Protocolos de Extubação em Pacientes Neurocríticos: Revisão
A extubação de pacientes neurocríticos apresenta uma taxa de falha de 15-20%, sendo essencial a avaliação multimodal que integra critérios neurológicos e respiratórios. O uso do VISAGE Score e do FOUR Score é recomendado para prever o sucesso da extubação, enquanto a traqueostomia precoce não melhora os desfechos em AVC. A avaliação de deglutição pós-extubação é crucial, pois até 80% dos pacientes
Visão geral
Sumário Executivo
A extubação de pacientes neurocríticos apresenta taxa de falha de 15-20%, aproximadamente o dobro da população geral de UTI, devido à frequente dissociação entre capacidade ventilatória e proteção de via aérea. Esta revisão sintetiza a evidência mais recente (2020-2025) para fundamentar protocolos institucionais de extubação em pacientes com AVC isquêmico, AVC hemorrágico e TCE.
Principais achados:
1. Contexto e fundamentação da revisão
A ventilação mecânica em pacientes com lesão cerebral aguda apresenta desafios únicos que não são contemplados pelos protocolos tradicionais de desmame. O estudo ENIO (Extubation strategies in Neuro-Intensive care unit patients and associations with Outcomes), publicado em 2022, representa o maior esforço multicêntrico para caracterizar esta população: 1.512 pacientes de 73 UTIs em 18 países demonstraram taxa de falha de extubação de 19,4% em 5 dias, com 21,1% dos pacientes recebendo traqueostomia direta.
A chamada dissociação neuro-respiratória — situação em que o paciente passa no teste de ventilação espontânea mas falha por comprometimento neurológico da proteção de via aérea — explica por que parâmetros tradicionais como RSBI (Rapid Shallow Breathing Index) não predizem adequadamente o desfecho em neurocríticos. O estudo VENTILA (Tejerina et al., 2022, n=12.618) demonstrou que pacientes com lesão cerebral apresentam OR 1,41 (IC95% 1,20-1,66) para reintubação comparados à população geral.
2. Estado atual das guidelines internacionais
Ausência de protocolos específicos de alta qualidade metodológica
Nenhuma das principais sociedades médicas publicou guideline específico dedicado exclusivamente à extubação de neurocríticos com classificação GRADE forte. As recomendações atuais baseiam-se em adaptações de guidelines gerais e estudos observacionais.
| Sociedade | Documento Relevante | Ano | Especificidade para Neurocríticos |
|---|---|---|---|
| ESICM | Consensus on VM in Acute Brain Injury | 2020 | Parcial — 36 recomendações, maioria evidência baixa |
| NCS | ENLS — Airway Module | 2017 | Menciona extubação sem protocolo estruturado |
| AMIB/SBPT | Diretrizes Brasileiras de VM | 2013 | Geral, com menções a neurocríticos |
| ATS/ACCP | Liberation from Mechanical Ventilation | 2017 | Geral — aplicável com adaptações |
| DAS | Extubation Guidelines | 2012 | Via aérea difícil, não específico para neurológicos |
O consenso ESICM de 2020 (Robba et al.) produziu 36 declarações sobre ventilação mecânica em lesão cerebral aguda, mas a maioria recebeu classificação GRADE baixo a muito baixo, refletindo a escassez de ensaios clínicos randomizados nesta população.
3. Critérios de prontidão versus critérios de sucesso
A distinção entre critérios de prontidão (readiness criteria) e critérios de sucesso é fundamental para estruturar protocolos de extubação. Critérios de prontidão são pré-requisitos avaliados antes da tentativa de extubação; critérios de sucesso definem o desfecho favorável após o procedimento.
3.1 Critérios de prontidão — pré-requisitos gerais
| Domínio | Parâmetro | Valor Alvo |
|---|---|---|
| Respiratório | PaO₂/FiO₂ | ≥150-200 mmHg |
| FiO₂ | ≤0,4-0,5 | |
| PEEP | ≤5-8 cmH₂O | |
| Volume minuto | <15 L/min | |
| Hemodinâmico | FC | <140 bpm |
| PAS | 90-160 mmHg | |
| Vasopressores | Ausentes ou dose baixa | |
| Neurológico | PIC (se monitorada) | ≤20 mmHg |
| PPC | ≥60 mmHg | |
| Estabilidade | Sem deterioração ≥24h | |
| Metabólico | Temperatura | <38,5°C |
| Balanço hídrico | Zero ou negativo |
3.2 Critérios de prontidão — específicos para neurocríticos
A avaliação de proteção de via aérea é o diferencial crítico em neurocríticos. Os seguintes parâmetros devem ser sistematicamente avaliados:
| Parâmetro | Método de Avaliação | Critério Favorável |
|---|---|---|
| Tosse | Peak Expiratory Flow (PEF) ou Semi-quantitative Cough Strength Scale | PEF ≥60 L/min ou SCSS ≥3 |
| Deglutição | Observação de tentativas espontâneas ou sob comando | Presente |
| Perseguição visual | Rastreamento de objeto | Presente |
| Frequência de aspiração | Contagem de aspirações necessárias | ≤2/hora |
| Reflexo de vômito | Estimulação faríngea | Presente (usar com cautela — 37% de adultos saudáveis não têm) |
3.3 Definição de sucesso de extubação
| Definição Temporal | Uso |
|---|---|
| 24 horas | Falha precoce — alguns estudos pós-operatórios |
| 48 horas | Definição mais comum na literatura de neurocríticos |
| 72 horas | Utilizada em grandes estudos (Johns Hopkins, ENIO) |
| 5 dias | Análise secundária do estudo ENIO |
Recomendação para POP: Definir falha de extubação como necessidade de reintubação em 48-72 horas para neurocríticos, dado que causas tardias (pneumonia, rebaixamento) são frequentes nesta população.
4. O debate sobre GCS < 8: evidências recentes
4.1 Estudos que apoiam extubação com GCS baixo
A premissa tradicional de que GCS ≥8 é obrigatório para extubação tem sido questionada por evidências crescentes:
| Estudo | n | Achado Principal |
|---|---|---|
| Coplin et al. (2000) | Histórico | Coma (GCS ≤8) ocorreu em 31% dos pacientes sem atraso vs 78% com atraso; atraso aumentou pneumonia |
| McCredie et al. (2017) | 192 | GCS não foi associado a sucesso de extubação na análise multivariada; tosse foi o preditor (OR 3,60) |
| Namen et al. | Série | Até 80% dos pacientes com GCS <8 podem ser extubados com sucesso |
| Taran et al. (2024) | 1.152 | GCS-EM (olho + motor) não associado independentemente a falha (OR 1,07; IC95% 0,87-1,31) |
4.2 Estudos que indicam cautela
| Estudo | Achado |
|---|---|
| Wang et al. (2014) — Meta-análise | GCS 7-9T: OR 4,96 (IC95% 1,61-15,26) para falha |
| Asehnoune et al. (2017) — VISAGE | GCS >10: OR 2,40 (IC95% 1,38-4,18) para sucesso |
4.3 Síntese e recomendação
O GCS total isolado não deve ser usado como critério absoluto para contraindicar extubação. A evidência atual suporta que:
Nível de evidência: BAIXO-MODERADO — baseado em estudos observacionais; não há ECRs
5. Scores preditivos validados para neurocríticos
5.1 VISAGE Score
Desenvolvido por Asehnoune et al. (2017), validado em 437 pacientes com lesão cerebral grave:
| Componente | Descrição | Pontuação |
|---|---|---|
| Visual pursuit | Perseguição visual presente | 1 ponto |
| Ingestão | Tentativas de deglutição | 1 ponto |
| Score | GCS >10 | 1 ponto |
| Age | Idade <40 anos | 1 ponto |
Interpretação:
| Score VISAGE | Taxa de Sucesso |
|---|---|
| 0 | 23% |
| 1 | 56% |
| 2 | 70% |
| ≥3 | 90% |
Performance: AUC 0,75 (IC95% 0,69-0,81); Sensibilidade 62%; Especificidade 79%; VPP 90%; VPN 39%
Limitação crítica: VPN baixo (39%) — score <3 não prediz bem a falha.
5.2 Score ENIO (2022)
Desenvolvido a partir do maior estudo multicêntrico em neurocríticos (73 UTIs, 18 países):
7 preditores simplificados:
Performance: AUC 0,79 (coorte treinamento); 0,71 (validação)
5.3 FOUR Score versus GCS
O FOUR Score (Full Outline of UnResponsiveness) oferece vantagens importantes sobre o GCS em pacientes intubados:
| Aspecto | GCS | FOUR Score |
|---|---|---|
| Avaliação verbal | Impossível em intubados | Substituída por padrão respiratório |
| Reflexos de tronco | Não avalia | Avalia pupila, córnea, tosse |
| Herniação uncal | Detecção indireta | Detecta (pupila dilatada fixa) |
| Locked-in syndrome | Não detecta | Pode detectar (rastreamento ocular) |
| Range | 3-15 | 0-16 |
| AUC para falha de extubação | 0,83 | 0,87 (p=0,014) |
O FOUR Score (Full Outline of UnResponsiveness) é uma escala de 17 pontos, variando de 0 a 16, desenvolvida para fornecer uma avaliação neurológica mais detalhada que a Escala de Glasgow, especialmente para pacientes em estado crítico ou intubados. Ela avalia quatro domínios principais: resposta ocular, resposta motora, reflexos de tronco encefálico e padrão respiratório.
Abaixo, a tabela detalhada com cada pontuação:
Detalhamento da Escala FOUR Score
| Pontos | Resposta Ocular (E) | Resposta Motora (M) | Reflexos de Tronco (B) | Padrão Respiratório (R) |
|---|---|---|---|---|
| 4 | Pálpebras abertas; rastreamento visual ou piscar sob comando. | Sinais manuais (polegar para cima, punho fechado ou sinal de paz). | Reflexos pupilares e corneanos presentes. | Não intubado; padrão respiratório regular. |
| 3 | Pálpebras abertas, mas sem rastreamento visual. | Localiza o estímulo doloroso. | Uma pupila dilatada e fixa. | Não intubado; padrão de Cheyne-Stokes. |
| 2 | Pálpebras fechadas; abre os olhos com voz alta. | Resposta de flexão à dor (decorticação). | Reflexos pupilares ou corneanos ausentes. | Não intubado; respiração irregular. |
| 1 | Pálpebras fechadas; abre os olhos com estímulo doloroso. | Resposta de extensão à dor (descerebração). | Reflexos pupilares e corneanos ausentes. | Intubado; respira acima da frequência do ventilador. |
| 0 | Pálpebras permanecem fechadas mesmo com dor. | Sem resposta à dor ou status mioclônico generalizado. | Reflexos pupilar, corneano e de tosse ausentes. | Intubado; respira na frequência do aparelho ou apneia. |
Por que o FOUR Score é preferido no Neurointensivismo?
Para facilitar a compreensão da equipe, imagine que a Escala de Glasgow funciona como um raio-X, que mostra a estrutura geral do estado de consciência. Já o FOUR Score funciona como uma ressonância magnética de alta resolução, revelando detalhes vitais das funções do tronco cerebral e da autonomia respiratória que garantem a segurança do paciente.
6. Avaliação de critérios clínicos específicos
6.1 Cuff Leak Test
Performance (Meta-análise 2020, 28 estudos, n=4.493):
| Método | Valor de Corte |
|---|---|
| Volume | >110-130 mL diferença entre Vt inspiratório/expiratório |
| Percentual | >10-15% do volume corrente |
| Qualitativo | Vazamento audível sem estetoscópio |
Controvérsias em neurocríticos:
6.2 Reflexo de tosse — avaliação objetiva
| Método | Valor de Corte | Performance |
|---|---|---|
| Peak Expiratory Flow (PEF) | ≥60 L/min via TOT | Sensibilidade 78,8%; Especificidade 78,1% |
| Semi-quantitative Cough Scale (SCSS) | ≥3 (tosse claramente audível) | RR 4,0 para falha se graus 0-2 |
| White Card Test | Cartão úmido após tosse | RR 3,0 se negativo |
Evidência crítica (Smina et al.): PEF ≤60 L/min associado a 5x mais risco de falha e 19x mais risco de mortalidade hospitalar.
6.3 Frequência de aspiração
| Parâmetro | Valor Favorável | Valor de Risco |
|---|---|---|
| Frequência | ≤2 aspirações/hora | >1 aspiração/2h |
| Volume | Escasso a moderado | Abundante |
| Consistência | Fina a moderada | Espessa |
Efeito sinérgico: Tosse fraca + secreções abundantes = RR 31,9 (IC95% 4,5-225,3) — risco extremamente elevado.
7. Complicações e desfechos
7.1 Taxa de reintubação comparativa
| População | Taxa de Falha | Fonte |
|---|---|---|
| UTI Geral | 10-15% | Literatura padrão |
| Neurocríticos | 15-20% | Múltiplos estudos |
| ENIO (neurocríticos) | 19,4% em 5 dias | Cinotti 2022 |
| AVC Hemorrágico | OR 1,49 vs sem lesão | Tejerina 2022 |
| TCE | 25-40% | Rabinstein 2023 |
7.2 Causas de falha em neurocríticos
| Causa | Frequência |
|---|---|
| Desconforto respiratório + alteração do sensório | 59% |
| Patência de via aérea comprometida | 37,7% |
| Causa neurológica | 39,8% |
| Atelectasia/hipoventilação | 39% |
7.3 Impacto da falha de extubação
A reintubação está independentemente associada a:
7.4 VAP em neurocríticos
| Patologia | Prevalência de VAP | Taxa/1000 dias-VM |
|---|---|---|
| TCE | 49,5% | 16,6 |
| HIC | 32,5% | 11,0 |
| HSA | 20,7% | 7,0 |
| AVC Isquêmico | 3% | 7,1 |
| UTI Geral | 10-20% | 7-15 |
A elevada incidência em TCE relaciona-se à disfunção imune cerebral pós-traumática.
8. Timing de traqueostomia: early versus late
8.1 Definições operacionais
| Classificação | Timing |
|---|---|
| Early (precoce) | ≤5-7 dias |
| Late (tardia) | >10-14 dias |
8.2 SETPOINT2 Trial (2022) — evidência pivotal para AVC
Ensaio multicêntrico (26 centros, EUA/Alemanha, n=382) comparando traqueostomia precoce (≤5 dias) vs padrão (≥10 dias) em AVC grave:
Resultado primário (mRS 0-4 vs 5-6 em 6 meses): SEM DIFERENÇA SIGNIFICATIVA entre os grupos.
Conclusão: Traqueostomia precoce NÃO é recomendada rotineiramente em AVC.
8.3 Meta-análise em TCE (McCredie 2017)
| Desfecho | Early vs Late | Significância |
|---|---|---|
| Mortalidade longo prazo | RR 0,57 (0,36-0,90) | p=0,02* |
| Duração de VM | -2,72 dias | p=0,0002 |
| Tempo de UTI | -2,55 dias | p=0,01 |
| Mortalidade curto prazo | RR 1,25 (NS) | p=0,47 |
8.4 Recomendação por patologia
| Patologia | Recomendação | Nível de Evidência |
|---|---|---|
| AVC | Não realizar traqueostomia precoce rotineiramente | ALTO (SETPOINT2) |
| TCE | Considerar precoce em GCS persistentemente baixo | MODERADO |
| Lesões infratentoriais | Maior necessidade de traqueostomia | BAIXO |
9. Ferramentas de avaliação pós-extubação
9.1 GUSS-ICU (Gugging Swallowing Screen for ICU)
Escala de triagem de disfagia validada para UTI:
Performance:
Quando aplicar: Idealmente 24h após extubação, por fonoaudiólogo ou enfermeiro treinado.
9.2 FEES (Flexible Endoscopic Evaluation of Swallowing)
Padrão-ouro para avaliação de disfagia pós-extubação:
| Penetration-Aspiration Scale (PAS) | Interpretação |
|---|---|
| 1 | Normal |
| 2-3 | Penetração leve |
| 4-5 | Penetração moderada |
| 6-8 | Aspiração (8 = silente) |
Viabilidade no SUS: Limitada pela disponibilidade de equipamento e especialistas, mas pode ser priorizada para casos de alto risco.
9.3 Ultrassom diafragmático
| Parâmetro | Valor de Corte | AUC |
|---|---|---|
| Thickening Fraction (DTF) | ≥20-30% | 0,83-0,87 |
| Excursão diafragmática (DE) | ≥10-17 mm | 0,81 |
Utilidade: Detecta VIDD (Ventilator-Induced Diaphragmatic Dysfunction), que ocorre após apenas 12-18 horas de VM controlada.
10. Classificação de evidência (GRADE)
| Recomendação | Força | Nível de Evidência |
|---|---|---|
| Utilizar VISAGE Score ≥3 como preditor de sucesso | Condicional | MODERADO |
| Avaliar GCS motor (não apenas total) | Condicional | MODERADO |
| Avaliar tosse e volume de secreção sistematicamente | Forte | ALTO |
| GCS <8 isolado não contraindica extubação | Condicional | BAIXO |
| Traqueostomia precoce NÃO melhora desfechos em AVC | Forte | ALTO |
| VNI profilática pós-extubação em neurocríticos | Sem recomendação | MUITO BAIXO |
| FOUR Score superior a GCS em intubados | Condicional | MODERADO |
| Avaliação de deglutição pós-extubação | Forte | MODERADO |
Lacunas de evidência identificadas
11. Matriz de decisão para paciente limítrofe
Definição de paciente limítrofe
Paciente que atende critérios respiratórios para extubação, mas apresenta incerteza quanto à proteção de via aérea ou status neurológico.
Matriz de decisão
| Cenário | VISAGE | GCS-M | Tosse | Aspiração | Conduta Recomendada |
|---|---|---|---|---|---|
| Favorável | ≥3 | 6 | PEF ≥60 | ≤2/h | Extubar com monitorização padrão |
| Limítrofe A | 2 | 5-6 | Moderada | 2-3/h | Extubar; monitorização intensiva 48h; GUSS-ICU em 24h |
| Limítrofe B | 1-2 | 5 | Fraca | >3/h | Postergar 24-48h; reavaliação diária; discutir traqueostomia se sem melhora |
| Desfavorável | 0-1 | ≤4 | Ausente | >4/h | Não extubar; avaliar indicação de traqueostomia |
Fatores modificadores
| Fator | Modificação da Conduta |
|---|---|
| TCE (vs AVC) | Maior tolerância para GCS baixo |
| Lesão infratentorial | Maior cautela — maior risco de falha |
| Idade >65 anos | Maior cautela — recuperação mais lenta |
| VM >10 dias | Maior risco de falha — considerar USG diafragmático |
| Secreções espessas | Contraindicação relativa |
FLUXOGRAMA DE EXTUBAÇÃO EM NEUROCRÍTICOS
graph TD
A[Paciente neurocrítico em VM ≥24h] --> B[FASE 1: TRIAGEM DIÁRIA]
B --> C{Checklist de<br/>prontidão geral<br/>atendido?}
C -->|Todos atendidos| D[Prosseguir para Fase 2]
C -->|Não atendidos| E[Reavaliar em 24h]
D --> F[FASE 2: TESTE DE RESPIRAÇÃO ESPONTÂNEA]
F --> G{Método: T-piece ou<br/>PSV ≤7 cmH₂O<br/>por 30-120 min}
G -->|PASSA no TRE| H[Prosseguir para Fase 3]
G -->|FALHA no TRE| I[Retornar VM<br/>Retry em 24h]
H --> J[FASE 3: AVALIAÇÃO NEUROLÓGICA E VIA AÉREA]
J --> K[A Calcular FOUR Score ou GCS]
K -->|FOUR ≥12 ou GCS >10T| L[B Calcular VISAGE Score]
L --> M[C Avaliar proteção de via aérea]
M --> N{D Paciente de<br/>alto risco<br/>para estridor?}
N -->|Sim - Realizar CLT| O{CLT positivo?}
N -->|Não| P{VISAGE ≥3 +<br/>Proteção VA<br/>adequada?}
O -->|Não| Q[Metilprednisolona<br/>20mg IV q4h x4 doses]
O -->|Sim| P
Q --> P
P -->|SIM| R[Prosseguir para Fase 4]
P -->|NÃO| S[Ver Matriz de Decisão]
R --> T[FASE 4: EXTUBAÇÃO]
T --> U[Preparação e Execução]
U --> V[Suporte pós-extubação]
V --> W[Prosseguir para Fase 5]
W --> X[FASE 5: MONITORIZAÇÃO PÓS-EXTUBAÇÃO]
X --> Y[Monitorização horária<br/>primeiras 6h]
Y --> Z[Em 24h pós-extubação:<br/>GUSS-ICU]
Z -->|GUSS <15 ou disfagia| AA[Solicitar FEES]
Y --> AB{Critérios para<br/>reintubação?}
AB -->|SIM| AC[Reintubação]
AB -->|NÃO| AD[Sucesso da Extubação]
style A fill:#e1f5ff
style B fill:#fff4e6
style F fill:#fff4e6
style J fill:#fff4e6
style T fill:#fff4e6
style X fill:#fff4e6
style AD fill:#d4edda
style AC fill:#f8d7daDetalhamento dos Critérios
Checklist de prontidão geral (Fase 1):
Critérios de FALHA no TRE (Fase 2):
VISAGE Score (Fase 3):
Proteção de via aérea (Fase 3):
Alto risco para estridor (Fase 3):
Preparação para extubação (Fase 4):
Suporte pós-extubação (Fase 4):
Monitorização horária (Fase 5):
Critérios para reintubação (Fase 5):
13. Tabela comparativa de protocolos institucionais
| Elemento | ENIO/ESICM | VISAGE | Johns Hopkins* | Recomendação POP |
|---|---|---|---|---|
| GCS mínimo | Não definido (GCS-M=6 é preditor) | >10 (1 ponto) | Não absoluto | GCS-M ≥5-6 |
| Tosse obrigatória | Sim — vigorosa | Não avaliada | Sim | Sim — PEF ≥60 ou SCSS ≥3 |
| Deglutição | Tentativas presentes | Sim (1 ponto) | Avaliada | Tentativas presentes |
| Aspiração | ≤2/hora | Não avaliada | Avaliada | ≤2/hora |
| Perseguição visual | Avaliada no score | Sim (1 ponto) | Avaliada | Presente |
| Cuff Leak | Controverso | Não incluído | Seletivo | Alto risco apenas |
| TRE | 30-120 min | Pré-requisito | 30-120 min | 30-120 min |
| VNI pós | Sem benefício demonstrado | — | Seletiva | Individualizada |
| Score utilizado | ENIO simplificado | VISAGE | ACS | VISAGE + critérios |
14. Considerações para contexto brasileiro e SUS
14.1 Ferramentas de alta viabilidade (recomendadas)
| Ferramenta | Custo | Treinamento | Aplicador |
|---|---|---|---|
| FOUR Score | Zero | Simples (1-2h) | Qualquer profissional |
| VISAGE Score | Zero | Simples | Médico/fisioterapeuta |
| GUSS-ICU | Zero | Moderado (4-8h) | Fono/enfermagem |
| Avaliação de secreções | Zero | Baixo | Enfermagem |
| Peak Expiratory Flow | Baixo (fluxômetro) | Moderado | Fisioterapeuta |
14.2 Ferramentas de viabilidade moderada
| Ferramenta | Barreira | Solução |
|---|---|---|
| USG diafragmático | Equipamento, treinamento | Point-of-care já presente em muitas UTIs |
| FEES | Equipamento, especialista | Parceria com ORL/fono; priorizar alto risco |
14.3 Adaptações para equipe multiprofissional
| Profissional | Papel no Protocolo |
|---|---|
| Médico intensivista | Decisão final, avaliação neurológica, FOUR/VISAGE |
| Fisioterapeuta | TRE, avaliação de tosse (PEF), USG diafragmático |
| Enfermeiro | Monitorização, frequência de aspiração, GUSS-ICU |
| Fonoaudiólogo | GUSS completa, FEES, terapia de deglutição |
| Técnico de enfermagem | Registro de aspirações, sinais vitais |
14.4 Checklist para implementação institucional
15. Conclusão e perspectivas
A extubação de pacientes neurocríticos permanece um desafio clínico com nível de evidência majoritariamente baixo a moderado. Os principais avanços recentes incluem a validação dos scores VISAGE e ENIO, que incorporam parâmetros neurológicos específicos além dos critérios respiratórios tradicionais.
Mensagens-chave para a prática:
A implementação de protocolos estruturados, mesmo baseados em evidência de qualidade moderada, demonstra reduzir tempo de ventilação mecânica e complicações associadas. O estudo BIPER (stepped-wedge cluster-RCT em andamento) poderá fornecer evidências de alto nível para validar a abordagem baseada em scores clínicos nos próximos anos.
Tabela-Resumo: Níveis de Evidência e Recomendações Finais
| Domínio | Recomendação | GRADE |
|---|---|---|
| Triagem de prontidão | Avaliação diária de critérios gerais e neurológicos | Forte/Moderado |
| TRE | 30-120 min com T-piece ou PSV baixa | Forte/Alto |
| Avaliação neurológica | FOUR Score preferível ao GCS em intubados | Condicional/Moderado |
| Score preditivo | VISAGE ≥3 como critério favorável | Condicional/Moderado |
| Tosse | PEF ≥60 L/min ou SCSS ≥3 obrigatórios | Forte/Moderado |
| Aspiração | ≤2/hora como critério favorável | Condicional/Baixo |
| Cuff Leak | Apenas em alto risco; corticoides se negativo | Condicional/Baixo |
| Traqueostomia em AVC | Não realizar precoce rotineiramente | Forte/Alto |
| Traqueostomia em TCE | Considerar precoce em GCS persistentemente baixo | Condicional/Moderado |
| Avaliação pós-extubação | GUSS-ICU em 24h; FEES se disfagia detectada | Forte/Moderado |
| Monitorização | Intensiva nas primeiras 72h | Forte/Consenso |
Referências
Conteúdo migrado do Central de Estudos (Blog Dr. Jackson Fuck, Notion).