POCUS Gastrointestinal
Abu-Zidan & Cevik · World J Emerg Surg 2018
📡 Estado da arte · POCUS

POCUS Gastrointestinal: do básico ao avançado

Tudo que o clínico de emergência e UTI precisa para dominar o ultrassom de beira de leito do abdome — física, técnica, líquido livre, ar livre, obstrução e as principais patologias intestinais, com as figuras originais em alta resolução.

15 figuras 12 tópicos 10 questões Simulador
UltrasoundPoint-of-careBowel obstructionAppendicitisDiverticulitisTuberculosis
§ 01

Visão geral

O point-of-care ultrasound (POCUS) é uma ferramenta de beira de leito não invasiva, rápida, repetível, precisa e livre de radiação, útil em decisões críticas. Este material percorre o artigo de Abu-Zidan & Cevik (World J Emerg Surg 2018) para que o clínico de emergência e UTI domine o POCUS gastrointestinal — da física básica às patologias específicas.

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O que torna o POCUS diferente da radiologia de rotina?

Os autores resumem em 5 características (acrônimo-mnemônico):

🫀
1 · P

Physiological

Estudo fisiológico: avalia o estado de choque enquanto diagnostica na mesma sessão.
🎯
2 · O

On spot

Decisão clínica no local, em emergência, em tempo muito curto.
👁️
3 · C

Clinical

Extensão do exame clínico: o "sétimo sentido" da inspeção intra-abdominal.
🧩
4 · U

Unique

Único, indicações em expansão: estuda vários órgãos sistematicamente na mesma sessão.
🛡️
5 · S

Safe

Seguro e repetível, usado como estetoscópio nas mãos de clínicos treinados de atenção aguda.

Originou-se no FAST (líquido livre no traumatismo múltiplo) e evoluiu para ferramenta que salva vidas nas mãos do próprio médico assistente — percorrendo diagnóstico, reanimação, operação e cuidado pós-operatório. Há evidência de valor mesmo nas mãos de não-radiologistas.

Aqui você encontra: física básica e artefatos, técnica de exame, detecção de líquido livre, ar intraperitoneal livre e obstrução intestinal; depois os achados específicos das patologias intestinais mais comuns — apendicite aguda, apendagite epiploica, diverticulite, colite pseudomembranosa, tuberculose intestinal, Doença de Crohn e tumores colônicos.

Figura 1: Principais características do POCUS realizado pelo clínico de terapia intensiva,...
Figura 1. Principais características do POCUS realizado pelo clínico de terapia intensiva, que o diferenciam do exame de rotina.
§ 02

Física básica e artefatos

Entender a física básica do ultrassom e seus artefatos é o primeiro passo para dominar o POCUS: interpretar as imagens, evitar armadilhas e chegar a um diagnóstico preciso de beira de leito.

🔊

Como funciona

As máquinas POCUS emitem ondas de alta frequência (2–15 MHz) pelos cristais piezoelétricos dos transdutores e recebem as ondas refletidas. No modo B (brilho/bidimensional), a imagem 2D tem ~1 mm de espessura. Frequência, formato e tamanho do transdutor e o tempo de emissão modificam a imagem.

Meios de densidades diferentes têm impedância tecidual diferente. Quanto maior a densidade, mais as partículas se agregam e maior a capacidade de refletir as ondas — e mais ecogênico o tecido (ordem: pedra/osso > tecido fibroso > tecido mole > líquido; o gás é um caso à parte).

Eco de cada meio no modo B

MeioAparência no modo BPor quê?
Líquido (ex.: ascite)Preto — anecogênicoReflete poucas ondas
Tecido mole (ex.: fígado)CinzaReflexão intermediária
Tecido fibroso (ex.: diafragma)Branco — hiperecogênico, sem sombraReflexão forte
Pedra / ossoBranco — hiperecogênico, com sombraReflexão muito forte + sombra acústica
Ar / gásBranco muito brilhante com reverberaçãoRefletor muito forte, esconde estruturas profundas
Figura 2: Materiais mais densos refletem mais ondas: o líquido (ascite) é anecogênico/pret...
Figura 2. Materiais mais densos refletem mais ondas: o líquido (ascite) é anecogênico/preto, o tecido mole (fígado) é cinza, o fibroso é branco sem sombra, e ossos/pedras são brancos com sombra.

Pelo movimento rápido das partículas gasosas, o ar é um refletor muito forte: produz linhas brancas brilhantes que impedem ver estruturas profundas. As linhas de reverberação mais profundas representam a repetição das ondas refletidas, porque a onda salta entre o transdutor e o gás — a distância entre elas costuma ser igual.

Reverberação a favor do diagnóstico

Embora esconda estruturas, a reverberação é muito útil para diagnosticar ar intraperitoneal livre (AIL): linha ecogênica brilhante diretamente sob a fáscia abdominal que não se move com a respiração é diagnóstica de AIL.

Figura 3: Artefato de reverberação: a linha ecogênica do gás (seta amarela) e as linhas de...
Figura 3. Artefato de reverberação: a linha ecogênica do gás (seta amarela) e as linhas de reverberação (repetição das ondas), cuja densidade diminui com a profundidade enquanto as distâncias permanecem iguais.

A densidade das linhas de reverberação diminui conforme vão mais profundas; as distâncias entre elas se mantêm iguais.

§ 03

Técnica de exame

Escolha do transdutor

TransdutorFrequênciaUso
Convexo (baixa freq.)2–5 MHzMaior penetração → estruturas profundas, visão ampla (ex.: líquido livre no abdome obeso)
Linear (alta freq.)10–12 MHzMenor penetração, melhor resolução → estruturas superficiais (ex.: apendicite)

O clínico de atenção aguda usa uma abordagem global, examinando tórax, abdome e extremidades na mesma sessão, se necessário.

🧭

Direção do ponteiro

O ponteiro do transdutor deve estar sempre dirigido para a cabeça ou para o lado direito do paciente — inclusive na ecocardiografia e em cortes oblíquos.

O POCUS é um exame focado que responde a uma pergunta clínica específica, corroborado com o quadro clínico. A técnica é individualizada conforme a patologia suspeita, e o operador deve ter um mapa anatômico tridimensional mental claro antes de iniciar.

Exemplo do cólon: localizar o cólon ascendente no flanco direito (posição e haustrações) e segui-lo até o reto. Se difícil, localizar o ascendente no quadrante superior direito (mais consistente) e segui-lo proximal e distalmente.

😖

A "tríade infeliz" do ultrassom intestinal

"Demais dor, demais gás, demais gordura." Reduza-os: analgesia se necessário (ex.: apendicite retrocecal), compressão suave para deslocar o gás do ceco, e tentar a via lateral direita para o apêndice retrocecal escondido pela visão anterior. O ultrassom é operador-dependente — só se aprende com experiência.

Figura 4: O clínico de atenção aguda usa uma abordagem global. O ponteiro do transdutor é ...
Figura 4. O clínico de atenção aguda usa uma abordagem global. O ponteiro do transdutor é rotineiramente dirigido proximalmente ou para o lado direito: (a) apical 4 câmaras, (b) subcostal, (c) coronal abdominotorácica, (d) oblíqua abdominal.
§ 04

Líquido livre intraperitoneal

O POCUS detecta líquido intraperitoneal livre com alta acurácia — até 10 mL em mãos treinadas.

Sítios e técnica

  • Transdutor convexo de baixa frequência (3,5–5 MHz).
  • Três regiões dependentes principais: hepatorrenal (bolsa de Morrison), periesplênica e pélvica.
  • Em decúbito dorsal: periesplênica e Morrison são os locais mais comuns.
  • Trendelenburg desloca o líquido ao hipocôndrio; Trendelenburg reverso, à pelve.

A quantidade detectada varia com localização anatômica, taxa de acúmulo e posição do paciente.

✓ Aplicação

O US guia a paracentese do líquido intra-abdominal, com baixo risco de complicações.

⚠ Limitações

  • Não diferencia o tipo de líquido (urina, bile, ascite ou sangue) — só por clínica ou paracentese.
  • Sangue coagulado é ecogênico e passa despercebido se não houver atenção.
§ 05

Ar intraperitoneal livre

O POCUS detecta o ar intraperitoneal livre (AIL) com precisão. Três achados sonográficos: (1) sinal da faixa peritoneal aumentada (enhanced peritoneal stripe sign), (2) fenômeno do deslocamento (shifting) e (3) artefato de reverberação.

Em decúbito supino, o AIL se move anteriormente e é encontrado no quadrante superior direito (entre fígado e parede) e na região sub-hepática.

🔍

AIL × gás intraluminal

O gás intraluminal hiperecogênico se move com a respiração; o AIL, diretamente sob a fáscia abdominal, não é afetado pela respiração.

Exame: supino, tórax elevado 10–20°, focando linha média e quadrante superior direito; transdutor longitudinal na região epigástrica paraesternal direita sobre o fígado. Alguns pacientes necessitam decúbito lateral esquerdo (nem sempre possível).

Manobra da tesoura (scissor maneuver)

Com linear, demonstra o deslocamento do ar sob compressão: identifica-se o AIL entre fígado e parede, aplica-se compressão e libera-se subitamente. Na compressão o ar se afasta da sonda e o AIL fica menos evidente; ao liberar, fica mais claro.

Linear e convexo funcionam; o linear (10–12 MHz) é mais preciso para o ar próximo à superfície (alta resolução). Como mais ar se acumula com o tempo, repetir o exame eleva a acurácia.

Figura 5: Homem de 45 anos, dor suprapúbica e disúria: alças do delgado espessadas e infla...
Figura 5. Homem de 45 anos, dor suprapúbica e disúria: alças do delgado espessadas e inflamadas com gás. O AIL significativo aparece como 'faixa peritoneal aumentada' (linha hiperecoica sob a fáscia, seta amarela) + reverberação. Laparotomia confirmou grande laceração retal autoinfligida. Cortesia: Dept. of Surgery, UAE University.
§ 06

Obstrução intestinal

A obstrução intestinal é emergência GI comum que exige manejo rápido. História, exame físico e radiografia simples são essenciais; o US é reconhecido há ~4 décadas e ajuda a detectar causa e nível da obstrução.

Padrão do intestino normal

Alça normal = estrutura hipoecoica circular (camada muscular) circundando conteúdo misto: hipoecoico (líquido), isoecoico (alimento), hiperecoico (gás). A parede afina na fase de relaxamento do peristaltismo. Diâmetros normais:

AlçaDiâmetro normal
Jejunoaté 25 mm
Íleoaté 15 mm
Cólonaté 50 mm

Perguntas clínicas que o POCUS responde

  1. Há obstrução?
  2. É mecânica ou funcional?
  3. Onde está a obstrução?
  4. Há isquemia ou necrose?
  5. Qual a evolução do tratamento conservador?

Achados US da obstrução do delgado

  1. Dimensões maiores das alças
  2. Espessamento da parede (>3 mm)
  3. Conteúdo intestinal aumentado
  4. Peristaltismo aumentado (vai-e-vem) ou diminuído
  5. Válvulas coniventes aumentadas/visíveis (>2 mm)
  6. Lúmen colônico colapsado
⚖️

Mecânica × funcional

Alças delgadas dilatadas cheias de gás e líquido sem peristalse + gás/líquido/fezes no cólon = íleo paralítico.

Nível da obstrução pela visibilidade das válvulas coniventes: proeminentes na obstrução jejunal (Fig. 6), ausentes/raras na ileal (Fig. 7). Procure a causa no ponto de transição entre alças proximais dilatadas e distais colapsadas: hérnias, invaginação, ascaríase, corpos estranhos, tumores.

🩸

Isquemia

A isquemia reduz os movimentos mesmo com obstrução mecânica. Alça acinética = peristalse ausente por >5 min. Para cirurgia precoce: espessamento mural aumentado + peristalse diminuída/ausente + líquido intraperitoneal. O Doppler colorido informa sobre a perfusão da parede.

Figura 6: Menino de 12 anos, dor e vômitos: duas alças jejunais não funcionantes (válvulas...
Figura 6. Menino de 12 anos, dor e vômitos: duas alças jejunais não funcionantes (válvulas coniventes proeminentes). TC confirmou. Laparotomia: alças obstruídas por banda fibrosa congênita.
Figura 7: Mulher de 24 anos pós-cesárea: alças ileais dilatadas ativas (linear 10–12 MHz)....
Figura 7. Mulher de 24 anos pós-cesárea: alças ileais dilatadas ativas (linear 10–12 MHz). Acompanhamento em 12 h: aumento do líquido intraperitoneal entre as alças.
🖼️

Figura 8 — caso de isquemia mesentérica

Figura 8: Homem de 60 anos com FA, dor abdominal de 24 h, distensão, ruídos ausentes. Exam...
Figura 8. Homem de 60 anos com FA, dor abdominal de 24 h, distensão, ruídos ausentes. Exame difícil por obesidade e reverberação. Íleo dilatado não ativo; gás na parede intestinal (pontos brancos) = pneumatose. Angio-TC: oclusão da artéria mesentérica superior com isquemia maciça e gás nos vasos mesentéricos. Laparotomia confirmou. Cortesia: Dr Hussam Mousa, UAE University.
§ 07

Apendicite aguda

A apendicite aguda é emergência comum, podendo perfurar em 1/3 dos casos se o diagnóstico atrasar. O US é a primeira modalidade de escolha em todas as idades, especialmente em crianças, pela segurança. Clínicos de atenção aguda têm alta acurácia.

Técnica

Paciente supino, transdutor linear de alta frequência. Técnica padrão: compressão graduada — comprime e desloca o ar para alcançar penetração e visualizar o apêndice. O delgado normal é compressível (tem ar); a apendicite é não compressível e raramente tem ar.

📏

Diâmetro do apêndice

Normal: média 4,4–5,1 mm. >6 mm sugere apendicite no contexto clínico adequado. Trout et al.: 6–8 mm → acurácia 65%; >8 mm → 96%; só 2,5% das apendicites tinham <6 mm.

✓ Achados diretos

  • Sinal do alvo (target sign)
  • Apendicolito
  • Hipervascularidade ao Doppler

✓ Achados indiretos

  • Líquido livre ao redor
  • Abscesso
  • Gordura mesentérica ecogênica
  • Linfonodos mesentéricos aumentados
  • Espessamento peritoneal

Resultados afetados por IMC, espessura da parede corporal, escore de dor e experiência do operador.

Figura 9: Homem de 40 anos, febre e dor em FID com massa dura, PCR alta. Linear de alta fr...
Figura 9. Homem de 40 anos, febre e dor em FID com massa dura, PCR alta. Linear de alta freq.: apendicite espessada com edema da muscular própria, circundada por líquido, fecalito com sombra. TC com contraste confirmou; apendicectomia intervalada confirmou o diagnóstico.
§ 08

Apendagite epiploica

A apendagite epiploica aguda primária é relativamente incomum e desafiadora. Conforme a localização, mimetiza apendicite, diverticulite ou colecistite. O US e a TC permitem o diagnóstico pré-operatório preciso e a opção de manejo conservador.

As apêndices epiploicas normais não são vistas pelo US/TC, a menos que circundadas por líquido intraperitoneal.

📹

Achado US

Massa ovóide hiperecoica não compressível aderida à parede colônica, frequentemente circundada por halo hipoecoico, no ponto de máxima sensibilidade.

Alguns consideram o US a modalidade-chave para o apêndice epiploico torcido patológico.

Figura 10: Homem de 36 anos, dor em FID, afebril, sem leucocitose, PCR normal. Linear: mass...
Figura 10. Homem de 36 anos, dor em FID, afebril, sem leucocitose, PCR normal. Linear: massa ovóide hiperecoica não compressível aderida à parede colônica no ponto de máxima sensibilidade, circundada por líquido. TC com contraste confirmou apendagite epiploica.
§ 09

Diverticulite aguda

Evidência

  • Liljegren et al. (2006) — revisão sistemática US × TC × RNM: US como método de escolha.
  • Lameris et al. (2008) — metanálise: US sens 92% / espec 90% vs TC 94% / 99% (estatisticamente similares).
  • Estudo prospectivo (802 abdome agudo): US isolado sens 91% / espec 100%; TC 95% / 99%; US+TC → 100%.
  • Andberg et al. (metanálise): comparáveis; TC com maior especificidade e diagnósticos alternativos.
  • WSES 2016: aceita US como alternativa inicial na suspeita de diverticulite colônica esquerda; abordagem escalonada US→TC se inconclusivo — reduz radiação.

Achados US do intestino inflamado

  1. Parede espessada >4 mm
  2. Não compressibilidade
  3. Perda do peristaltismo

Com a compressão graduada, o diagnóstico baseia-se em espessamento mural hipoecoico da parede colônica (>4 mm) e sinal do alvo não compressível em corte transversal. A área hipoecoica = muscular própria (inflamação, edema, hipertrofia).

O segmento inflamado pode ter borda dobrada arredondada, com o padrão clássico em "dente de serra" (saw-tooth). As camadas colônicas costumam estar preservadas na diverticulite (diferente do tumor maligno). A gordura inflamada circundante é ecogênica.

⚠️

Complicações detectáveis

Abscesso, líquido intraperitoneal livre e ar intraperitoneal livre, correlacionáveis com a classificação (estágio) da diverticulite.

Figura 11: Homem de 32 anos, dor em flanco esquerdo há 5 dias, massa dolorosa, leucocitose ...
Figura 11. Homem de 32 anos, dor em flanco esquerdo há 5 dias, massa dolorosa, leucocitose e PCR alta. Convexo 3–5 MHz: massa arredondada. Linear: borda dobrada arredondada com padrão em 'dente de serra'; a área hipoecoica é a muscular própria.
§ 10

Colite pseudomembranosa

O US é recomendado como triagem na suspeita de colite pseudomembranosa, especialmente em quem não pode ir à TC. Os achados não são patognomônicos, mas sua presença + quadro clínico levantam suspeita.

Técnica

Transdutor linear 10–12 MHz com compressão abdominal suave. Líquido intraperitoneal, parede espessada e mínimo gás intraluminal facilitam o exame.

Casos graves

Parede colônica espessada com ecogenicidade heterogênea e estreitamento do lúmen. O conteúdo intraluminal ecogênico fica mais claro pela escassez de gás.

🎹

Sinal do acordeão

As pseudomembranas aparecem como linhas hiperecoicas cobrindo a mucosa, criando o "sinal do acordeão" (similar à TC). Parede >1 cm + sinal do acordeão no contexto adequado sugere colite por Clostridium difficile.

Fases iniciais: mucosa e muscular própria edemaciadas, hipoecoicas e espessadas, com submucosa ecogênica "sanduichada" entre elas; a submucosa pode ter numerosos vãos indicando penetração da infecção em estruturas mais profundas.

📊 Frequente

Líquido intraperitoneal livre em >70%.

⚠ Complicação

US detecta ar intraperitoneal livre quando há perfuração.

Figura 12: Paciente multitramumático com diarreia 2 semanas após antibióticos. Parede colôn...
Figura 12. Paciente multitramumático com diarreia 2 semanas após antibióticos. Parede colônica espessada com 3 camadas (mucosa, submucosa, muscular própria). Linhas hiperecoicas cobrindo a mucosa = pseudomembranas ou bolhas de ar, dando o sinal do acordeão. TC simultânea mostrou o mesmo sinal.
§ 11

TB intestinal vs Doença de Crohn

O diferencial entre tuberculose intestinal e Doença de Crohn pode ser extremamente difícil.

Distribuição típica

CondiçãoEnvolvimento predominante
TB abdominalÍleo terminal e ceco
Doença de CrohnIntestino delgado e cólon ascendente

Lim et al.: 45 casos de TB ileocecal — US mostrou espessamento do íleo terminal e ceco em 43 (96%). De 8 Crohn, 7 (88%) tinham espessamento difuso/apical do delgado e/ou cólon.

Três formas de TB intestinal

  1. Ulcerativa
  2. Hipertrófica
  3. Úlcro-hipertrófica

A TB ileocecal costuma ser hipertrófica, fácil de avaliar por US. Início: espessamento do íleo terminal e ceco. Avançada: a parede medial do ceco e a válvula ileocecal ganham espessamento irregular.

Achados US adicionais da TB abdominal: ascite generalizada ou localizada com septos finos móveis, omento e peritônio espessos, linfadenopatia.

Crohn: aguda × crônica

Aguda: submucosa espessada hiperecoica (linfoedema). Crônica: parede espessada e hipoecoica. Gordura adjacente ecogênica (inflamação transmural). Linfonodos ocasionalmente visíveis; fístula ou abscesso adjacente. Lúmen do intestino inflamado vazio/quase vazio, facilitando o exame. A CT é superior ao US na extensão/tipo da TB, incluindo linfadenopatia.

🔬

Diferencial complementar (metanálise: 417 Crohn vs 195 TB)

  • Linfonodos necrosados: sensibilidade só 23% para TB.
  • Sinal do pente (comb sign) e lesões de 'skip': sensibilidade >80% para Crohn.
  • Achados inespecíficos em ambos → confirmação microbiológica/histopatológica por endoscopia e biópsia.

Diagnóstico definitivo na TB abdominal em ~80%; nos suspeitos não conclusivos (~20%), diagnóstico terapêutico: maioria responde ao anti-TB em ~2 semanas.

⚠️

Perigo dos corticoides

Iniciar corticoides em TB abdominal ativa (assumindo Crohn) piora o quadro e pode causar óbito. Considerar a prevalência do seu meio antes de iniciar corticoides.

Figura 13: Mulher de 30 anos com massa fixa e dura em FID há 4 meses. Linear: delgado infla...
Figura 13. Mulher de 30 anos com massa fixa e dura em FID há 4 meses. Linear: delgado inflamado espessado emaranhado + linfonodos regionais. TC com contraste: espessamento + linfonodos + abscesso ileopsoas. Biópsias e teste do IFN não conclusivos; iniciado anti-TB como diagnóstico terapêutico.
Figura 14: Menino de 14 anos, dor em FID há 1 mês + diarreia. Linear: delgado espessado hip...
Figura 14. Menino de 14 anos, dor em FID há 1 mês + diarreia. Linear: delgado espessado hiperecoico não compressível, camadas não identificáveis — suspeita de Crohn. TC com contraste: íleo terminal espessado e constrito, sugestivo de Crohn.
§ 12

Tumores colônicos

Tumores malignos do cólon podem ser anulares (contringem o lúmen por espessamento mural) ou polipóides (protuberância no lúmen), fungificando dentro ou fora, grandes (até 10 cm) com contorno irregular ou lobulado.

Achados US

  • Tumores anulares: normalmente hipoecoicos com linhas hiperecoicas centrais (ar).
  • As camadas da parede são comumente destruídas na malignidade (diferente da diverticulite).
  • Nas inflamatórias, o espessamento costuma ser mais uniforme, mais fino e mais longo que na malignidade.

Ripollés et al. (50 diverticulite vs 41 câncer de cólon): a perda da estratificação da parede teve sensibilidade 92% e especificidade 94% para malignidade.

🚫

Limitação crítica

O US pode perder câncer precoce ou pequenoNÃO é rastreio. Útil para massas, lesões hepáticas, ascite e linfonodos. Linfonodos: baixa sensibilidade (~30%), alta especificidade (98%).

Figura 15: Homem de 57 anos, dor e diarreia há 10 dias, massa móvel, anêmico. Convexo 3–5 M...
Figura 15. Homem de 57 anos, dor e diarreia há 10 dias, massa móvel, anêmico. Convexo 3–5 MHz: massa irregular no cólon direito sem lúmen, sob o fígado, com 10 cm — suspeita de malignidade. TC confirmou. Hemicolectomia direita: adenocarcinoma colônico pouco diferenciado. L = fígado, K = rim.
§ 13

Treinamento POCUS

Os resultados do POCUS dependem de três fatores: operador, máquina de US e paciente. Clínicos de atenção aguda devem ser treinados e ter máquinas adequadas.

✓ Benefícios

  • Melhora habilidade diagnóstica, acurácia, confiança e decisão crítica.
  • Aplicação, interpretação e decisão diretas, sem atraso.
  • Repetível sem radiação; mais barato que TC/RNM.
  • "O estetoscópio do futuro".

✓ Credenciamento

Os resultados são operador-dependentes. Clínicos sem treinamento formal precisam de treino para atingir competência (diagnóstico, procedimento e/ou triagem), sempre com credenciamento — marca do uso bem-sucedido do POCUS em decisão crítica.

Os autores defendem o treinamento de POCUS para todos os estudantes de graduação em medicina — virará o estetoscópio do futuro.

§ 14

Simulador: diagnóstico diferencial

Explorador de diagnóstico diferencial do abdome agudo por POCUS. Combine os achados de beira de leito e veja a hipótese mais provável (fiel aos critérios do artigo).

Líquido livre

convexo 3,5–5 MHz
ausentediscreto>70%

Ar intraperitoneal livre

faixa peritoneal aumentada
ausentepresente

Espessamento mural

parede intestinal
<3 mm3–4 mm>4 mm

Alças dilatadas

jejuno>25 / íleo>15 mm
nãosim

Peristalse

Massa focal não compressível

Defina os achados
    § 15

    Quiz

    Teste seus conhecimentos. Cada questão vale 10 pontos.

    Q1No POCUS gastrointestinal, por que o ar é um problema na imagem?
    Q2Qual transdutor é ideal para detectar líquido livre intraperitoneal em paciente obeso?
    Q3Quantos mL de líquido livre um operador treinado pode detectar?
    Q4Qual achado diferencia ar intraperitoneal livre de gás intraluminal?
    Q5O diâmetro máximo normal do cólon ao US é:
    Q6Qual achado sugere obstrução MECÂNICA em vez de íleo paralítico?
    Q7A alça intestinal é considerada acinética quando o peristaltismo está ausente por:
    Q8Apêndice com diâmetro >8 mm tem que acurácia para apendicite?
    Q9O padrão em 'dente de serra' (saw-tooth) é característico de:
    Q10O sinal do 'acordeão' é característico de:
    § AF

    Referências

    Referências selecionadas do artigo (ver o original para as 77 referências completas).

    [1]Abu-Zidan FM, Cevik AA. Diagnostic point-of-care ultrasound (POCUS) for gastrointestinal pathology: state of the art from basics to advanced. World J Emerg Surg. 2018;13:47.
    [2]Lameris W, van Randen A, Bipat S, et al. Graded compression ultrasonography and CT in acute colonic diverticulitis. Eur Radiol. 2008;18:2498–511.
    [3]Trout AT, et al. Appendiceal diameter as a predictor of appendicitis in children. Eur Radiol. 2015;25:2231–8.
    [4]Sartelli M, et al. WSES Guidelines for the management of acute left-sided colonic diverticulitis. World J Emerg Surg. 2016;11:37.
    [5]Mostbeck G, et al. How to diagnose acute appendicitis: ultrasound first. Insights Imaging. 2016;7:255–63.
    [6]Hefny AF, Abu-Zidan FM. Sonographic diagnosis of intraperitoneal free air. J Emerg Trauma Shock. 2011;4:511–3.
    [7]Kedia S, et al. Accuracy of CT features in differentiating intestinal TB from Crohn's disease. Intest Res. 2017;1:149–59.
    [8]Puylaert JB. Acute appendicitis: US evaluation using graded compression. Radiology. 1986;158:355–60.