora a acurácia. O RAPID é prognóstico — ainda não dita tratamento em guideline, mas ensaios em curso (DICE, FIVERVATS) devem mudar isso.

§ 08 · Antibioticoterapia

Cobertura de anaeróbios é lei; duração encurta

Comunidade

Cefalosporina 2ª/3ª geração (cefuroxima/ceftriaxona) ou penicilina + inibidor de β-lactamase (ampicilina-sulbactam, amoxicilina-clavulanato) ou quinolona — sempre com metronidazol para anaeróbios, mesmo sem anaeróbio confirmado (baixo rendimento de cultura; cobertura anaeróbia associa-se a menos readmissão). Alergia a penicilina: moxifloxacino/levofloxacino.

Hospitalar

Espectro largo anti-pseudomonas (piperacilina-tazobactam ou carbapenêmico) + vancomicina ou linezolida (MRSA) + metronidazol.

Duração — menos é mais

Tradicionalmente 2–6 semanas guiadas por resposta clínica/marcadores/imagem. SLIM: 14–21 dias = 28–42 dias em pacientes estáveis após drenagem eficaz. Porcel: 2 semanas não inferior a 3 de amoxi-clav. Pós-VATS: mediana 11,6 ≈ 29,1 dias sem diferença de recidiva.

💧

Farmacocinética pleural

Níveis pleurais = séricos para amoxicilina, piperacilina, metronidazol e clindamicina — exceto trimetoprima. Linezolida excede o sangue (variabilidade interpaciente alta).

§ 09 · Drenagem Pleural

Dreno de pequeno calibre, guiado por imagem

Tabela 1 — Indicações de dreno de tórax [ERS/BTS]

Pus franco na toracenteseCultura ou Gram positivos no líquido
pH ≤7,2pH 7,2–7,4 + LDH ≥900 UI/L
Febre persistenteAlto volume de líquido
Glicose ≤72 mg/dL (4 mmol/L)Glicose ≤60 mg/dL (3,3 mmol/L)
Realce pleural na CTSeptações no USG
§ 10 · Terapia Enzimática Intrapleural

tPA + DNase (MIST-2): o padrão que afina

Indicada quando não há resposta clínica/radiográfica a dreno + antibiótico em ~48 h. Rompe septos restaurando a fibrinólise local (regulada por PAI-1, TGF-β e fator Xa).

Protocolo MIST-2

tPA 10 mg + flush 10 mL SF → DNase 5 mg + flush 10 mL SF → clampear 1 h → drenagem livre. 2×/dia por até 3 dias. Melhora resolução radiográfica, reduz cirurgia e encurta internação.

Figura 3 — Toracoscopia em cavidade pleural infectada
Figura 3 — Toracoscopia em cavidade infectada (reproduzida fielmente, CC BY-NC 4.0). a, b) Material exsudativo infectado sobre a superfície pulmonar e parede torácica; c) cavidade após desbridamento.
§ 11 · Cirurgia & Toracoscopia Médica

A janela da intervenção precoce

Toracoscopia médica (TM)

Manuseio do espaço pleural sob anestésica local/sedação leve: remoção de fibrina, dreno sob visão direta, irrigação, biópsia. Meta-análise 2021: 85% de sucesso (melhor com cultura negativa + fibrinólise). RCT pequeno: sem redução de LO vs fibrinólisis; estudo maior (Zhan): TM + fibrinólise recupera mais rápido, com melhora inflamatória e funcional, sem mais complicações. Eficácia cai no empiema organizado — timing importa. ERS a reserva para não candidatos a intervenção maior; exige expertise de centros especializados.

§ 12 · Outras Modalidades

O que não funcionou (por enquanto)

⚠️

Heterogeneidade persistente

Apesar das guidelines (ERS 2023, BTS 2023), o manejo real varia muito. Serviços especializados de medicina pleural + melhoria de qualidade aumentaram o uso de IET, reduziram cirurgia e padronizaram drenos — mas sem impacto demonstrado nos demais desfechos.

§ 13 · Interativo

Calculadora RAPID

0 pts
Baixo risco

Mortalidade 3 meses ~3%. Internação tende a ser mais curta; candidato potencial a intervenção precoce.

§ 14 · Teste-se

Quiz — 10 questões × 10 pontos

§ 15 · Referências

Referências-chave

1
Kenig A, Azmanov H, Alsharif N, et al. What is new in pleural infections? Breathe 2026;22:250038. DOI ↗
2
Bedawi EO, et al. ERS/ESTS statement on the management of pleural infection in adults. Eur Respir J 2023;61:2201062.
3
Roberts ME, et al. BTS Guideline for pleural disease. Thorax 2023;78(Suppl 3):s1-s42.
4
Rahman NM, et al. Intrapleural tPA and DNase (MIST-2). N Engl J Med 2011;365:518-26.
5
Corsten S, et al. RAPID score (MIST-1 deriv.; MIST-2 valid.). Lancet Respir Med 2014.
6
Arnold DT, et al. Epidemiology of pleural empyema in English hospitals. Eur Respir J 2021;57:2003546.
7
Kanellakis NI, et al. TORPIDS — bacteriologia por metagenômica. Lancet Microbe 2022;3:e294-e302.
8
Bedawi EO, et al. MIST-3: VATS precoce × IET (RCT factibilidade). Am J Respir Crit Care Med 2023;208:1305-15.