Mucolíticos na Insuficiência Respiratória — MARCH
NEJM 2026 · Editorial · Carbocisteína × Soro hipertônico · apenas PT-BR
🫁 Editorial · New England Journal of Medicine · 20/ago/2026

Mucolíticos na Insuficiência Respiratória — um passo MARCH

O ensaio MARCH testou, em pacientes ventilados com falência respiratória aguda e secreções difíceis de mobilizar, duas estratégias plausíveis — carbocisteína e soro hipertônico — e não encontrou benefício: sem redução na duração da ventilação, com sinais de dano. A mensagem: é hora de sair do uso rotineiro de mucolíticos na UTI.

La Vita & Hardin N Engl J Med 2026;395:817-818 PMID 42617120

10.1056/NEJMe2609074 · Sobre o ensaio: Connolly B et al. NEJM 2026;395:739-752

§ A essência em 30 segundos

A mensagem central

Praticidade ≠ evidência. Mucolíticos são amplamente usados na UTI por plausibilidade fisiológica, mas o melhor ensaio disponível (MARCH) mostrou ausência de benefício — e sinais de dano. É hora de abandonar o uso rotineiro de agentes mucoativos na falência respiratória aguda.

✘ Carbocisteína: não reduz VM + sangramento GI superior ✘ Soro hipertônico: não reduz VM + broncoespasmo/hipoxemia ⇅ Ensaio 2×2 fatorial, aberto, multicêntrico, ≥16 anos ✔ Desfecho primário: duração da ventilação mecânica
2×2
Delineamento fatorial: carbocisteína × soro hipertônico × cada um isolado × controle
≥16 anos
Ventilados com falência respiratória aguda e secreções de difícil mobilização (julgado pelo clínico)
até 28 d
Duração máxima das intervenções, sobre terapia usual de suporte
§ 01 · O alvo: muco e clearance

Por que mucolíticos parecem plausíveis

O muco das vias aéreas é uma substância em camadas: um gel glicoproteico viscoelástico, uma camada líquida e uma fina camada de surfactante. O clearance depende sobretudo de dois mecanismos — a limpeza mucociliar (cílios) e a interação com o fluxo aéreo (tosse).

🌪️ O que falha na insuficiência aguda

Gases inalados relativamente secos, infecção e inflamação levam a hipersecreção de muco. Sedação e depressão neuromuscular comprometem a tosse. Resultado: secreções retidas, atelectasia e piora da oxigenação.

💊 As duas estratégias testadas

Reidratar a camada de muco e aumentar a tosse — o expectorante soro hipertônico. Ou alterar as propriedades viscoelásticas do muco secretado — o regulador mucoso carbocisteína.

O alerta dos autores: prever o resultado de ensaios na UTI a partir de plausibilidade tem péssimo histórico — o editorial cita os ensaios de transfusão (TRICC) e de volume corrente (ARDSNet) como exemplos em que o "óbvio" falhou. Mucolíticos não são inofensivos: broncoconstrição, eventos GI, e carga operacional (nebulizações a cada 6h exigem técnico, filtro em linha, risco de perda de PEEP, de-recrutamento e hipoxemia).
§ 02 · O ensaio MARCH

Mucoactives in Acute Respiratory Failure: Carbocisteine and Hypertonic Saline

Conectly e col. reportam um ensaio multicêntrico, aberto (label), 2×2 fatorial: todos os pacientes receberam terapia usual e foram randomizados para um dos quatro braços — carbocisteína isolada, soro hipertônico isolado, combinação, ou somente terapia usual. O desfecho primário foi a duração da ventilação mecânica. Gravidade basal e características clínicas estavam adequadamente balanceadas entre os grupos.

ParâmetroDetalhe do MARCH
PopulaçãoVentilados mecânicos, ≥16 anos, falência respiratória aguda com secreções de difícil mobilização (julgamento do clínico tratante). Excluídos: uso rotineiro de mucoativos por doença pulmonar crônica.
Carbocisteína750 mg enteral, 3×/dia, por até 28 dias
Soro hipertônico6–7%, 4 mL nebulizado, 4×/dia, por até 28 dias
Delineamento2×2 fatorial, aberto, multicêntrico — 4 braços: A isolado, B isolado, A+B, controle (usual care)
Desfecho primárioDuração da ventilação mecânica
Fonte: Connolly B et al. Carbocisteine or Hypertonic Saline for Acute Respiratory Failure. NEJM 2026;395:739-752. 10.1056/NEJMoa2603406
§ 03 · Resultados e sinais de dano

Nenhum benefício — e o dano apareceu

≈ 0
Redução da duração da VM com carbocisteína, soro hipertônico ou a combinação. Sem interação entre os tratamentos.
⚠️ ↑ GI+
Sangramento gastrointestinal superior clinicamente importante: significativamente mais frequente em qualquer grupo que recebeu carbocisteína.
⚠️ ↓ SpO₂
Broncoespasmo levando a administração de broncodilatador e hipoxemia durante a nebulização: significativamente mais frequentes nos grupos com soro hipertônico.
Evento adverso grave na combinação: 1 EAG no braço carbocisteína + soro hipertônico — paciente com sangramento GI inferior que levou a transfusão.

Para além dos efeitos farmacológicos diretos, há o custo operacional invisível: cada nebulização a cada 6h adiciona trabalho à equipe, exige instalar/remover filtro em linha e pode causar perda de PEEP, de-recrutamento e hipoxemia — exatamente o que se observa nos sinais de dano do ensaio.

Leitura do editorial: com ausência de benefício e sinal de dano notável — achado coerente com a literatura limitada prévia (meta-análise Thorax 2020; ensaio JAMA 2018 de acetilcisteína sob demanda × rotina) — é hora de se afastar do uso rotineiro de mucoativos na falência respiratória aguda. O MARCH reafirma o valor de ensaios randomizados que testam práticas estabelecidas com base em evidência fraca.
§ 04 · Limitações reconhecidas

Antes de generalizar, leia isto

LimitaçãoO que significa na prática
Ensaio aberto (label)A duração da VM pode ser influenciada por decisões de clínicos conscientes da alocação de tratamento.
Exclusão de doença pulmonar crônicaOs dados não excluem benefício em subgrupos importantes (ex.: bronquiectasia, DPOC — onde carbocisteína/hipertônico têm uso crônico estabelecido).
Outros mucolíticos no controleO uso de agentes mucoativos além dos dois testados foi maior no grupo usual care — fator que pode ofuscar um eventual efeito.
Só dois agentes testadosO ensaio cobriu apenas 2 de vários mucolíticos de uso comum; não generaliza para todos.
Sedação não reportadaFaltou informação sobre grau de sedação e outros fatores que afetam o clearance endógeno em cada grupo.
Definição não padronizada"Secreções de difícil manejo" sem definição padrão → heterogeneidade acrescida em uma população já heterogênea.
§ 05 · Implicações para a sua UTI

O que muda a partir de agora

1. Pare de prescrever por hábito

Em falência respiratória aguda (sem doença pulmonar crônica com indicação própria), carbocisteína e soro hipertônico não têm evidência de benefício e trazem sinais de dano. A inércia terapêutica agora é a conduta com melhor evidência.

2. Documente por que (re)prescreveu

Se decidir usar, a indicação deve ser explícita e individual (ex.: bronquiectasia com indicação crônica prévia — subgrupo excluído do MARCH), não "rotina de UTI".

3. Se nebulizar, monitore

O dano do soro hipertônico no MARCH foi operacional + farmacológico: broncoespasmo e hipoxemia durante a nebulização. Monitorar SpO₂, avaliar necessidade de broncodilatador e revisar PEEP/PEEP-loss do circuito.

4. Cuidado com o sangramento

Carbocisteína associou-se a mais sangramento GI superior. Em pacientes com risco GI elevado, a razão risco-benefício de iniciar é ainda pior.

Contexto que fortalece a mudança: o uso de mucolíticos em UTIs do Reino Unido é já documentado como comum (survey PeerJ 2020) — ou seja, a prática que o MARCH confronta é exatamente a prática real. E o NEJM 2025 de bronquiectasia (Bradley et al.) mostra o mesmo padrão de "plausibilidade sem benefício claro" em outra população — a lição é transversal: testar o óbvio.
§ SIM · Navegador MARCH

Simulador: usar ou não usar mucolítico?

Explore a decisão no leito. Ajuste os dois eixos e marque o contexto — a sugestão segue a lógica do editorial (MARCH = sem benefício + sinais de dano em falência aguda; subgrupos crônicos fora do escopo).

Dificuldade de mobilizar secreções 5/10
Risco de sangramento GI / evento GI 3/10
ANALISANDO
Ajuste os eixos
Facilitador didático baseado no editorial do MARCH — não substitui julgamento clínico individual.
⚠️ Ferramenta educacional derivada de um editorial. O MARCH é aberto e não padronizou "secreções difíceis": a decisão real deve ser individual e documentada.
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§ Referências

Leitura original e fontes-chave

[E]La Vita CJ, Hardin CC. Mucolytics in Respiratory Failure — A MARCH Forward. N Engl J Med 2026;395:817-818. 10.1056/NEJMe2609074 · editorial resumido nesta página
[1]Connolly B, Dickson N, Campbell C, et al. Carbocisteine or hypertonic saline for acute respiratory failure. N Engl J Med 2026;395:739-752. 10.1056/NEJMoa2603406 · ensaio MARCH
[2]Bradley JM, O'Neill B, McAuley DF, et al. Hypertonic saline or carbocisteine in bronchiectasis. N Engl J Med 2025;393:1565-77. 10.1056/NEJMoa2510095
[3]Anand R, McAuley DF, Blackwood B, et al. Mucoactive agents for acute respiratory failure in the critically ill: a systematic review and meta-analysis. Thorax 2020;75:623-31. 10.1136/thoraxjnl-2019-214355
[4]van Meenen DMP, van der Hoeven SM, Binnekade JM, et al. Effect of on-demand vs routine nebulization of acetylcysteine with salbutamol on ventilator-free days in ICU patients receiving invasive ventilation: a randomized clinical trial. JAMA 2018;319:993-1001. 10.1001/jama.2018.0949
[5]Borthwick M, McAuley D, Warburton J, et al. Mucoactive agent use in adult UK Critical Care Units. PeerJ 2020;8:e8828. 10.7717/peerj.8828
[6]Icard BL, Rubio E. The role of mucoactive agents in the mechanically ventilated patient: a review of the literature. Expert Rev Respir Med 2017;11:807-14. 10.1080/17476348.2017.1359090
[7]Hébert PC, Wells G, Blajchman MA, et al. TRICC trial. N Engl J Med 1999;340:409-17 · e ARDS Network. N Engl J Med 2000;342:1301-8 — os "óbvios" que falharam, citados pelo editorial.