Monitorização Cardiopulmonar em Cenários de Recurs
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Monitorização Cardiopulmonar em Cenários de Recursos Limitad

Monitoramento cardiopulmonar em ambientes com recursos limitados requer integração de avaliação clínica básica, como tempo de enchimento capilar e índice de choque, com ferramentas de baixo custo, como oxímetro de pulso e testes dinâmicos de pressão arterial, reservando técnicas avançadas (ultrassom, cateteres invasivos) para situações onde estão disponíveis; estratégias adaptativas em camadas per

Choque & Hemodinâmica 📄 Resumo de estudo 🏥 UTI / Emergência
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Visão geral

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Dados do Artigo

CampoDetalhe
AutoresVanina Kanoore Edul & Cecilia González
PeriódicoCurrent Opinion in Critical Care
Volume/Número32(3):286–295
DataJunho 2026
DOI10.1097/MCC.0000000000001382
TipoRevisão narrativa (Current Opinion)
ConflitosNenhum declarado
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Pontos-Chave (Key Points)

  • UTIs em cenários de recursos limitados (RLS) enfrentam restrições relevantes em infraestrutura, tecnologia, disponibilidade de medicamentos e capacitação, impactando diretamente a monitorização cardiopulmonar.
  • A implementação rotineira de estratégias de monitorização desenvolvidas em países de alta renda é frequentemente irrealista, sendo necessárias abordagens adaptadas ao contexto.
  • A integração pragmática de avaliação clínica básica e surrogatos fisiológicos de baixo custo é central para a ressuscitação do choque quando a monitorização avançada não está disponível, demonstrando viabilidade e benefício potencial em ensaios recentes.
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    1. Introdução e Contexto Global

    Apesar dos avanços substanciais em terapia intensiva nas últimas décadas, persistem disparidades globais relevantes no acesso à monitorização cardiopulmonar. Segundo o Banco Mundial, 85% da população mundial vive em países de baixa e média renda (LMICs), onde a carga de doença crítica é desproporcionalmente alta e o gasto em saúde permanece inferior.

    UTIs em cenários de recursos limitados enfrentam restrições como acesso limitado a leitos, infraestrutura inadequada e escassez de medicamentos, equipamentos e pessoal. Os LMICs apresentam grande heterogeneidade na disponibilidade e qualidade dos serviços de UTI. Cenários de recursos limitados podem ser encontrados inclusive em países de renda média-alta e alta, particularmente em comunidades remotas ou desassistidas.

    Dados da rede LIVEN (América Latina): survey com 257 hospitais demonstrou maior mortalidade e tecnologia subótima vs. países de alta renda. Até 22% dos centros não tinham ultrassom portátil e menos de 15% dispunham de monitorização contínua de débito cardíaco por pulse contour. Cenário pior em hospitais públicos.

    Survey global (Michard et al., 2025): 1.593 anestesiologistas/intensivistas de países de renda média encontraram acesso limitado a ecocardiografia (<63%) e monitorização de DC (37%), principalmente por custo. 72% usariam mais se acessível.

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    2. Monitorização Básica e Avaliação Clínica

    O exame clínico completo permanece como primeiro passo para detecção do choque. A avaliação indireta da perfusão tecidual inclui: perfusão cutânea, débito urinário, estado mental, taquicardia e hipotensão. Nenhum desses parâmetros isoladamente é sensível ou específico o suficiente para definir a causa do choque ou o estado volêmico.

    2.1 Tempo de Enchimento Capilar (CRT)

    O CRT é um marcador simples, rápido e amplamente disponível de perfusão periférica. No trial ANDROMEDA-SHOCK (2019), a ressuscitação guiada por CRT mostrou tendência a menor mortalidade, menos disfunção orgânica e menor intensidade de tratamento vs. estratégia guiada por lactato no choque séptico precoce. Desde então, o CRT ganhou aceitação crescente na ressuscitação da sepse, particularmente em RLS.

    Limitações relevantes:

  • A confiabilidade do CRT para predizer responsividade a fluidos requer análise cuidadosa
  • Fluidos ou aumento de PAM podem melhorar ou piorar o CRT
  • Apenas pacientes com CRT prolongado na linha de base responderam a fluidos (possível dissociação macro-microcirculatória)
  • 2.2 Trial ANDROMEDA-SHOCK 2 (2025)

    Ensaio randomizado com 1.467 pacientes com choque séptico precoce comparando CRT-PHR (ressuscitação hemodinâmica personalizada guiada por CRT) vs. cuidado usual.

    Protocolo CRT-PHR: identificação precoce de padrões hemodinâmicos usando pressão de pulso (PP) e pressão arterial diastólica (PAD), avaliação sistemática de responsividade a fluidos antes da administração, ecocardiografia à beira-leito, intervenções-alvo incluindo MAP challenges e trial de dobutamina em dose baixa.

    Resultados: CRT-PHR foi modestamente superior para desfecho composto de mortalidade, duração de suporte orgânico e tempo de internação, embora sem diferença na mortalidade em 28 dias. 36,4% no CRT-PHR e 42% no cuidado usual tinham CRT normal na linha de base.

    Interpretação crítica: O protocolo foi conduzido por intensivistas treinados em monitorização hemodinâmica avançada, enquanto o cuidado usual seguiu protocolos locais. A eficácia provavelmente reflete o efeito combinado de protocolização, expertise e avaliação multimodal, e não uma intervenção isolada.

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    3. Papel dos Sinais Vitais

    Frequência cardíaca: alterações durante infusão de fluidos são não-confiáveis para guiar ressuscitação isoladamente. Índices combinados (shock index, razão PP/FC) não melhoraram a acurácia diagnóstica.

    Shock index (FC/PAS): simples e disponível, mas pouca utilidade além da hemorragia. Fraco preditor de transfusão maciça em trauma (metanálise) e choque séptico.

    Diastolic shock index (DSI = PAD/FC): proposto como surrogato de tônus vascular. No choque séptico, DSI elevado associou-se consistentemente a maior balanço cumulativo, necessidade de norepinefrina e mortalidade, superando PAD ou FC isolados. Ajustar dose de vasopressor ao DSI mostrou associação ainda mais forte com desfechos. Vantagem principal: estimativa rápida à beira-leito do tônus vascular sem necessidade de cálculo de RVS ou medida de DC.

    Onda arterial e nó dicrótico: em estados vasoplégicos graves, vasodilatação marcada associa-se a deslocamento inferior do nó dicrótico, com PAD baixa e PP alargada. Vasopressores podem deslocar o nó para cima, modificando o acoplamento ventrículo-arterial. Evidência ainda limitada.

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    4. Índice de Perfusão (PI) Derivado do Oxímetro de Pulso

    Razão entre componentes pulsátil e não-pulsátil do oxímetro. No choque, o PI diminui à medida que o componente arterial declina.

    Achados positivos:

  • Durante PLR, aumento de PI >9% prediz aumento de DC com alta acurácia
  • Avaliação baseada em PI durante manobras de pré-carga (PLR, tidal volume challenge, EEO, recrutamento) pode ser feita de forma não-invasiva, à beira-leito e sem custo adicional — particularmente atraente em RLS
  • Limitações:

  • PVI performou mal em pacientes recebendo norepinefrina (AUROC 0,68±0,09)
  • Performance melhora com perfusão basal mais alta (PI >4%) e quando mudanças dinâmicas (não valores basais) são consideradas
  • Amplitude pletismográfica depende não só do VS, mas de tônus arterial, complacência venosa, temperatura cutânea e qualidade do sinal
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    5. Cateteres Arteriais e Venosos Centrais

    5.1 Monitorização Arterial

    Diretriz ESICM 2025: recomenda monitorização contínua de PA com cateter arterial no choque não-responsivo à terapia inicial.

    Trial EVERDAC (NEJM, 2025): postergar cateterização arterial em adultos com choque em favor de manejo não-invasivo não foi inferior em mortalidade em 28 dias. Até 14,7% dos pacientes manejados não-invasivamente necessitaram cateterização por doses altas de vasopressor (>2,5 μg/kg/min). Limitações: poucos pacientes de trauma/pós-cirúrgicos e sem obesos mórbidos.

    5.2 Responsividade a Fluidos via PA

    PAM pode permanecer inalterada apesar de aumentos no DC, enquanto PP pode espelhar mudanças no VS. A variabilidade respiratória da PP (PPV ≥12-13%) é um índice comprovado de responsividade a fluidos, obtido de cateter arterial periférico sem necessidade de dispositivos caros de DC.

    Tabela: Testes Hemodinâmicos Funcionais e Índices Dinâmicos Baseados em Pressão de Pulso

    TestePrincípio fisiológicoVariável avaliadaLimiar diagnósticoRequisitos ventilatóriosPrincipais limitações
    PPVInterações coração-pulmão durante ventilação com pressão positivaPPV≥12 a 13%VM controlada, Vt ≥7-8 ml/kg, ritmo sinusalNão-confiável em arritmias, respiração espontânea, Vt baixo, complacência baixa
    Tidal volume challengeAumento temporário de pressão intratorácica para amplificar dependência de pré-cargaΔPPVAumento ≥3 a 4%VM controladaRequer ajuste ventilatório; validação limitada
    Teste de oclusão expiratória final (EEOT)Aumento transitório do retorno venoso durante pausa expiratóriaΔPP ou ΔDCAumento de PP ≥5%VM controladaRequer tempo preciso e média; afetado por esforço espontâneo
    Sigh testPressão inspiratória breve (35 cmH₂O por 4s) amplia interação coração-pulmãoΔPP (batimento a batimento)Diminuição de PP ≥25%VM com respiração espontânea preservadaRequer análise de PP batimento a batimento; validação externa limitada
    Mini-fluid challengePequeno aumento de pré-carga (100-150 ml)ΔPPVDiminuição de PPV ≥2%VM controlada, ritmo sinusalHeterogeneidade entre estudos; variabilidade no tipo de fluido
    Teste de PEEPRedução transitória da PEEP aumenta retorno venosoΔPPV ou ΔDCDiminuição de PPV (cutoff variável)Ventilação mecânicaEvidência limitada; requer manipulação ventilatória
    PLR (usando PPV)Autotransfusão reversível (~300 ml)ΔPPVDiminuição significativa de PPV (cutoff variável)Capacidade de realizar PLR; linha arterialMenos validado usando PPV sozinho vs. DC
    PLR com LVOT-VTIAutotransfusão reversível avaliada por mudança no VSΔVTIAumento ≥10%Ecocardiografia disponívelOperador-dependente; requer expertise em ultrassom
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    6. Alternativas Quando PPV ou DC Não Estão Disponíveis

    Teste EEO simplificado: mudanças em tempo real na PP durante oclusão expiratória de 10 s detectaram responsividade a fluidos de forma confiável quando apenas uma linha arterial estava presente. Valores de PP devem ser medidos nos últimos 5 s da manobra.

    Teste de PEEP: diminuição breve da PEEP de nível alto para baixo pode detectar aumentos no DC em respondedores a volume.

    PVC: marcador impreciso de pré-carga, mas valores extremos são informativos. PVC elevada sugere manuseio cardíaco prejudicado do retorno venoso, possível disfunção de VD ou pressão de perfusão orgânica comprometida (PAM−PVC).

    ScvO₂: embora a terapia precoce guiada por metas visando ScvO₂ tenha melhorado desfechos em ensaios iniciais (Rivers 2001), esses achados não foram replicados. Valores extremos associam-se a piores desfechos. Requer co-oximetria, frequentemente indisponível em RLS.

    Diferença v-aCO₂: aumenta em estados de baixo fluxo, mas é influenciada por múltiplos confundidores. Nenhum estudo demonstrou melhora em desfechos clínicos. O trial LACTEL (RCT multicêntrico, Chest 2025) mostrou que estratégia baseada em índices CO₂-O₂ não melhorou clearance de lactato e sugeriu tendência a aumento de mortalidade. Uso rotineiro difícil de justificar em cenários com restrições.

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    7. Acesso à Monitorização por Ultrassom

    Ecocardiografia transtorácica: vital na avaliação do choque. Permite avaliar função de VD e VE e fornece testes dinâmicos de responsividade a fluidos com alta acurácia diagnóstica.

    LVOT-VTI: parâmetro Doppler não-invasivo, reprodutível e altamente sensível a mudanças no VS. Aumento >10% no VTI durante PLR é particularmente útil quando US é o único dispositivo avançado disponível. VTI deve ser calculado sobre ao menos 3 ciclos cardíacos (5 em FA).

    Variação da VCI: apesar de simplicidade e requisitos mínimos de treinamento, publicações recentes demonstraram baixa confiabilidade, especialmente durante respiração espontânea, Vt baixo e complacência reduzida. Metanálise mostrou valor preditivo intermediário (entre PPV e PAM/FC).

    Ultrassom pulmonar: complementar durante ressuscitação volêmica. Linhas B sugerem síndrome intersticial e edema pulmonar, mas não são específicas de sobrecarga.

    VExUS (Venous Excess Ultrasound): avaliação sistemática de congestão venosa. Ferramenta útil, mas reflete interação entre função cardíaca, pressões de enchimento e status volêmico. Pacientes sépticos podem exibir scores VExUS sugestivos de congestão venosa e simultaneamente responsividade positiva a fluidos, complicando decisões clínicas.

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    8. Abordagem em Camadas Adaptada a Recursos

    Tabela: Classificação de Países por Renda Nacional Bruta e Gasto em Saúde

    Grupo de rendaRNB per capita (USD)Nº de paísesGasto em saúde per capita (USD, 2021)Gasto em saúde (% do PIB, 2022)
    Baixa renda≤1.13525~45~5 a 6
    Média-baixa1.136–4.49550~145~4
    Média-alta4.496–13.93555~530~5 a 6
    Alta renda>13.93586~4.000~9 a 10

    Pirâmide de Monitorização (Resource-Adaptive Tiered Approach)

    Camada 1 — Universal (custo zero): Exame clínico (CRT) + sinais vitais (DSI)

    Camada 2 — Tecnologia básica (baixo custo): Oxímetro de pulso (índice de perfusão + PLR)

    Camada 3 — Invasiva (se disponível): Linha arterial (PPV / teste EEO / PP) + Linha venosa (PVC / ScvO₂ / diferença v-aCO₂)

    Camada 4 — Ultrassom: VTI + VExUS

    Framework de Decisão à Beira-Leito

    Passo 1 — Avaliar Perfusão: O paciente está em choque? Qual o tônus vascular? → Ferramentas: CRT padronizado, DSI, exame clínico

    Passo 2 — Responsividade a Fluidos: O coração pode bombear mais? Use manobras dinâmicas. → Ferramentas: PLR, PPV, EEO, teste de PEEP com PI, PP ou VTI

    Passo 3 — Checar Tolerância: O sistema está cheio? Procure congestão. → Ferramentas: PVC alta, US pulmonar (linhas B), VExUS

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    9. Conclusão

    Há necessidade urgente de avaliar como mesmo as estratégias terapêuticas mais básicas performam em cenários de recursos limitados. Enquanto isso, clínicos devem fazer uso ótimo das tecnologias localmente disponíveis. Integrar toda informação fisiológica acessível em uma abordagem coerente e pragmática é essencial para guiar a ressuscitação e realizar a monitorização cardiopulmonar.

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    Referências Principais (ABNT-BR)

    KANOORE EDUL, V.; GONZÁLEZ, C. Cardiopulmonary monitoring in low-resource settings. Current Opinion in Critical Care, v. 32, n. 3, p. 286–295, jun. 2026. DOI: 10.1097/MCC.0000000000001382.

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    MICHARD, F. et al. Access to haemodynamic evaluation tools in middle-income countries: a survey of 1593 anaesthetists and intensivists from 39 nations. BJA Open, v. 17, 100515, 2025.

    CHAVES, R.C.F. et al. Assessment of fluid responsiveness using PPV, SVV, PVI, CVP, and IVC variation: a systematic review and meta-analysis. Critical Care, v. 28, 289, 2024.

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    Refs

    Referências

    Conteúdo migrado do Central de Estudos (Blog Dr. Jackson Fuck, Notion).