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SAMUTIResumo Científico · teste htmx
Boletín Científico · Intensive Qare · 2019

Monitoreo hemodinámico clínico: regressando às bases

O exame clínico à beira-leito — pulso, pele, enchimento capilar, diurese, estado mental — discrimina hipoperfusão tecidual com confiabilidade comparável ao monitoreo invasivo e semi-invasivo, sem custo e sem punção. A tese central do boletim: "o pior monitoreo é o que não se faz".

Pérez Nieto O.R. et al.Boletín científico · 05/10/2019 4 tipos de choqueXAI-UC · N5–N2
CLÍNICA INVASIVO coerência
Pulso, pele e diurese × cateter e ecocardiograma — boa correlação, custo muito diferente

Pontos-chave

  • Hipotensão é sinal tardio. O grau de hipotensão não se correlaciona necessariamente com o grau de hipoperfusão global — o choque pode iniciar sem queda mensurável de PA. N4 ⚠️ revisão narrativa
  • Coerência hemodinâmica é o balanço entre macro e microcirculação; em até 4 mecanismos (heterogeneidade, hemodiluição, vasoconstrição/tamponamento, edema tecidual) a normalização das variáveis macro não garante perfusão microcirculatória adequada — mais visível no choque séptico. N3 ⚠️⚠️ conceito, sem RCT dedicado
  • Janelas clínicas de perfusão (pele, estado mental, diurese) são gratuitas, à beira-leito e reprodutíveis — mas nenhuma isoladamente é sensível/específica o bastante; usar em conjunto.
  • Índice de choque modificado (FC/PAM) >0,7–1,3 discrimina melhor a mortalidade do que sinais vitais isolados em grandes coortes de pronto-socorro. N4 ⚠️ coorte, não RCT

AlertaNormalizar todas as variáveis hemodinâmicas de forma tardia ou incoerente com o quadro do paciente não melhora a perfusão — e pode piorá-la (ex.: volume excessivo em choque séptico distributivo; vasopressor excessivo em disfunção sistólica).

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Choque, macro e microcirculação

A macrocirculação é formada pelos vasos de grande, médio e pequeno calibre que levam sangue do coração à periferia; a microcirculação são os vasos microscópicos que trocam oxigênio e nutrientes com o tecido. A coerência hemodinâmica é o pressuposto de que corrigir a macrocirculação corrige, na mesma proporção, a microcirculação — e é exatamente esse pressuposto que falha no choque séptico.

Fig. 1 — Curva de autorregulação do fluxo sanguíneo (figura original do boletim).

Quatro mecanismos descritos de perda de coerência hemodinâmica, mais frequentes no choque séptico apesar de reanimação macro-circulatória adequada:

Fig. 2 — Alterações microcirculatórias que exemplificam os tipos de incoerência hemodinâmica (figura original do boletim).
Tabela 1 — Sinais de compensação cardiovascular no choquereconstruída nativamente a partir do original
Mecanismo compensatórioZonaSinal
↑ resistência vascular sistêmicaPeleFria, pálida, diaforética
↑ resistência vascular sistêmicaJoelho e pésEnchimento capilar retardado
↑ resistência vascular sistêmicaExtremidades, carótida, virilhaPulsos periféricos fracos, pressão diferencial estreita
↑ frequência cardíacaTóraxTaquicardia
↑ frequência respiratóriaTóraxTaquipneia
↑ resistência vascular esplâncnicaRim, intestinoOligúria, vômito e íleo

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Pressão arterial, pulso e frequência cardíaca

O choque é hipoperfusão tecidual efetiva, não necessariamente hipotensão — mecanismos homeostáticos podem manter a PA média por meio do aumento da resistência vascular sistêmica até fases avançadas.

Palpação do pulso
100 / 80 / 60
Pulso radial palpável ≈ PAS >100 mmHg · pulso braquial ≈ PAS >80 mmHg · só pulso carotídeo ≈ PAS ≈ 60 mmHg. Ausência de pulso radial exige investigar a causa da queda pressórica de imediato.

Pressão de pulso (PP = PAS − PAD), valor normal ≈ 40 mmHg. Aproximadamente proporcional ao volume sistólico (pré-carga e contratilidade) e inversamente proporcional à rigidez arterial. PP <25 mmHg sugere baixo volume sistólico (hipovolemia, choque cardiogênico ou obstrutivo); PP próxima do normal em paciente hipotenso sugere vasodilatação como causa.

Fig. 3 — IVP = (PPmáx − PPmín)/((PPmáx+PPmín)/2); IVP >14% associa-se a resposta a volume (figura original do boletim).
Tabela 2 — Taquicardia sinusal inadequadareconstruída nativamente a partir do original
CritérioDetalhe
FrequênciaFC sinusal >100 lpm em repouso; FC média de 24h >90/min, não devida a causas primárias
PerfilMais comum em mulheres jovens
SintomasPalpitações intermitentes, sintomas multissistêmicos gerais

Bradicardia sinusal (FC <60/min) costuma ser benigna no paciente crítico, mas com frequência tem causa farmacológica (sedativos, betabloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio, dexmedetomidina, propofol). Bradicardia <50/min com sintomas (hipotensão, dispneia, dor torácica) exige tratamento imediato — atropina, e se não resolver, cronotrópico positivo (dopamina) ou marca-passo.

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Pletismografia & índice de choque

A onda de pletismografia do oxímetro de pulso reflete o volume sanguíneo local e a resistência vascular periférica — quanto maior a amplitude, mais vasodilatada a periferia; quanto menor, mais vasoconstrita.

Fig. 4 — Fator de amplitude = (máx−mín)×100%/máx (figura original).
Fig. 5 — Tipos de onda de pletismografia (figura original).
Índice de choque (IC) · FC/PAS
0,5–0,7
Faixa normal em adultos sadios. Útil para detectar choque em fases precoces, inclusive antes de alterar sinais vitais convencionais.
Índice de choque modificado (ICM) · FC/PAM
0,7–1,3
Corte relatado (<0,7 e >1,3) como melhor preditor de mortalidade que o índice de choque simples. N4 ⚠️ coorte >9.000 pacientes
Fig. 6 — Avaliação por índice de choque (figura original do boletim).
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Janelas clínicas de perfusão

Desde 1961 já se propunha reconhecer o estado de choque antes de defini-lo — daí a busca dirigida por sinais de hipoperfusão em pele, estado mental e diurese, com boa reprodutibilidade e sem custo.

Pele e pele mosqueada (mottling)

A pele é o primeiro órgão a sacrificar fluxo sanguíneo no choque. Pele fria/mosqueada reconhecida precocemente indica hipoperfusão contundente; quase 1/3 dos pacientes de UTI e até 50% dos pacientes com choque séptico apresentam mottling já na admissão à emergência.

Tabela 3 — Escore de mottlingreconstruída nativamente; diagrama à direita é a figura original
EscoreMottling na pele
0Sem mottling
1Área do tamanho de uma moeda no centro do joelho
2Área que não ultrapassa a borda superior da rótula
3Área localizada na parte inferior da coxa
4Área até a prega inguinal
5Mottling grave, além da virilha
Regiões do escore de mottling (figura original).

AtençãoMottling não se modifica com a pressão exercida sobre a pele no exame físico. Escore ≥4 associa-se a alta mortalidade em choque séptico, independente do escore de gravidade utilizado; a extensão da área mosqueada é uma emergência médica por si só.

Fotos clínicas — dados cutâneos de relevância

Fig. 7 — Fotografias clínicas originais do boletim; reproduzidas para fim educacional.

Tempo de enchimento capilar (CRT)

Pressão firme por 10–15s sobre o leito ungueal (dedo indicador) ou joelho; CRT normal <2s. Valores >2,5–5s associam-se a maior mortalidade, sobretudo se sustentados e acompanhados de lactato elevado.

Diurese e estado mental

Oligúria padronizada como diurese <400–500 mL/dia ou <0,5–1 mL/kg/h; limiar de 0,5 mL/kg/h é sensível e específico para insuficiência circulatória aguda, com risco de lesão renal e maior mortalidade associada. Alteração aguda do estado mental (horas) num paciente com falência circulatória deve ser investigada ativamente como sinal de que os mecanismos compensatórios estão no limite.

Fig. 8 — Proposta de monitoreo por estado da pele (figura original do boletim).
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Os 4 tipos de choque por monitoreo clínico

Tabela reconstruída nativamente a partir da Fig. 9 do boletim (os pequenos ícones de onda são reproduzidos do original):

Fig. 9 (reconstruída) — Avaliação dos tipos de choque por monitoreo hemodinâmico clínico
TipoFCPeleSaO₂PPOnda
Hipovolémico↑↑FriaNormalonda baixa amplitude
Cardiogénico↑↓FriaNormal/↓ (IAMVI)onda baixa amplitude
ObstrutivoFriaNormal/↓ (TEP, pneumotórax)onda baixa amplitude
VasodilatadoQuenteNormalonda alta amplitude com entalhe

Reveja no painel interativo a sintomatologia completa e a conduta imediata de cada tipo.

ANDROMEDA-SHOCK — o que o ensaio realmente mostrou

O boletim cita o ANDROMEDA-SHOCK como evidência de "diminuição da mortalidade em 28 dias" ao guiar a ressuscitação por enchimento capilar em vez de lactato. Verificando a publicação original (JAMA, 2019): o desfecho primário (mortalidade em 28 dias) foi numericamente menor no grupo CRT (34,9% vs. 43,4%), mas essa diferença não alcançou significância estatística (HR 0,75; IC95% 0,55–1,02; p=0,06). O achado positivo e estatisticamente significativo foi um desfecho secundário (SOFA em 72h) e a análise por protocolo. N3 ⚠️⚠️ desfecho primário não significativo; achado positivo é secundário/por protocolo

Por que isso importaNão invalida a estratégia guiada por CRT — que é gratuita, rápida e sem risco — mas a evidência de mortalidade é mais frágil do que o boletim de origem sugere. Trate o CRT como uma ferramenta de reavaliação frequente e de baixo custo, não como um desfecho de mortalidade comprovado por ensaio controlado.

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Raciocínio & crítica SAMUTI

Cadeia de raciocínio · evidência · incerteza

Fio condutor

Três variáveis governam a leitura clínica do choque: (1) a hipotensão é tardia e pouco sensível isoladamente; (2) índices compostos (IC/ICM, PP) e janelas de perfusão (pele, CRT, diurese, estado mental) capturam hipoperfusão antes da queda de PA; (3) nenhuma variável isolada basta — a força do método está em combiná-las e reavaliar com frequência.

Pontos fortes

  • Síntese prática e à beira-leito de sinais historicamente dispersos na literatura.
  • Reconhece explicitamente as limitações de cada sinal isolado (ex.: mottling não muda com pressão; PA automática superestima).
  • Conecta bem fisiopatologia (coerência hemodinâmica, autorregulação) a achados clínicos observáveis.

Limitações

  • É um boletim de revisão narrativa, não uma diretriz sistemática — a maior parte das recomendações é consenso/coorte, não RCT. moderada
  • A citação do ANDROMEDA-SHOCK como "diminuição de mortalidade" superestima a força do desfecho primário do próprio ensaio (ver seção Discussão). fraca para esse ponto específico
  • Cortes de ICM (>1,8 associado a mortalidade) vêm de uma única coorte de pronto-socorro — não substituem julgamento clínico individual.

Aplicabilidade no Brasil/SUS

Alto valor prático: nenhuma das janelas descritas (pulso, pele, mottling, CRT, diurese, estado mental) exige equipamento além de um relógio e as mãos do examinador — encaixa bem em UTI, PS e ambiente pré-hospitalar com recursos limitados, inclusive fora de centros com ecocardiografia point-of-care ou monitor de débito cardíaco disponível 24h. N4 ⚠️ extrapolação de aplicabilidade, não testada formalmente no SUS

Confiança por cenário

Janelas de perfusão (pele/CRT/diurese) como triagem inicial · N4 ⚠️ ICM como preditor isolado de mortalidade · N3 ⚠️⚠️ CRT-guided resuscitation reduz mortalidade (ANDROMEDA-SHOCK) · N3 ⚠️⚠️
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Referências (ABNT-BR)

Selecionadas do próprio boletim (numeração original entre colchetes) + uma verificação externa adicionada por este resumo.

[1] VINCENT, J. L.; DE BACKER, D. Circulatory Shock. N Engl J Med, v. 369, p. 1726-1734, 2013. DOI: 10.1056/NEJMra1208943

[4] HERNÁNDEZ, G.; CAVALCANTI, A.; OSPINA-TASCÓN, G. et al. Early goal-directed therapy using a physiologic holistic view: the ANDROMEDA-SHOCK — a randomized controlled trial (protocolo). Ann Intensive Care, v. 8, p. 52, 2018. DOI: 10.1186/s13613-018-0398-2

[5] INCE, C. Hemodynamic coherence and the rationale for monitoring the microcirculation. Crit Care, v. 19, S8, 2015. DOI: 10.1186/cc14726

[19] TERCEROS-ALMONTE, C.; GARCÍA, C.; BERMEJO, S. Prediction of massive bleeding. Shock index and modified shock index. Med Intensiva, 2017. DOI: 10.1016/j.medin.2016.10.016

[29] AIT-OUFELLA, H.; BAKKER, J. Understanding clinical signs of poor tissue perfusion during septic shock. Intensive Care Med, v. 42, n. 12, p. 2070-2072, 2016. DOI: 10.1007/s00134-016-4250-6

[30] DE MOURA, E.; ARMORIM, F.; DA CRUZ, S. et al. Skin mottling score as a predictor of 28-day mortality in patients with septic shock. Intensive Care Med, v. 42, n. 3, p. 479-480, 2016. DOI: 10.1007/s00134-015-4184-4

[35] DUMAS, G.; LAVILLEGRAND, J.; JOFFRE, J. et al. Mottling score is a strong predictor of 14-day mortality in septic patients. Crit Care, v. 23, p. 211, 2019. DOI: 10.1186/s13054-019-2496-4

Verificação adicional (revisor, não consta na lista original do boletim): HERNÁNDEZ, G.; OSPINA-TASCÓN, G. A.; DAMIANI, L. P. et al. Effect of a Resuscitation Strategy Targeting Peripheral Perfusion Status vs Serum Lactate Levels on 28-Day Mortality Among Patients With Septic Shock: The ANDROMEDA-SHOCK Randomized Clinical Trial. JAMA, v. 321, n. 7, p. 654-664, 2019. DOI: 10.1001/jama.2019.0071