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Front. Cardiovasc. Med. · 2025

POCUS no STEMI

Revisão · Frontiers in Cardiovascular Medicine

Ultrassom à beira-leito na avaliação do STEMI

O POCUS — em especial o ultrassom pulmonar (LUS) e o LVOT-VTI — funciona como quinto pilar do exame à beira-leito no infarto, refinando a estratificação de risco e antecipando insuficiência cardíaca e choque cardiogênico.

Wainstein MV et al. 2 set 2025 doi:10.3389/fcvm.2025.1627396
RESUMO|ABSTRACT

Resumo estruturado

Contexto. O infarto com supra de ST (STEMI) segue como causa líder de morbimortalidade. Estratificação de risco precoce e detecção de complicações são críticas. O POCUS surgiu como ferramenta valiosa à beira-leito na avaliação aguda.

Objetivos. Explorar o papel do POCUS na avaliação precoce do STEMI, com foco em utilidade diagnóstica e prognóstica.

Métodos. Revisão abrangente da literatura atual sobre a aplicação do POCUS no STEMI.

Resultados. O LUS permite detecção rápida de congestão pulmonar pelas linhas B, com sensibilidade superior aos métodos tradicionais. O LVOT-VTI fornece avaliação quantitativa do volume sistólico e do débito cardíaco, ajudando a identificar estados de baixo fluxo. Integrar as duas modalidades aprimora a avaliação hemodinâmica e facilita a detecção precoce de pacientes de alto risco com IC aguda ou choque cardiogênico, além de complicações mecânicas.

Conclusões. Incorporar o POCUS — LUS e LVOT-VTI — à avaliação precoce do STEMI melhora acurácia diagnóstica e avaliação prognóstica. Pesquisa futura deve padronizar protocolos e avaliar o impacto do manejo guiado por POCUS nos desfechos.

STEMI POCUS LUS LVOT-VTI IC aguda choque cardiogênico
Figura 1 — Ilustração Central. A jornada do POCUS no STEMI: LUCK → LUS no choque → LUV → avaliação sistemática. Reproduzida do original (CC BY). Clique para ampliar.

SEÇÃO 1|INTRODUÇÃO

1. Introdução

O STEMI associa-se a morbimortalidade significativa. Apesar dos avanços farmacológicos e de reperfusão — sobretudo a intervenção coronária percutânea (ICP) —, a estratificação de risco precoce e o manejo intra-hospitalar adequado permanecem decisivos para otimizar desfechos. A identificação oportuna de características de alto risco e de complicações como insuficiência cardíaca aguda (ICA) ou choque cardiogênico (CC) orienta o manejo, da monitorização intensiva ao suporte mecânico urgente.

A avaliação convencional do infarto apoia-se em exame clínico, eletrocardiograma e biomarcadores. Esses recursos têm limitações, em especial para detectar deterioração hemodinâmica precoce ou guiar terapia de fluidos e fármacos. A clássica classificação de Killip, por exemplo, é útil, mas pode ser imprecisa: a distinção entre Killip II e III depende do nível torácico em que se auscultam estertores — difícil em ambientes ruidosos como o pronto-socorro. Com STEMI cada vez mais complexos (idade, diabetes, doença renal crônica, IC prévia), cresce a necessidade de ferramentas dinâmicas à beira-leito que ofereçam, em tempo real, leituras de função cardíaca, volemia e congestão pulmonar.

O POCUS surgiu como avaliação rápida e não invasiva de parâmetros cardíacos e pulmonares, sugerido como o quinto pilar do exame físico à beira-leito. Sua portabilidade, facilidade de uso e acurácia favoreceram a integração em medicina de emergência, terapia intensiva e cardiologia. No STEMI, atua como triagem precoce e modalidade prognóstica, facilitando a identificação de complicações agudas, diagnósticos alternativos e a otimização hemodinâmica.


SEÇÃO 2|PANORAMA

2. O POCUS na prática contemporânea

O POCUS aprimorou a avaliação à beira-leito em várias especialidades, sobretudo em cuidados agudos e críticos. Antes visto como adjunto do exame físico, hoje é reconhecido como ferramenta diagnóstica de primeira linha, com leituras reprodutíveis e em tempo real da fisiologia cardiopulmonar, da volemia e da perfusão de órgãos.

As limitações do exame físico são bem reconhecidas. A ausculta e a inspeção continuam fundamentais, mas sofrem com grande variabilidade interobservador e baixa sensibilidade para detectar patologias sutis ou em evolução. A título de exemplo, a sensibilidade dos estertores para detectar pressão atrial direita ≥10 mmHg e pressão atrial esquerda ≥20 mmHg é de apenas 28% e 25%, respectivamente; a da turgência jugular para pressões atriais direitas elevadas é de só 39%. Em contraste, o POCUS permite visualizar diretamente os processos fisiopatológicos — linhas B indicando edema pulmonar, veia cava inferior (VCI) pletórica sugerindo pressões atriais direitas elevadas, ou uma complicação mecânica no foco cardíaco.

Crescente corpo de evidências mostra que incorporar o POCUS ao exame físico aumenta muito a acurácia diagnóstica — em dispneia indiferenciada, choque ou dor torácica. Na dispneia aguda, por exemplo, a sensibilidade do LUS para edema pulmonar agudo chega a 97%.

No pronto-socorro, protocolos como FAST, RUSH e BLUE estão bem validados, encurtam o tempo até o diagnóstico e frequentemente mudam a conduta de imediato. Na UTI, o POCUS guia ressuscitação volêmica, avalia resposta à terapia e identifica causas reversíveis de instabilidade. As aplicações cardiovasculares se expandem: o FoCUS identifica derrame pericárdico, avalia função sistólica do VE e disfunção valvar com alta especificidade; LUS e VExUS identificam congestão pulmonar e sistêmica na IC aguda, úteis no diagnóstico e no manejo da descongestão, com aplicação em síndromes coronarianas agudas e no implante transcateter de valva aórtica.

"O POCUS não pretende substituir o ecocardiograma completo nem imagens avançadas. Serve como extensão dinâmica, à beira-leito, da avaliação clínica — permitindo reavaliação em tempo real e monitorização seriada."

— Wainstein et al., 2025

SEÇÃO 3|LUS

3. Ultrassom pulmonar (LUS)

Por muitos anos após a introdução do ultrassom, aceitava-se que ele não servia para avaliar o parênquima pulmonar, pela má transmissão das ondas através do ar. Só no fim dos anos 1990 o LUS se popularizou, com aplicações pioneiras em pacientes críticos, incluindo a detecção de edema pulmonar agudo. Desde então, o corpo de evidências cresceu continuamente, sobretudo em cardiologia.

O LUS visualiza, em tempo real, a água extravascular pulmonar pela detecção de linhas B — artefatos verticais, hiperecoicos, que surgem da linha pleural e se movem com a respiração. Refletem aumento de líquido nos septos interlobulares e no interstício alveolar, sendo marcador sensível de congestão pulmonar, definida como pelo menos dois sítios positivos (≥3 linhas B cada) bilateralmente. O LUS é superior à ausculta e à radiografia para detectar edema pulmonar, com acurácias acima de 90% em vários cenários agudos. Embora uma única zona positiva não defina congestão pulmonar de forma estrita, sua presença pode carregar implicações prognósticas. Para esta revisão, "congestão pulmonar" é a presença de uma ou mais zonas com três ou mais linhas B.

Nos últimos quinze anos, a cardiologia reconheceu cada vez mais o potencial do LUS na IC aguda e crônica. Exemplo notável: um ensaio randomizado mostrou que a terapia diurética guiada por LUS para congestão reduziu descompensações de IC e melhorou a capacidade de caminhada em pacientes ambulatoriais, frente ao seguimento padrão. Embora o LUS tenha sido investigado em síndromes coronarianas agudas já em 2010, só em 2020 foi estudado especificamente no STEMI.

No STEMI, o LUS é realizado em poucos minutos à beira-leito, tipicamente com um protocolo de 8 zonas. Identificar linhas B não exige treinamento avançado: a concordância interobservador entre clínicos treinados é alta, e sugere-se que uma manhã de prática — ou um módulo padronizado de duas horas pela internet — basta para excelente reprodutibilidade. Tanto transdutores curvilíneos quanto setoriais (phased array) podem ser recomendados, com boa correlação entre usuários com ao menos um mês de treino em POCUS.

Figura 2 — (A) Pulmão normal; (B) pulmão congesto com linhas B em cauda de cometa. Reproduzida do original (CC BY). Clique para ampliar.

SEÇÃO 4|LVOT-VTI

4. Integral velocidade-tempo da via de saída do VE (LVOT-VTI)

O LVOT-VTI é uma medida por Doppler que estima o volume sistólico e, por extensão, o débito cardíaco. Obtém-se por Doppler pulsado no nível da via de saída do VE, na janela apical de cinco câmaras. O VTI representa a distância que o sangue percorre em um ciclo cardíaco; multiplicado pela área de secção da via de saída e pela frequência cardíaca, fornece o débito. Em fibrilação atrial, devem-se promediar cinco a sete ciclos.

Na prática, o VTI isolado (sem indexar à área) costuma bastar como substituto do fluxo à beira-leito, com valores normais entre 18 e 22 cm. Valores ≤16 cm indicam fluxo anterógrado prejudicado, fornecem informação sobre a função cardíaca mesmo com FEVE preservada, e são forte preditor de mortalidade em pacientes críticos — podendo prever deterioração hemodinâmica mesmo sem sinais clássicos de choque.

Enquanto o LUS informa a congestão pulmonar, ele não quantifica diretamente débito ou perfusão sistêmica. No STEMI complicado por IC ou choque, congestão e hipoperfusão podem coexistir, e distingui-las é crítico. Acrescentar uma medida de fluxo anterógrado, como o LVOT-VTI, aos protocolos de LUS amplia a utilidade diagnóstica e prognóstica.

Modelagem

Do VTI ao débito cardíaco

Calcule isso com sliders na aba "LUV & DC".

Armadilhas (pitfalls): má alinhamento do feixe Doppler, interpretação errada das ondas e promediação inadequada. Regurgitação aórtica moderada-grave e obstrução subaórtica (fixa ou dinâmica) podem superestimar o VTI. A obstrução dinâmica da via de saída (LVOTO) ocorre em hipovolemia grave ou hipertrofia septal assimétrica, sob baixa pré-carga e estímulo inotrópico aumentado. Dispositivos de suporte circulatório mecânico (p. ex., Impella) interferem na dinâmica de fluxo nativa. Quando a qualidade técnica é subótima ou há patologia interferente, recomenda-se confiar em tendências seriadas ou parâmetros adjuntos.

Figura 3 — Medida do LVOT-VTI e armadilhas comuns. Reproduzida do original (CC BY). Clique para ampliar.

SEÇÃO 5|PROGNÓSTICO

5. Importância da avaliação prognóstica no STEMI

O manejo do STEMI evoluiu muito com reperfusão e farmacologia, mas a doença segue como grande causa de morbimortalidade. Embora a reperfusão precoce seja a terapia central, os desfechos dependem do perfil de risco basal e do surgimento de complicações como ICA, arritmias ou choque. Avaliação prognóstica precisa e oportuna é crítica — para guiar decisões imediatas, alocar recursos, definir nível de cuidado, apoiar alta precoce e antecipar desfechos de longo prazo.

Escores tradicionais como TIMI e GRACE são amplamente validados e estimam mortalidade de curto e longo prazo, integrando variáveis clínicas, eletrocardiográficas e laboratoriais. Mas oferecem um retrato estático do risco e podem não refletir mudanças dinâmicas na trajetória. Na prática real, um paciente inicialmente estável pode desenvolver sinais sutis de sobrecarga ou baixo débito em horas; o exame físico pode atrasar-se em relação à deterioração fisiopatológica. Por isso, ferramentas dinâmicas à beira-leito ganham reconhecimento como adjuntos valiosos.


SEÇÃO 6|IC AGUDA · LUCK

6. POCUS e insuficiência cardíaca aguda no STEMI

O impacto da ICA no prognóstico do STEMI é bem estabelecido. No estudo seminal do fim dos anos 1960, Killip e Kimball mostraram que a mortalidade intra-hospitalar aumentava com a gravidade da IC — da ausência de estertores ao choque cardiogênico (classificação de Killip). Décadas depois, o grau de ICA permanece um dos marcadores prognósticos mais importantes; evidências recentes mostram que a classificação de Killip prediz eventos até cinco anos após a admissão.

Motivado por isso e ciente das limitações do exame físico, o grupo dos autores propôs em 2020 uma reclassificação de Killip baseada em LUS, a classificação LUCK (Lung Ultrasound Combined with Killip). Ela demonstrou área sob a curva significativamente maior para prever mortalidade intra-hospitalar que o Killip original, com índice de reclassificação líquida de 18%. Achado-chave: o valor preditivo negativo de 98,1% — reflexo da maior sensibilidade do LUS, identificando com precisão quem não desenvolve congestão (e tem melhor prognóstico). Notavelmente, 32% dos pacientes inicialmente classificados como Killip I (sem estertores à ausculta) tinham ao menos um campo pulmonar positivo ao ultrassom.

Um grupo espanhol desenvolveu, de coorte multicêntrica, um escore diferente — o Killip I pLUS —, reclassificando como Killip I os pacientes Killip I com ≥1 campo positivo e os Killip II sem congestão. Esse escore superou tanto o Killip original quanto o LUCK na predição de mortalidade intra-hospitalar e desfechos cardiovasculares combinados em um ano — confirmado depois na coorte onde o LUCK nasceu. Quanto a desfechos de médio/longo prazo, a congestão subclínica (≥1 zona positiva; 14% da amostra) associou-se a risco 5 vezes maior de morte ou reinternação por IC/SCA em 30 dias e 3 vezes maior no desfecho combinado em um ano.

Atenção: uma única zona positiva carrega valor prognóstico, mas não deve ser formalmente interpretada como congestão pulmonar (que exige ≥2 zonas bilaterais). E mesmo a congestão pode não vir de disfunção sistólica/diastólica do VE — permeabilidade vascular aumentada por inflamação sistêmica ou doença pulmonar concomitante também produz linhas B.

— Ressalva dos autores

SEÇÃO 7|CHOQUE · LUV

7. POCUS e choque cardiogênico no STEMI

O choque cardiogênico (CC) é a forma mais grave de ICA e grande causa de mortalidade intra-hospitalar no STEMI. Caracteriza-se por perfusão tecidual inadequada por débito comprometido, com hipotensão, pressões de enchimento elevadas e hipoperfusão de órgãos-alvo. Apesar dos avanços em revascularização e suporte mecânico, a mortalidade no CC ainda excede 30%–40%. A classificação SCAI (estágios A–E) propôs abordagem dinâmica e multidimensional para estratificar o choque.

O LUS é adjunto útil ao SCAI, sobretudo nos estágios A e B, detectando congestão subclínica não aparente ao exame. Em estudo do grupo, estágios SCAI mais altos associaram-se de forma independente a maior número de zonas LUS positivas, com odds ratio ajustado de 2,2 (IC 95%: 1,9–2,5; P<0,001) — 2,2 vezes mais chance de detectar zonas adicionais a cada incremento de estágio. Em outro estudo, a LVEDP (pressão diastólica final do VE), diferentemente das linhas B, não se associou de forma independente à mortalidade (OR 1,00; IC 0,97–1,03) nem ao CC (OR 1,01; IC 0,97–1,05) — sugerindo que a congestão por LUS é marcador mais forte e levantando a hipótese de que as linhas B se associem a outros mecanismos, como inflamação.

Recentemente o grupo propôs incorporar o LVOT-VTI ao LUS — análogo à classificação de Diamond-Forrester, porém não invasivo e rápido (a de Diamond-Forrester usa POAP de 18 mmHg e índice cardíaco de 2,2 L/min/m² por Swan-Ganz). A combinação forma a classificação LUV (Lung Ultrasound and Velocity-Time Integral), com quatro fenótipos por congestão (≥3 zonas positivas) e hipoperfusão (VTI ≤14 cm):

  • LUV ASem congestão e VTI normal — mortalidade intra-hospitalar 0%.
  • LUV BCongestão com VTI normal — mortalidade 3%.
  • LUV CSem congestão e VTI baixo — mortalidade 12%.
  • LUV DCongestão e VTI baixo — mortalidade 45%.

A classificação LUV mostrou alta acurácia preditiva para mortalidade intra-hospitalar (AUC 0,915). Entre os não-Killip IV à admissão, a incidência de CC em 24h cresceu progressivamente: 0% (A), 5% (B), 12,5% (C) e 30,8% (D), com AUC 0,90 para prever choque. A LUV superou o LUCK e outros protocolos baseados em LUS na predição de mortalidade e de CC em 24h — destacando o valor da avaliação hemodinâmica e identificando pacientes em risco de CC que seriam classificados como baixo risco por métodos tradicionais. Explore esses fenótipos na aba "LUV & DC".

Após anos de sobrevida estagnada no STEMI com CC — em que só a ICP primária melhorava desfechos —, no fim da década de 2010 protocolos padronizados com limiares claros de escalonamento elevaram a sobrevida em 28% frente a controles históricos. Entre os limiares para escalonar a suporte circulatório mecânico, o débito de potência cardíaca (CPO) e o índice de pulsatilidade da artéria pulmonar (PAPI) exigem cateterismo direito invasivo; o POCUS pode ser alternativa não invasiva quando a decisão rápida importa.

Heurística:

A ausência de linhas B em paciente hipotenso com STEMI deve levantar suspeita de outra etiologia de choque — infarto de VD, tamponamento pericárdico ou embolia pulmonar maciça. O LUS contribui também para o fenótipo do choque, cada vez mais central na terapia individualizada.


SEÇÃO 8|FASTEMI

8. Avaliação POCUS sistemática

Em coorte prospectiva de 262 pacientes com SCA, o eco portátil sistemático teve concordância boa-a-excelente com o ecocardiograma transtorácico completo (TTE) em parâmetros-chave (κ de Cohen 0,60–1,00), VPN global de 95%, concluído em média de 7,7 ± 1,6 min — cerca de 5h antes do TTE padrão —, identificando anormalidades importantes em 50% dos casos e alterando o manejo em 42%, com 85% dos exames suficientes para dispensar imagem adicional. Estudo semelhante (N=82) com eco portátil (V-scan) correlacionou-se bem com o TTE para função global do VE (0,75) e motilidade parietal geral (0,69), mas mais fraco para motilidade regional e estruturas — apoiando seu papel como adjunto rápido, não substituto.

O protocolo FASTEMI (Focused Assessment in ST-Elevation Myocardial Infarction) é factível e pode mudar diagnóstico e/ou manejo em 12% dos pacientes admitidos com STEMI no PS. Ele envolve: LUS de 8 zonas para linhas B; rastreio de complicações mecânicas; identificação de regurgitações valvares graves esquerdas; avaliação de disfunção de VE e/ou VD; medida do LVOT-VTI; e estimativa da pressão venosa central pela VCI.

Embora alguns proponham pressões de enchimento (relação E/e′) para avaliar pacientes críticos, isso é demorado e pouco confiável no STEMI; como visto, a LVEDP correlacionou-se fracamente com o LUS e não se associou de forma independente a mortalidade ou CC. A congestão na ICA do STEMI é processo complexo, além de simples sobrecarga de volume ou pressões elevadas.

Há cenários em que a avaliação hemodinâmica rápida do POCUS é particularmente útil: mesmo em SCAI A ou Killip I/II, ele identifica congestão em evolução ou baixo débito antes da deterioração franca; na apresentação tardia (>24h), detecta complicações mecânicas — ruptura de músculo papilar, comunicação interventricular, tamponamento — possibilitando intervenções salvadoras; e em apresentações complexas (sepse, pneumonia, disfunção renal), apoia estratégias individualizadas de fluidos e vasopressores.

Figura 4 — Parâmetros do protocolo de avaliação sistemática (FASTEMI). Reproduzida do original (CC BY). Clique para ampliar.

SEÇÃO 9|FUTURO

9. Perspectivas futuras

Integrado a LUS e LVOT-VTI, o POCUS representa uma mudança de paradigma na avaliação hemodinâmica à beira-leito no STEMI. Várias direções emergentes podem ampliar sua utilidade, acessibilidade e impacto.

Integração a fluxos padronizados do STEMI

Apesar do valor diagnóstico e prognóstico, o POCUS ainda não é rotina nos algoritmos formais. Futuras diretrizes podem se beneficiar de protocolos focados nos fluxos existentes — sobretudo em sintomas atípicos, sinais de IC ou suspeita de instabilidade. Protocolos estruturados como o FASTEMI, combinando LUS e LVOT-VTI, permitiriam identificar precocemente fenótipos de alto risco (choque em evolução, edema subclínico, complicações mecânicas).

Inteligência artificial e interpretação automatizada

A IA tende a reduzir barreiras, simplificando aquisição e interpretação. Plataformas de POCUS assistidas por IA já detectam linhas B automaticamente, avaliam função do VE e calculam o VTI — tornando avaliações de qualidade acessíveis a mais clínicos (inclusive não cardiologistas) e padronizando relatórios. A IA pode reduzir a dependência do operador e a carga de treinamento, mantendo suporte à decisão baseado em evidência.

Educação, treinamento e credenciamento

Com a expansão do método, educação formal e credenciamento ganham importância. Programas interdisciplinares, aprendizado por simulação e certificação online ajudam a padronizar competência entre emergência, cardiologia e terapia intensiva. Estabelecer padrões mínimos — à semelhança dos protocolos de suporte avançado de vida — melhora a qualidade da implementação e mantém a segurança do paciente.

Pesquisa e ensaios clínicos

Vários estudos demonstraram o valor prognóstico de parâmetros sonográficos (Tabela 1). Contudo, ainda não está claro se aplicar o POCUS para guiar decisões terapêuticas (ajuste de suporte hemodinâmico, escolha de inotrópicos, estratégias de reperfusão) traduz-se em melhores desfechos. São necessários ensaios randomizados com protocolos padronizados de intervenção guiada por POCUS. Prioridades: validar a LUV em populações diversas, avaliar impacto da terapia precoce guiada por POCUS na mortalidade e reinternação por IC, e determinar custo-efetividade. O ensaio LUS-HF (ambulatorial) mostrou que a diurese guiada por LUS reduz reinternação e melhora capacidade funcional; se isso se estende ao STEMI agudo permanece em aberto.


SEÇÃO 10|LIMITES · CONCLUSÃO

10. Limitações atuais e conclusão

Limitações. A qualidade e a interpretação da imagem dependem do operador e variam com o nível de treino. Avaliações como o LVOT-VTI exigem janelas acústicas adequadas e habilidade técnica, nem sempre disponíveis na emergência. Valvopatia aórtica moderada-grave, aceleração de fluxo subvalvar (hipertrofia septal basal) ou suporte circulatório mecânico afetam a medida do volume sistólico. Em fibrilação atrial ou taquiarritmias, a variação batimento-a-batimento reduz a confiabilidade. Desalinhamento do feixe ou posicionamento incorreto do volume-amostra subestima o fluxo.

"Crucialmente, qualquer atraso no tempo porta-balão deve ser evitado. O POCUS deve complementar a avaliação clínica — não substituí-la — e não atrasar as estratégias de reperfusão."

— Wainstein et al., 2025

Conclusão. O POCUS firmou-se como ferramenta valiosa à beira-leito na avaliação precoce do STEMI. Sua integração mais ampla aos fluxos clínicos, apoiada por protocolos baseados em evidência, pode redefinir o padrão de cuidado no infarto. Além da avaliação inicial, contribui para a estratificação prognóstica, auxilia diagnósticos alternativos e facilita a detecção precoce de complicações mecânicas. Com a promessa de reconhecimento mais cedo, intervenções individualizadas e melhores desfechos, o POCUS está bem posicionado para se tornar componente essencial da medicina de emergência cardiovascular moderna.


SEÇÃO 11|TABELA 1

11. Estudos de POCUS no STEMI

EstudoN Desfecho primárioMomento AUCComparativos (AUC)
Araujo (LUCK)215Mortalidade intra-hosp.Pré-ICP0,89Killip 0,86
Carreras-Mora (Killip pLUS)373Mortalidade intra-hosp.Em 24h0,90Killip 0,85 · LUCK 0,83
Parras200Insuficiência cardíacaPré-ICP0,91
Araiza-Garaygordobil226Composto (morte, IC, reinfarto, CC) 30dEm 24h0,73
Machado (LUV)308Mortalidade intra-hosp.Em 24h0,915Killip 0,846
Machado (LUV)a145Mortalidade intra-hosp.Pré-ICP0,940LUCK 0,707 · pLUS 0,691 · Araiza 0,704

a Excluídos pacientes em Killip 4. AUC, área sob a curva; ICP, intervenção coronária percutânea primária.


SEÇÃO 12|FONTES

12. Referência principal e seleção (ABNT-BR)

Artigo-fonte:
WAINSTEIN, M. V.; MACHADO, G. P.; TELO, G. H.; SILVEIRA, A. D. da; NASI, L. A.; ARAUJO, G. N. de. Point-of-care ultrasound in the evaluation of STEMI patients. Frontiers in Cardiovascular Medicine, v. 12, art. 1627396, 2025. DOI: 10.3389/fcvm.2025.1627396.

  1. KILLIP, T.; KIMBALL, J. T. Treatment of myocardial infarction in a coronary care unit. Am J Cardiol, v. 20, n. 4, p. 457-464, 1967.
  2. NARULA, J.; CHANDRASHEKHAR, Y.; BRAUNWALD, E. Time to add a fifth pillar to bedside physical examination. JAMA Cardiol, v. 3, p. 346-350, 2018.
  3. LICHTENSTEIN, D. A.; MEZIÈRE, G. A. Relevance of lung ultrasound in the diagnosis of acute respiratory failure: the BLUE protocol. Chest, v. 134, n. 1, p. 117-125, 2008.
  4. ARAUJO, G. N. et al. Admission bedside lung ultrasound reclassifies mortality prediction in STEMI. Circ Cardiovasc Imaging, v. 13, n. 6, art. e010269, 2020.
  5. CARRERAS-MORA, J. et al. Killip scale reclassification according to lung ultrasound: Killip pLUS. Eur Heart J Acute Cardiovasc Care, v. 13, n. 7, p. 566-569, 2024.
  6. MACHADO, G. P. et al. A combination of LVOT-VTI and lung ultrasound to predict mortality in STEMI. Intern Emerg Med, v. 19, n. 8, p. 2167-2176, 2024.
  7. MACHADO, G. P. et al. Comparing ultrasound-based prognostic classifications in STEMI: is LUV better than LUCK? Intern Emerg Med, v. 20, n. 5, p. 1645-1647, 2025.
  8. SCOLARI, F. L. et al. Lung ultrasound evaluation of SCAI shock stages predicts mortality in STEMI. JACC Cardiovasc Imaging, v. 16, n. 2, p. 260-262, 2022.
  9. AMON, A. et al. Impact of a cardiothoracic ultrasound protocol in STEMI: the FASTEMI protocol. Eur Heart J, v. 45, supl. 1, ehae666-1723, 2024.
  10. RIVAS-LASARTE, M. et al. Lung ultrasound-guided treatment in ambulatory HF (LUS-HF). Eur J Heart Fail, v. 21, p. 1605-1613, 2019.
  11. NAIDU, S. S. et al. SCAI SHOCK stage classification expert consensus update. J Am Coll Cardiol, v. 79, n. 9, p. 933-946, 2022.

Lista parcial das 55 referências do artigo; numeração própria deste explicador. Correção do artigo: DOI 10.3389/fcvm.2025.1698664.

Classificação LUV & débito cardíaco

Dois eixos do POCUS no STEMI: a congestão (zonas LUS positivas) e a perfusão (LVOT-VTI). Ajuste e veja o fenótipo LUV, a mortalidade associada e o débito estimado em tempo real.

Cenário A

Fenótipo LUV

Zonas LUS positivas (0–8)

congestão = ≥3 zonas positivas

LVOT-VTI (cm)

hipoperfusão = VTI ≤14 cm · normal 18–22 cm

Classe

Mortalidade
CC em 24h

Cenário B

Débito cardíaco pelo VTI

LVOT-VTI
Diâmetro da via de saída
Frequência cardíaca
Área VOT
Volume sistólico
Débito cardíaco

faixa adulto em repouso ≈ 4–8 L/min

Desfechos por classe LUV

Mortalidade intra-hospitalar e incidência de choque cardiogênico em 24h (Machado et al.). A barra destacada é a classe atual do seu cenário.

⚠️ Confiança moderada (XAI-UC N3–N4): taxas de coortes unicêntricas dos autores (LUV: N=308 e N=145). O cálculo de débito é didático e simplifica (área = π·(d/2)²; assume medida correta do diâmetro e VTI). Não substitui ecocardiograma formal nem deve atrasar a reperfusão (tempo porta-balão é prioridade).

Killip clínico × LUS/POCUS

Por que o ultrassom reclassifica o risco: o exame físico é estático e pouco sensível; o POCUS é dinâmico e enxerga a congestão subclínica.

Só exame físico (Killip)

Estático
1. AUSCULTA DE ESTERTORES

Sensibilidade de só 28% (PAD ≥10) e 25% (PAE ≥20); turgência jugular, 39%.

2. KILLIP II vs III AMBÍGUO

Diferença depende do nível torácico dos estertores — difícil no PS ruidoso.

3. CONGESTÃO OCULTA

32% dos "Killip I" tinham ≥1 campo positivo ao ultrassom — risco subestimado.

4. RETRATO ÚNICO

Não acompanha a deterioração dinâmica nas primeiras horas.

POCUS (LUS + VTI)

Dinâmico
1. LINHAS B

Sensibilidade de 97% para edema pulmonar agudo; visualização direta da água pulmonar.

2. LUCK / Killip pLUS

Reclassifica Killip; VPN 98,1% para mortalidade; AUC maior que o Killip original.

3. LVOT-VTI

Acrescenta o eixo de perfusão; identifica baixo fluxo mesmo com FEVE preservada.

4. LUV (AUC 0,915)

Fenotipa em A–D; antecipa choque em 24h e supera LUCK e outros protocolos.

⚠️ Ressalva (XAI-UC)

Linhas B não são específicas de pressão de enchimento elevada — inflamação e doença pulmonar concomitante também as produzem. E o POCUS complementa, não substitui, a avaliação clínica; jamais deve atrasar a reperfusão.

Checklist FASTEMI

Os 6 componentes do protocolo de avaliação sistemática. Responda como conduziria cada item à beira-leito do paciente com STEMI.

Paciente:Item de 6

1. Ultrassom pulmonar — como avalia as linhas B?

2. Complicações mecânicas — paciente com apresentação tardia (>24h). O que rastrear?

3. Valvopatia — qual o alvo do rastreio focado?

4. Função ventricular — o que avaliar?

5. LVOT-VTI — qual valor sugere baixo fluxo?

6. Pressão venosa central — como estimar no FASTEMI?

Aderência ao FASTEMI