ENSAIO CLÍNICO NÃO-RANDOMIZADO · TERAPIA INTENSIVA · JAMA 2026

Magnésio na prevenção de taquiarritmias: sem benefício detectável em 478 mil janelas de tratamento

Magnésio não reduziu taquiarritmias ventriculares ou supraventriculares em pacientes graves com hipomagnesemia — diferença de risco de 0,1% (IC95% −4,2 a 6,9), não significativa. Resultado robusto em 93 UTIs e consistente em todos os limiares de tratamento testados.

Autores Goulden R, Abrahamowicz M, Strumpf E, Tamblyn R Periódico JAMA Internal Medicine · 2026 Desenho Fuzzy Regression Discontinuity DOI 10.1001/jamainternmed.2025.6572 PMID 41359319

Bottom line ⚠️ N4 · Moderada

Evidência: forte · moderada · fraca · ausente

Dogma Desafiado

Mg NÃO previne arritmias

Diferença de risco para taquiarritmia em 24h: 0,1% (IC95% −4,2 a 6,9; p > 0,05). Nenhum efeito protetor detectado em qualquer desfecho.

Ressalva

478.901 janelas · 93 UTIs

Amostra massiva com delineamento quasi-experimental robusto. Consistência em todos os cutoffs (1,6–2,0 mg/dL). Generalizável para UTIs dos EUA e Europa.

Prática

Repensar rotina de Mg na UTI

A suplementação rotineira de magnésio nos limiares e doses atuais carece de evidência de benefício. O estudo não contraindica reposição em hipomagnesemia grave ou sintomática.

Pergunta PICO

P — População

171.727 admissões em 93 UTIs dos EUA e Europa (2003–2022). 478.901 janelas de tratamento analisadas. 42,4% mulheres, idade média 63 anos. Pacientes com dosagem sérica de Mg.

I — Intervenção

Suplementação intravenosa de magnésio administrada com base nos limiares institucionais de hipomagnesemia (cutoffs entre 1,6 e 2,0 mg/dL).

C — Comparador

Não suplementação de Mg em pacientes com níveis séricos logo acima do cutoff de tratamento (grupo controle natural do regression discontinuity).

O — Desfechos

Primário: taquiarritmia ventricular ou supraventricular em 24h pós-dosagem.
Secundários: hipotensão e mortalidade.

Desenho do Estudo — Fuzzy Regression Discontinuity

Fuzzy Regression Discontinuity Design — 93 UTIs (2003–2022) 171.727 admissões em UTI 478.901 janelas de tratamento Variável de Atribuição: Mg sérico (mg/dL) Cutoffs institucionais: 1,6 — 2,0 mg/dL CUTOFF Abaixo do cutoff Mg sérico baixo → Alta probabilidade de receber Mg ≈ 65–80% tratados (fuzzy) Acima do cutoff Mg sérico normal → Baixa probabilidade de receber Mg ≈ 10–25% tratados (fuzzy) Desfecho: Taquiarritmia em 24h RD = 0,1% (IC95% −4,2 a 6,9) · NÃO significativo

Fuzzy Regression Discontinuity Design: a probabilidade de receber Mg muda descontinuamente no cutoff, mas não deterministicamente. A inferência causal baseia-se na comparação de pacientes imediatamente acima vs. abaixo do limiar — grupos que seriam similares exceto pela probabilidade de tratamento.

Resultados-Chave

Desfecho Diferença de Risco (%) IC 95% Significância Evidência
Taquiarritmia (primário) — ventricular ou supraventricular em 24h 0,1 −4,2 a 6,9 NS forte
Hipotensão (secundário) não significativo NS forte
Mortalidade (secundário) não significativo NS forte
Resultados consistentes em todos os cutoffs testados (1,6; 1,7; 1,8; 1,9; 2,0 mg/dL). Análises de sensibilidade confirmam robustez.

O que muda na prática ⚠️ N4 · Moderada

Mudança

Reposição rotineira: reavaliar

A suplementação automática de Mg baseada apenas em valor de corte laboratorial (1,6–2,0 mg/dL) não encontra respaldo neste estudo. A decisão deve ser individualizada.

Cautela

Hipomagnesemia grave mantém-se como indicação

O estudo analisou limiares entre 1,6–2,0 mg/dL. Hipomagnesemia grave (<1,0 mg/dL), arritmia ativa ou torsades de pointes não foram o foco e continuam sendo indicações estabelecidas.

Protocolo

Revisão de protocolos institucionais

UTIs que mantêm protocolos de reposição universal de Mg com base em cutoffs devem considerar revisão à luz destes dados. O "sempre fizemos assim" não é evidência.

Oportunidade

Desprescrição e stewardship

Reduzir reposições desnecessárias de Mg pode diminuir carga de enfermagem, custos de farmácia, risco de flebite e interações medicamentosas — sem piorar desfechos.

Checklist: Quando repensar Mg na UTI

  • Mg sérico ≥ 1,6 mg/dL e paciente assintomático? → Considere não repor. Evidência de benefício ausente.
  • Paciente sem arritmia ativa, sem QT longo, sem torsades? → Reposição rotineira não sustentada por dados.
  • Mg solicitado por "rotina de UTI" sem indicação clínica específica? → Reavalie o protocolo institucional.
  • Hipomagnesemia grave (<1,0 mg/dL) ou sintomática? → Mantenha reposição. Fora do escopo deste estudo.
  • Arritmia ventricular ativa ou torsades de pointes? → MgIV permanece indicado independentemente do nível sérico.
  • Protocolo da unidade baseado em cutoffs antigos? → Discuta atualização com a equipe e a farmácia clínica.

Limitações e Vieses

Delineamento não-randomizado

Embora o regression discontinuity seja um dos delineamentos quasi-experimentais mais robustos, confundimento residual é possível.

Fuzzy design

Nem todos abaixo do cutoff receberam Mg e ~10–25% acima do cutoff também receberam. A inferência baseia-se em probabilidade de tratamento, com estimação por variável instrumental.

Dose única de Mg

O estudo avaliou o efeito de uma administração de Mg. Reposições repetidas ou doses mais altas podem ter efeitos diferentes — não abordados.

Generalizabilidade

93 UTIs dos EUA e Europa (2003–2022). Resultados podem não se aplicar a UTIs de países de baixa/média renda ou com padrões diferentes de cuidado.

🧠 Cadeia de raciocínio
  • Dados: 478.901 janelas de tratamento em 171.727 admissões de 93 UTIs. Mg sérico como variável contínua de atribuição com cutoffs em 1,6–2,0 mg/dL.
  • Hipótese: Suplementação de Mg em pacientes abaixo do cutoff reduziria taquiarritmias em 24h comparado a pacientes logo acima do cutoff (que recebem Mg com menor probabilidade).
  • Evidência: RD = 0,1% (IC95% −4,2 a 6,9). Resultado nulo, consistente em todos os cutoffs e em todas as análises de sensibilidade. Sem efeito também em hipotensão e mortalidade.
  • Conclusão: A prática de suplementação rotineira de Mg baseada em cutoffs laboratoriais de 1,6–2,0 mg/dL não se associa a redução de taquiarritmias — porque os dados mostram ausência de efeito com precisão razoável.
  • Alternativas descartadas: (a) "Mg funciona mas o estudo não detectou" — IC95% estreito o suficiente para excluir benefício clinicamente relevante para a maioria dos cenários; (b) "confundimento explica o nulo" — RD design é robusto a confundimento não medido na vizinhança do cutoff.
  • Confiança: N4 · Moderada. Estudo grande, bem conduzido, mas não-randomizado. A força da evidência é substancial para mudar prática de reposição rotineira, mas insuficiente para contraindicação absoluta.

Veredito

Veredito

Nível de Evidência: Moderado (GRADE 2B)

Estudo quasi-experimental grande e bem conduzido (fuzzy regression discontinuity) com resultados consistentes e precisos. A evidência disponível não sustenta a suplementação rotineira de magnésio para prevenção de taquiarritmias em pacientes de UTI com hipomagnesemia leve a moderada (Mg 1,6–2,0 mg/dL).

Recomendação: Sugere-se reavaliar protocolos institucionais de reposição universal de Mg. A decisão deve ser individualizada, considerando gravidade da hipomagnesemia, presença de arritmia ativa e risco de torsades. Força da recomendação: fraca a favor da mudança (GRADE 2B).

Mapa Mental do Estudo

Mg vs. Taquiarritmia 478K janelas · 93 UTIs · 171K admissões Fuzzy RD Design RD = 0,1% IC95% −4,2 a 6,9 · NS Cutoffs 1,6–2,0 Todos consistentes Hipotensão e morte: sem associação Secundários também NS Repensar rotina de Mg JAMA Intern Med 2026 · Goulden et al. ⚠️ N4 Moderada GRADE 2B

Referências (ABNT-BR)

GOULDEN, R.; ABRAHAMOWICZ, M.; STRUMPF, E.; TAMBLYN, R. Magnesium supplementation and tachyarrhythmias: a nonrandomized clinical trial. JAMA Internal Medicine, v.186, 2026. Publicado online em 8 dez. 2025. DOI: 10.1001/jamainternmed.2025.6572. PMID: 41359319.