POCUS · Hemodinâmica

Ultrassom na UTI

Kidney360 · 2021 · American Society of Nephrology

Ultrassom na Avaliação Hemodinâmica do Paciente Agudo

Revisão das técnicas de POCUS para avaliar congestão venosa, hemodinâmica renal e guiar a fluidoterapia na UTI — com VExUS, Doppler hepático/portal/renal e novas tecnologias.

Safadi S, Murthi S, Kashani KB Mayo Clinic · Univ. of Maryland Agosto 2021
Resumo

O diagnóstico precoce de LRA e medidas preventivas podem reduzir a gravidade da lesão renal. As novas técnicas de ultrassonografia — Doppler de veias hepáticas, porta e intrarrenais, CEUS e elastografia — oferecem insights sobre congestão venosa, tolerância a fluidos e hemodinâmica renal. Este artigo revisa o estado atual dessas técnicas e sua relevância para o manejo hemodinâmico renal.

Kidney360 2: 1349–1359, 2021 · doi: 10.34067/KID.0002322021
SEÇÃO I|FISIOPATOLOGIA

1. Introdução e Fisiopatologia da Congestão Venosa

O manejo da hipotensão em pacientes críticos tradicionalmente focou na manutenção do débito cardíaco via fluidos intravenosos ou vasopressores. A administração rápida de cristaloides e pilar do bundle de 1h da Surviving Sepsis Campaign. No entanto, ha crescente preocupação de que a responsividade a volume (VR) — definida como aumento do volume sistólico >10% — possa levar a hiper-resuscitação e sobrecarga volêmica iatrogênica.

Do ponto de vista fisiológico, a administração de fluidos aumenta as pressões atriais direita e esquerda. A perfusão depende do gradiente entre arteria e veia. O aumento da pressão venosa reduz esse gradiente e, portanto, diminui o aporte sanguineo. Simultaneamente, causa aumento do fluido intersticial. O edema ocorre quando o mismatch filtração/reabsorção excede a drenagem linfática — particularmente crítico em orgaos encapsulados como os rins.

"A congestão renal e considerada uma das etiologias primárias da redução da TFG."

— Safadi et al., Kidney360 2021
Figura 1
Figura 1: Movimento de fluidos transmural e formação de edema por aumento da pressão venosa

Pacientes em choque são particularmente suscetíveis ao edema renal: pressão oncótica baixa (doenca + cristaloides), vasopressores que aumentam tonus arteriolar (mais filtração) e venular (menos reabsorção), e ventilação com pressão positiva que eleva a RAP sem aumentar a MCFP, reduzindo o retorno venoso.

A identificação do aumento da pressão atrial direita (RAP) e mais desafiadora que a da pressão atrial esquerda (edema pulmonar e visível em RX/PaO2/FiO2). Monitores de PVC e cateter de arteria pulmonar são invasivos e não melhoraram desfechos. E aqui que o POCUS se destaca: padrões Doppler de retorno venoso (veias hepáticas, porta, intrarrenais) são não invasivos e identificam congestão venosa direita precocemente.

AUC 0.56
CVP predizendo resposta a fluidos
AUC 0.84
SVV predizendo resposta a fluidos
HR 3.69
VExUS grau 3 predizendo AKI

SEÇÃO II|FUNDAMENTOS

2. Terminologia do Ultrassom

O exame ultrassonográfico e realizado em três fases consecutivas:

  • 1Modo B (Brightness): imagem bidimensional em escala de cinza do órgão de interesse.
  • 2Color Doppler: representação colorida da dinâmica do fluxo sanguineo.
  • 3Pulsed Wave Doppler: amostragem espectral em localização específica, baseado no efeito Doppler.

SEÇÃO III|VEIA CAVA INFERIOR

3. Veia Cava Inferior (VCI)

A VCI e um vaso complacente em forma de gota, cujo tamanho e forma flutuam com variações na PVC e no volume intravascular. O diâmetro da VCI e considerado ferramenta não invasiva para estimar a PVC, embora estudos indiquem pobre associação entre PVC e volume sanguineo.

Cálculo

Índice de Colapsabilidade da VCI (IVCCI)

Em respiração espontanea: VCI < 2 cm + IVCCI > 50% -> PVC < 10 cmH2O; VCI > 2 cm + IVCCI < 50% -> PVC > 10 cmH2O.

Limitações da VCI

  • • IVCCI não validado em ventilação mecânica com pressão positiva
  • • Mudancas no diâmetro podem refletir a ventilação, não a PVC
  • • Muitos intensivistas não utilizam mais a VCI como medida isolada de volume

A variação do volume sistólico (SVV) e preditor superior de responsividade a fluidos: AUC 0.84 vs 0.56 da VCI, com correlação pooled r = 0.718 (23 estudos, 568 pacientes).


SEÇÃO IV|DOPPLER HEPÁTICO

4. Doppler de Veias Hepáticas (HV)

A veia hepática média e identificada em janela subcostal ou lateral, com phased array. O Doppler pulsado e aplicado a 2–4 cm da junção com a VCI.

Figura 2
Figura 2: Posicionamento do transdutor para veias hepáticas e porta

A forma de onda da HV reflete as mudancas de pressão no atrio direito durante o ciclo cardíaco. Diferentemente do fluxo portal (continuo), o fluxo hepático e pulsatil e — teoricamente — não e confundido pela ventilação com pressão positiva.

Ondas da Veia Hepática

Componentes do Tracado Normal

  • aOnda "a": retrógrada, contração atrial no final da diástole
  • SOnda S: sistólica, anterograda, maior que D
  • DOnda D: diastólica, anterograda, enchimento do VD
  • vOnda v: raramente visível, transição sístole-diástole

Progressão da congestão: Normal (S > D) -> Congestão leve (S < D) -> Congestão severa (S retrógrada ou fusão a+S). A reversão S/D na HV teve OR 4.0 (IC 95% 1.4–11.2) para eventos renais adversos (Spiegel et al., 2020).


SEÇÃO V|DOPPLER PORTAL

5. Doppler de Veia Porta (PV)

Imagens da PV são obtidas em decubito dorsal, com transdutor phased array em janela subcostal ou coronal (EIC 9–11). As paredes da PV são ecogenicas (brancas), diferenciando-as das HVs. A velocidade do fluxo portal e baixa (10–30 cm/s) — o gate deve ser ajustado para 20–40 cm/s.

Progressão da congestão portal: Monofásico/bifásico normal -> Pulsatilidade leve -> Desaparecimento do fluxo sistólico -> Padrão "to-and-fro".

Formula

Índice de Pulsatilidade Portal (PVPI)

PVPI > 30% -> altamente sugestivo de congestão hepática (OR 2.2; IC 95% 1.3–3.6). PVPI > 50% -> congestão severa com fluxo to-and-fro.

A pulsatilidade portal também ocorre na hipertensão portal da cirrose — nestes pacientes pode não representar RAP elevada.


SEÇÃO VI|DOPPLER RENAL

6. Doppler de Veias Intrarrenais (iKV)

As imagens são obtidas em decubito dorsal ou lateral. O Color Doppler deve ser ajustado para ~16 cm/s para localizar os vasos interlobares. Como arterias e veias interlobares correm proximas, o PW Doppler pode registrar ambas simultaneamente.

Figura 4
Figura 4: Posicionamento do transdutor para obtenção de Doppler renal

Progressão da congestão renal: Continuo (normal) -> Bifásico com ondas S e D visíveis -> Monofásico (desaparecimento da onda S). Iida et al. demonstraram que morte e admissão não planejada por IC foram progressivamente maiores com padrão continuo -> bifásico -> monofásico.

O indice de impedância venosa renal = (Vmax - Vmin)/Vmax correlaciona-se com expansão e remoção de fluidos intravasculares em pacientes com IC.


SEÇÃO VII|ESCORE VExUS

7. Venous Excess Ultrasound Score (VExUS)

O VExUS integra a avaliação qualitativa do Doppler venoso (HV, PV, iKV) com o diâmetro da VCI (> 2 cm = anormal) em um sistema de graduação da congestão venosa. Desenvolvido por Beaubien-Souligny et al. (2020) em pacientes pos-cirurgia cardíaca.

Figura 5
Figura 5: Padrões de fluxo Doppler para avaliação do VExUS
Evidência

VExUS Grau 3 (Esquema C)

Definido por anormalidades severas em >= 2 leitos vasculares + VCI > 2 cm. Fortemente associado a LRA subsequente:

HR 3.69
Não ajustado
HR 2.82
Ajustado (IC 95% 1.21-6.55; P=0.02)

A dilatação isolada da VCI teve performance preditiva pobre para LRA, mas sua inclusão no VExUS aumentou discretamente a especificidade do sistema.

Casos Clínicos (Tabela 1)

Caso 1: Feminina 75a, pos-colecistectomia complicada, FA c/ RVR, PA limitrofe, balanco +6L. VCI 2.1 cm. HV: inversão da onda S. PV: pulsatilidade leve. iKV: normal. -> Tratada com diurese, permaneceu estável.

Caso 2: Feminina 54a, pos-gastrectomia, VM prolongada, hipotensão, LRA, balanco +12L. HV: S < D. PV: pulsatilidade significativa. iKV: S e D descontinuas. -> Sugerido titular vasopressores; se edema pulmonar, remover volume.

Figuras 7 & 8
Figuras 7 & 8: Casos 1 e 2: Doppler hepático, portal e intrarrenal

SEÇÃO VIII|ECOCARDIOGRAFIA

8. Avaliação da Função Ventricular

A avaliação ecocardiográfica focada e realizada em pacientes críticos para determinar a "função global do coração" e descartar condições agudas como tamponamento ou pneumotorax. Janelas principais:

  • APLAX: 3o-4o EIC esquerdo, indicador para ombro direito. Visualiza AE, VM, VE, VAo, VD.
  • BPSAX: rotação 90 graus horario. Níveis: valva aórtica, mitral, musculos papilares, apical.
  • CA4C/A5C: ponto de impulso máximo, decubito lateral esquerdo. Levantar transdutor -> 5 camaras.
Figura 6
Figura 6: Janelas ecocardiograficas: (A) PLAX, (B) PSAX, (C) A4C e A5C

SEÇÃO IX|TECNOLOGIAS EMERGENTES

9. CEUS e Elastografia (USE)

Ultrassom Contrastado (CEUS): Microbolhas com gas de alto peso molecular (hexafluoreto de enxofre) + surfactante como shell. Schneider et al. descreveram alterações na perfusão microvascular cortical renal em resposta a norepinefrina, angiotensina II e captopril. Avancos recentes permitem imagem de microvasos em super-resolução.

Elastografia (USE): A elasticidade renal se altera com mudancas hemodinamicas. Em modelo suino, a USE correlacionou-se com pressão intra-abdominal e pressão intracapsular renal significativamente mais que a pressão vesical. Potencial para identificar congestão renal e guiar fluidoterapia.


SEÇÃO X|DESAFIOS & CONCLUSÃO

10. Desafios, Beneficios e Conclusão

Limitações do POCUS: Habito corporal, gas intestinal, VM (dificultam janelas). Variabilidade interobservador pouco estudada. Acurácia depende da habilidade do operador. Taxas de sucesso: HV > 90%, portal > 80%, renal ~75% dos pacientes de UTI.

Beneficios do POCUS

  • • Não invasivo, beira-leito, sem necessidade de transporte
  • • Identifica congestão venosa antes da disfunção orgânica
  • • Guia fluidoterapia de forma fisiológica (tolerância a fluidos)
  • • Tele-ultrassom viável em ambientes com recursos limitados
  • • FEVE e função VD avaliáveis em > 90% dos pacientes

"Prevemos que os dispositivos de ultrassom continuarão a ficar menores, mais portateis e menos caros, fornecendo imagens de maior resolução. Este progresso tornara o ultrassom mais viável e inestimável em muitos cenarios clínicos."

— Safadi, Murthi & Kashani, Kidney360 2021

Referências Principais

  1. Spiegel R et al. Venous Doppler to predict adverse kidney events in ICU. Crit Care 24:615, 2020
  2. Beaubien-Souligny W et al. VExUS grading system. Ultrasound J 12:16, 2020
  3. Beaubien-Souligny W et al. PV/iKV flow and AKI after cardiac surgery. J Am Heart Assoc 7:e009961, 2018
  4. Marik PE et al. CVP and fluid responsiveness. Crit Care Med 41:1774, 2013
  5. Zhang Z et al. SVV in predicting fluid responsiveness. J Anesth 25:904, 2011
  6. Iida N et al. Intrarenal Doppler US in heart failure. JACC Heart Fail 4:674, 2016
  7. Schneider AG et al. CEUS renal cortical microcirculation. Crit Care 18:653, 2014
  8. Kashani KB et al. Kidney intracapsular pressure and USE. Crit Care 21:251, 2017

Painel Interativo — Índices Doppler

Ajuste os parametros e veja a interpretação clínica em tempo real.

VCI

Índice de Colapsabilidade (IVCCI)

VCI max (cm)
VCI min (cm)
IVCCI
%
Portal

Índice de Pulsatilidade Portal (PVPI)

Velocidade max (cm/s)
Velocidade min (cm/s)
PVPI
%

Referência Rápida — Graduação VExUS

GrauVCIHVPViKV
0< 2 cmNormal (S > D)< 30%Continuo
1> 2 cmS < D (leve)30-50%Bifásico
2> 2 cmS < D> 50%Bifásico
3> 2 cmS retrógrada> 50% (to-and-fro)Monofásico (so D)

Cadeia de Causalidade Hemodinâmica

Contraste entre a hemodinâmica renal normal e a cascata de congestão venosa que leva a LRA.

Hemodinâmica Renal Normal

Saudável
1. Gradiente de perfusão preservado

Pressão arteriolar > pressão venular -> fluxo continuo no capilar glomerular e peritubular.

2. Drenagem venosa sem obstrução

Fluxo na VCI, veias hepáticas e renais e continuo, com padrão trifásico normal (S > D).

3. Equilibrio filtração/reabsorção

Filtração capilar = reabsorção venular + drenagem linfática. Sem edema intersticial.

4. TFG preservada

Baixa pressão intersticial renal -> capsula renal não tensionada -> filtração glomerular normal.

5. Padrões Doppler normais

HV: S > D anterogrado · PV: monofásico < 30% · iKV: continuo · VExUS grau 0.

Cascata de Congestão Venosa -> LRA

Patológico
1. Aumento da RAP / PVC

Fluidoterapia excessiva + VM com pressão positiva -> RAP elevada sem aumento da MCFP -> redução do retorno venoso.

2. Congestão venosa retrógrada

Transmissão da pressão elevada para VCI -> veias hepáticas -> veia porta -> veias intrarrenais.

3. Mismatch filtração/reabsorção

Aumento da pressão hidrostática capilar + redução da pressão oncótica (cristaloides) -> edema intersticial.

4. Compressão capsular renal

Rim encapsulado: edema -> aumento da pressão intersticial > pressão arteriolar -> colapso capilar -> hipoperfusão.

5. LRA + VExUS grau 3

HV: S retrógrada · PV: > 50% · iKV: monofásico · HR 3.69 para LRA.

Implicação Clínica:

A presenca de padrões Doppler alterados precede a elevação da creatinina. O VExUS permite identificar pacientes em risco de LRA por congestão antes que a lesão se estabeleca — abrindo janela para intervenção precoce (diurese, vasopressores, restrição hídrica).

Checklist VExUS — Autoavaliação

Aplique os criterios do VExUS ao seu paciente e obtenha um score de risco de congestão.

Paciente:Etapa de 5

1. Diâmetro da VCI

Qual o diâmetro máximo da VCI na janela subcostal?

2. Padrão da Veia Hepática

Como está o Doppler da veia hepática?

3. Padrão da Veia Porta

Qual o indice de pulsatilidade portal (PVPI)?

4. Padrão das Veias Intrarrenais

Como está o Doppler interlobar renal?

5. Contexto Clínico

Qual o cenario clínico do paciente?

Score VExUS — Risco de Congestão