Protocolos de Extubação em Pacientes Neurocríticos
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Protocolos de Extubação em Pacientes Neurocríticos: Revisão

A extubação de pacientes neurocríticos apresenta uma taxa de falha de 15-20%, sendo essencial a avaliação multimodal que integra critérios neurológicos e respiratórios. O uso do VISAGE Score e do FOUR Score é recomendado para prever o sucesso da extubação, enquanto a traqueostomia precoce não melhora os desfechos em AVC. A avaliação de deglutição pós-extubação é crucial, pois até 80% dos pacientes

Protocolo & POP 📄 Resumo de estudo 🏥 UTI / Emergência
§ 01

Visão geral

§ 02

Sumário Executivo

A extubação de pacientes neurocríticos apresenta taxa de falha de 15-20%, aproximadamente o dobro da população geral de UTI, devido à frequente dissociação entre capacidade ventilatória e proteção de via aérea. Esta revisão sintetiza a evidência mais recente (2020-2025) para fundamentar protocolos institucionais de extubação em pacientes com AVC isquêmico, AVC hemorrágico e TCE.

Principais achados:

  • Não existem guidelines específicos de alta qualidade para extubação em neurocríticos — as recomendações derivam de estudos observacionais e consensos de especialistas
  • GCS < 8 não é contraindicação absoluta: até 80% dos pacientes com GCS baixo podem ser extubados com sucesso quando outros critérios estão presentes
  • VISAGE Score ≥3 prediz 90% de sucesso de extubação (perseguição visual + deglutição + idade <40 + GCS >10)
  • Traqueostomia precoce não melhora desfechos funcionais em AVC (estudo SETPOINT2, 2022), mas pode beneficiar TCE selecionados
  • A avaliação deve ser multimodal, integrando critérios neurológicos, respiratórios e de proteção de via aérea
  • § 03

    1. Contexto e fundamentação da revisão

    A ventilação mecânica em pacientes com lesão cerebral aguda apresenta desafios únicos que não são contemplados pelos protocolos tradicionais de desmame. O estudo ENIO (Extubation strategies in Neuro-Intensive care unit patients and associations with Outcomes), publicado em 2022, representa o maior esforço multicêntrico para caracterizar esta população: 1.512 pacientes de 73 UTIs em 18 países demonstraram taxa de falha de extubação de 19,4% em 5 dias, com 21,1% dos pacientes recebendo traqueostomia direta.

    A chamada dissociação neuro-respiratória — situação em que o paciente passa no teste de ventilação espontânea mas falha por comprometimento neurológico da proteção de via aérea — explica por que parâmetros tradicionais como RSBI (Rapid Shallow Breathing Index) não predizem adequadamente o desfecho em neurocríticos. O estudo VENTILA (Tejerina et al., 2022, n=12.618) demonstrou que pacientes com lesão cerebral apresentam OR 1,41 (IC95% 1,20-1,66) para reintubação comparados à população geral.

    § 04

    2. Estado atual das guidelines internacionais

    Ausência de protocolos específicos de alta qualidade metodológica

    Nenhuma das principais sociedades médicas publicou guideline específico dedicado exclusivamente à extubação de neurocríticos com classificação GRADE forte. As recomendações atuais baseiam-se em adaptações de guidelines gerais e estudos observacionais.

    SociedadeDocumento RelevanteAnoEspecificidade para Neurocríticos
    ESICMConsensus on VM in Acute Brain Injury2020Parcial — 36 recomendações, maioria evidência baixa
    NCSENLS — Airway Module2017Menciona extubação sem protocolo estruturado
    AMIB/SBPTDiretrizes Brasileiras de VM2013Geral, com menções a neurocríticos
    ATS/ACCPLiberation from Mechanical Ventilation2017Geral — aplicável com adaptações
    DASExtubation Guidelines2012Via aérea difícil, não específico para neurológicos

    O consenso ESICM de 2020 (Robba et al.) produziu 36 declarações sobre ventilação mecânica em lesão cerebral aguda, mas a maioria recebeu classificação GRADE baixo a muito baixo, refletindo a escassez de ensaios clínicos randomizados nesta população.

    § 05

    3. Critérios de prontidão versus critérios de sucesso

    A distinção entre critérios de prontidão (readiness criteria) e critérios de sucesso é fundamental para estruturar protocolos de extubação. Critérios de prontidão são pré-requisitos avaliados antes da tentativa de extubação; critérios de sucesso definem o desfecho favorável após o procedimento.

    3.1 Critérios de prontidão — pré-requisitos gerais

    DomínioParâmetroValor Alvo
    RespiratórioPaO₂/FiO₂≥150-200 mmHg
    FiO₂≤0,4-0,5
    PEEP≤5-8 cmH₂O
    Volume minuto<15 L/min
    HemodinâmicoFC<140 bpm
    PAS90-160 mmHg
    VasopressoresAusentes ou dose baixa
    NeurológicoPIC (se monitorada)≤20 mmHg
    PPC≥60 mmHg
    EstabilidadeSem deterioração ≥24h
    MetabólicoTemperatura<38,5°C
    Balanço hídricoZero ou negativo

    3.2 Critérios de prontidão — específicos para neurocríticos

    A avaliação de proteção de via aérea é o diferencial crítico em neurocríticos. Os seguintes parâmetros devem ser sistematicamente avaliados:

    ParâmetroMétodo de AvaliaçãoCritério Favorável
    TossePeak Expiratory Flow (PEF) ou Semi-quantitative Cough Strength ScalePEF ≥60 L/min ou SCSS ≥3
    DeglutiçãoObservação de tentativas espontâneas ou sob comandoPresente
    Perseguição visualRastreamento de objetoPresente
    Frequência de aspiraçãoContagem de aspirações necessárias≤2/hora
    Reflexo de vômitoEstimulação faríngeaPresente (usar com cautela — 37% de adultos saudáveis não têm)

    3.3 Definição de sucesso de extubação

    Definição TemporalUso
    24 horasFalha precoce — alguns estudos pós-operatórios
    48 horasDefinição mais comum na literatura de neurocríticos
    72 horasUtilizada em grandes estudos (Johns Hopkins, ENIO)
    5 diasAnálise secundária do estudo ENIO

    Recomendação para POP: Definir falha de extubação como necessidade de reintubação em 48-72 horas para neurocríticos, dado que causas tardias (pneumonia, rebaixamento) são frequentes nesta população.

    § 06

    4. O debate sobre GCS < 8: evidências recentes

    4.1 Estudos que apoiam extubação com GCS baixo

    A premissa tradicional de que GCS ≥8 é obrigatório para extubação tem sido questionada por evidências crescentes:

    EstudonAchado Principal
    Coplin et al. (2000)HistóricoComa (GCS ≤8) ocorreu em 31% dos pacientes sem atraso vs 78% com atraso; atraso aumentou pneumonia
    McCredie et al. (2017)192GCS não foi associado a sucesso de extubação na análise multivariada; tosse foi o preditor (OR 3,60)
    Namen et al.SérieAté 80% dos pacientes com GCS <8 podem ser extubados com sucesso
    Taran et al. (2024)1.152GCS-EM (olho + motor) não associado independentemente a falha (OR 1,07; IC95% 0,87-1,31)

    4.2 Estudos que indicam cautela

    EstudoAchado
    Wang et al. (2014) — Meta-análiseGCS 7-9T: OR 4,96 (IC95% 1,61-15,26) para falha
    Asehnoune et al. (2017) — VISAGEGCS >10: OR 2,40 (IC95% 1,38-4,18) para sucesso

    4.3 Síntese e recomendação

    O GCS total isolado não deve ser usado como critério absoluto para contraindicar extubação. A evidência atual suporta que:

  • Componente motor (GCS-M = 6) é mais preditivo que o escore total — obedecer comandos é crítico
  • Perseguição visual substitui parcialmente a avaliação verbal em intubados
  • Avaliação multifatorial (tosse, deglutição, secreções) supera o valor preditivo do GCS isolado
  • Comando específico "feche os olhos" foi mais preditivo de sucesso do que outros comandos em estudos
  • Nível de evidência: BAIXO-MODERADO — baseado em estudos observacionais; não há ECRs

    § 07

    5. Scores preditivos validados para neurocríticos

    5.1 VISAGE Score

    Desenvolvido por Asehnoune et al. (2017), validado em 437 pacientes com lesão cerebral grave:

    ComponenteDescriçãoPontuação
    Visual pursuitPerseguição visual presente1 ponto
    IngestãoTentativas de deglutição1 ponto
    ScoreGCS >101 ponto
    AgeIdade <40 anos1 ponto

    Interpretação:

    Score VISAGETaxa de Sucesso
    023%
    156%
    270%
    ≥390%

    Performance: AUC 0,75 (IC95% 0,69-0,81); Sensibilidade 62%; Especificidade 79%; VPP 90%; VPN 39%

    Limitação crítica: VPN baixo (39%) — score <3 não prediz bem a falha.

    5.2 Score ENIO (2022)

    Desenvolvido a partir do maior estudo multicêntrico em neurocríticos (73 UTIs, 18 países):

    7 preditores simplificados:

  • Diagnóstico de TCE (fator protetor)
  • Tosse vigorosa
  • Reflexo de vômito (gag reflex) presente
  • Tentativas de deglutição
  • Frequência de aspiração ≤2/hora
  • GCS motor = 6 (obedece comandos)
  • Temperatura corporal normal
  • Performance: AUC 0,79 (coorte treinamento); 0,71 (validação)

    5.3 FOUR Score versus GCS

    O FOUR Score (Full Outline of UnResponsiveness) oferece vantagens importantes sobre o GCS em pacientes intubados:

    AspectoGCSFOUR Score
    Avaliação verbalImpossível em intubadosSubstituída por padrão respiratório
    Reflexos de troncoNão avaliaAvalia pupila, córnea, tosse
    Herniação uncalDetecção indiretaDetecta (pupila dilatada fixa)
    Locked-in syndromeNão detectaPode detectar (rastreamento ocular)
    Range3-150-16
    AUC para falha de extubação0,830,87 (p=0,014)

    O FOUR Score (Full Outline of UnResponsiveness) é uma escala de 17 pontos, variando de 0 a 16, desenvolvida para fornecer uma avaliação neurológica mais detalhada que a Escala de Glasgow, especialmente para pacientes em estado crítico ou intubados. Ela avalia quatro domínios principais: resposta ocular, resposta motora, reflexos de tronco encefálico e padrão respiratório.

    Abaixo, a tabela detalhada com cada pontuação:

    Detalhamento da Escala FOUR Score

    PontosResposta Ocular (E)Resposta Motora (M)Reflexos de Tronco (B)Padrão Respiratório (R)
    4Pálpebras abertas; rastreamento visual ou piscar sob comando.Sinais manuais (polegar para cima, punho fechado ou sinal de paz).Reflexos pupilares e corneanos presentes.Não intubado; padrão respiratório regular.
    3Pálpebras abertas, mas sem rastreamento visual.Localiza o estímulo doloroso.Uma pupila dilatada e fixa.Não intubado; padrão de Cheyne-Stokes.
    2Pálpebras fechadas; abre os olhos com voz alta.Resposta de flexão à dor (decorticação).Reflexos pupilares ou corneanos ausentes.Não intubado; respiração irregular.
    1Pálpebras fechadas; abre os olhos com estímulo doloroso.Resposta de extensão à dor (descerebração).Reflexos pupilares e corneanos ausentes.Intubado; respira acima da frequência do ventilador.
    0Pálpebras permanecem fechadas mesmo com dor.Sem resposta à dor ou status mioclônico generalizado.Reflexos pupilar, corneano e de tosse ausentes.Intubado; respira na frequência do aparelho ou apneia.

    Por que o FOUR Score é preferido no Neurointensivismo?

  • Acurácia em Pacientes Intubados: Ao contrário da Escala de Glasgow, que fica limitada pela impossibilidade de testar a resposta verbal em pacientes com tubo orotraqueal, o FOUR Score utiliza o padrão respiratório e o drive do paciente para preencher essa lacuna.
  • Detecção de Herniação e Morte Encefálica: A inclusão dos reflexos de tronco permite identificar rapidamente sinais de compressão cerebral (como a pupila fixa) e é uma ferramenta valiosa na triagem inicial de possível morte encefálica.
  • Identificação da Síndrome de Encarceramento: Através do rastreamento visual (ponto máximo na resposta ocular), é possível identificar pacientes que estão conscientes, mas paralisados, o que passaria despercebido em avaliações menos granulares.
  • Previsão de Sucesso na Extubação: O componente respiratório avalia se o paciente tem esforço próprio acima do ventilador, o que, somado à integridade dos reflexos de tronco (como o de tosse), oferece uma margem de segurança maior para decidir retirar o suporte ventilatório.
  • Para facilitar a compreensão da equipe, imagine que a Escala de Glasgow funciona como um raio-X, que mostra a estrutura geral do estado de consciência. Já o FOUR Score funciona como uma ressonância magnética de alta resolução, revelando detalhes vitais das funções do tronco cerebral e da autonomia respiratória que garantem a segurança do paciente.

    § 08

    6. Avaliação de critérios clínicos específicos

    6.1 Cuff Leak Test

    Performance (Meta-análise 2020, 28 estudos, n=4.493):

  • Sensibilidade pooled: 62% (IC95% 49-73%)
  • Especificidade pooled: 87% (IC95% 82-90%)
  • MétodoValor de Corte
    Volume>110-130 mL diferença entre Vt inspiratório/expiratório
    Percentual>10-15% do volume corrente
    QualitativoVazamento audível sem estetoscópio

    Controvérsias em neurocríticos:

  • Baixa sensibilidade — falha em identificar 38-56% dos pacientes que terão complicações
  • Recomendação ATS/ACCP 2017: Realizar apenas em pacientes de ALTO RISCO para estridor; se falha, administrar corticosteroides ≥4h antes da extubação
  • Nível de evidência: CONDICIONAL (baixa certeza)
  • 6.2 Reflexo de tosse — avaliação objetiva

    MétodoValor de CortePerformance
    Peak Expiratory Flow (PEF)≥60 L/min via TOTSensibilidade 78,8%; Especificidade 78,1%
    Semi-quantitative Cough Scale (SCSS)≥3 (tosse claramente audível)RR 4,0 para falha se graus 0-2
    White Card TestCartão úmido após tosseRR 3,0 se negativo

    Evidência crítica (Smina et al.): PEF ≤60 L/min associado a 5x mais risco de falha e 19x mais risco de mortalidade hospitalar.

    6.3 Frequência de aspiração

    ParâmetroValor FavorávelValor de Risco
    Frequência≤2 aspirações/hora>1 aspiração/2h
    VolumeEscasso a moderadoAbundante
    ConsistênciaFina a moderadaEspessa

    Efeito sinérgico: Tosse fraca + secreções abundantes = RR 31,9 (IC95% 4,5-225,3) — risco extremamente elevado.

    § 09

    7. Complicações e desfechos

    7.1 Taxa de reintubação comparativa

    PopulaçãoTaxa de FalhaFonte
    UTI Geral10-15%Literatura padrão
    Neurocríticos15-20%Múltiplos estudos
    ENIO (neurocríticos)19,4% em 5 diasCinotti 2022
    AVC HemorrágicoOR 1,49 vs sem lesãoTejerina 2022
    TCE25-40%Rabinstein 2023

    7.2 Causas de falha em neurocríticos

    CausaFrequência
    Desconforto respiratório + alteração do sensório59%
    Patência de via aérea comprometida37,7%
    Causa neurológica39,8%
    Atelectasia/hipoventilação39%

    7.3 Impacto da falha de extubação

    A reintubação está independentemente associada a:

  • Mortalidade hospitalar: 25-50% vs 5-15% em não-reintubados
  • Pneumonia nosocomial: 47% vs 10%
  • Aumento de tempo de UTI: +8-10 dias
  • Necessidade de traqueostomia: +33%
  • 7.4 VAP em neurocríticos

    PatologiaPrevalência de VAPTaxa/1000 dias-VM
    TCE49,5%16,6
    HIC32,5%11,0
    HSA20,7%7,0
    AVC Isquêmico3%7,1
    UTI Geral10-20%7-15

    A elevada incidência em TCE relaciona-se à disfunção imune cerebral pós-traumática.

    § 10

    8. Timing de traqueostomia: early versus late

    8.1 Definições operacionais

    ClassificaçãoTiming
    Early (precoce)≤5-7 dias
    Late (tardia)>10-14 dias

    8.2 SETPOINT2 Trial (2022) — evidência pivotal para AVC

    Ensaio multicêntrico (26 centros, EUA/Alemanha, n=382) comparando traqueostomia precoce (≤5 dias) vs padrão (≥10 dias) em AVC grave:

    Resultado primário (mRS 0-4 vs 5-6 em 6 meses): SEM DIFERENÇA SIGNIFICATIVA entre os grupos.

    Conclusão: Traqueostomia precoce NÃO é recomendada rotineiramente em AVC.

    8.3 Meta-análise em TCE (McCredie 2017)

    DesfechoEarly vs LateSignificância
    Mortalidade longo prazoRR 0,57 (0,36-0,90)p=0,02*
    Duração de VM-2,72 diasp=0,0002
    Tempo de UTI-2,55 diasp=0,01
    Mortalidade curto prazoRR 1,25 (NS)p=0,47
  • Atenuado na análise de sensibilidade
  • 8.4 Recomendação por patologia

    PatologiaRecomendaçãoNível de Evidência
    AVCNão realizar traqueostomia precoce rotineiramenteALTO (SETPOINT2)
    TCEConsiderar precoce em GCS persistentemente baixoMODERADO
    Lesões infratentoriaisMaior necessidade de traqueostomiaBAIXO
    § 11

    9. Ferramentas de avaliação pós-extubação

    9.1 GUSS-ICU (Gugging Swallowing Screen for ICU)

    Escala de triagem de disfagia validada para UTI:

    Performance:

  • Sensibilidade: 91,7-94,4%
  • Especificidade: 66,7-88,9%
  • Correlação com FEES: rho = 0,60-0,61
  • Quando aplicar: Idealmente 24h após extubação, por fonoaudiólogo ou enfermeiro treinado.

    9.2 FEES (Flexible Endoscopic Evaluation of Swallowing)

    Padrão-ouro para avaliação de disfagia pós-extubação:

    Penetration-Aspiration Scale (PAS)Interpretação
    1Normal
    2-3Penetração leve
    4-5Penetração moderada
    6-8Aspiração (8 = silente)

    Viabilidade no SUS: Limitada pela disponibilidade de equipamento e especialistas, mas pode ser priorizada para casos de alto risco.

    9.3 Ultrassom diafragmático

    ParâmetroValor de CorteAUC
    Thickening Fraction (DTF)≥20-30%0,83-0,87
    Excursão diafragmática (DE)≥10-17 mm0,81

    Utilidade: Detecta VIDD (Ventilator-Induced Diaphragmatic Dysfunction), que ocorre após apenas 12-18 horas de VM controlada.

    § 12

    10. Classificação de evidência (GRADE)

    RecomendaçãoForçaNível de Evidência
    Utilizar VISAGE Score ≥3 como preditor de sucessoCondicionalMODERADO
    Avaliar GCS motor (não apenas total)CondicionalMODERADO
    Avaliar tosse e volume de secreção sistematicamenteForteALTO
    GCS <8 isolado não contraindica extubaçãoCondicionalBAIXO
    Traqueostomia precoce NÃO melhora desfechos em AVCForteALTO
    VNI profilática pós-extubação em neurocríticosSem recomendaçãoMUITO BAIXO
    FOUR Score superior a GCS em intubadosCondicionalMODERADO
    Avaliação de deglutição pós-extubaçãoForteMODERADO

    Lacunas de evidência identificadas

  • Ausência de ECRs de grande escala específicos para extubação em neurocríticos
  • Validação externa limitada dos scores VISAGE e ENIO
  • Papel de VNI/CNAF pós-extubação em neurocríticos — estudos inconclusivos
  • Timing ótimo de traqueostomia em HSA e tumor cerebral
  • Biomarcadores preditivos de falha — área de pesquisa emergente
  • § 13

    11. Matriz de decisão para paciente limítrofe

    Definição de paciente limítrofe

    Paciente que atende critérios respiratórios para extubação, mas apresenta incerteza quanto à proteção de via aérea ou status neurológico.

    Matriz de decisão

    CenárioVISAGEGCS-MTosseAspiraçãoConduta Recomendada
    Favorável≥36PEF ≥60≤2/hExtubar com monitorização padrão
    Limítrofe A25-6Moderada2-3/hExtubar; monitorização intensiva 48h; GUSS-ICU em 24h
    Limítrofe B1-25Fraca>3/hPostergar 24-48h; reavaliação diária; discutir traqueostomia se sem melhora
    Desfavorável0-1≤4Ausente>4/hNão extubar; avaliar indicação de traqueostomia

    Fatores modificadores

    FatorModificação da Conduta
    TCE (vs AVC)Maior tolerância para GCS baixo
    Lesão infratentorialMaior cautela — maior risco de falha
    Idade >65 anosMaior cautela — recuperação mais lenta
    VM >10 diasMaior risco de falha — considerar USG diafragmático
    Secreções espessasContraindicação relativa

    FLUXOGRAMA DE EXTUBAÇÃO EM NEUROCRÍTICOS

    ⚙️ Fluxograma
    graph TD
        A[Paciente neurocrítico em VM ≥24h] --> B[FASE 1: TRIAGEM DIÁRIA]
    
        B --> C{Checklist de<br/>prontidão geral<br/>atendido?}
        C -->|Todos atendidos| D[Prosseguir para Fase 2]
        C -->|Não atendidos| E[Reavaliar em 24h]
    
        D --> F[FASE 2: TESTE DE RESPIRAÇÃO ESPONTÂNEA]
        F --> G{Método: T-piece ou<br/>PSV ≤7 cmH₂O<br/>por 30-120 min}
        G -->|PASSA no TRE| H[Prosseguir para Fase 3]
        G -->|FALHA no TRE| I[Retornar VM<br/>Retry em 24h]
    
        H --> J[FASE 3: AVALIAÇÃO NEUROLÓGICA E VIA AÉREA]
        J --> K[A Calcular FOUR Score ou GCS]
        K -->|FOUR ≥12 ou GCS >10T| L[B Calcular VISAGE Score]
        L --> M[C Avaliar proteção de via aérea]
        M --> N{D Paciente de<br/>alto risco<br/>para estridor?}
        N -->|Sim - Realizar CLT| O{CLT positivo?}
        N -->|Não| P{VISAGE ≥3 +<br/>Proteção VA<br/>adequada?}
        O -->|Não| Q[Metilprednisolona<br/>20mg IV q4h x4 doses]
        O -->|Sim| P
        Q --> P
    
        P -->|SIM| R[Prosseguir para Fase 4]
        P -->|NÃO| S[Ver Matriz de Decisão]
    
        R --> T[FASE 4: EXTUBAÇÃO]
        T --> U[Preparação e Execução]
        U --> V[Suporte pós-extubação]
        V --> W[Prosseguir para Fase 5]
    
        W --> X[FASE 5: MONITORIZAÇÃO PÓS-EXTUBAÇÃO]
        X --> Y[Monitorização horária<br/>primeiras 6h]
        Y --> Z[Em 24h pós-extubação:<br/>GUSS-ICU]
        Z -->|GUSS <15 ou disfagia| AA[Solicitar FEES]
        Y --> AB{Critérios para<br/>reintubação?}
        AB -->|SIM| AC[Reintubação]
        AB -->|NÃO| AD[Sucesso da Extubação]
    
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        style X fill:#fff4e6
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    Detalhamento dos Critérios

    Checklist de prontidão geral (Fase 1):

  • □ Causa de intubação em resolução
  • □ PaO₂/FiO₂ ≥150, FiO₂ ≤0,5, PEEP ≤8
  • □ Hemodinamicamente estável
  • □ Sem sedação contínua ou BNM
  • □ PIC ≤20 mmHg, PPC ≥60 (se monitorada)
  • □ Sem cirurgia planejada nas próximas 24h
  • □ Temperatura <38,5°C
  • Critérios de FALHA no TRE (Fase 2):

  • FR >35 rpm ou <8 rpm
  • SpO₂ <90% por >2 min
  • FC >140 ou variação >20%
  • PAS >180 ou <90 mmHg
  • Agitação, sudorese, uso de acessórios
  • RSBI >105 rpm/L
  • VISAGE Score (Fase 3):

  • □ Perseguição visual (1 ponto)
  • □ Tentativas de deglutição (1 ponto)
  • □ Idade <40 anos (1 ponto)
  • □ GCS >10 (1 ponto)
  • Proteção de via aérea (Fase 3):

  • □ Tosse: PEF ≥60 L/min ou SCSS ≥3
  • □ Frequência de aspiração ≤2/hora
  • □ Secreções não espessas
  • □ Reflexo de vômito presente
  • Alto risco para estridor (Fase 3):

  • Intubação >6 dias
  • Reintubação recente
  • Edema facial/cervical
  • Preparação para extubação (Fase 4):

  • □ Material de reintubação à beira-leito
  • □ Equipe de via aérea disponível
  • □ Considerar extubação em horário diurno
  • □ Cabeceira elevada 30-45°
  • Suporte pós-extubação (Fase 4):

  • □ O₂ suplementar: CN ou máscara
  • □ CNAF (se disponível): pacientes de risco
  • □ VNI profilática: Evidência insuficiente em neurocríticos
  • Monitorização horária (Fase 5):

  • □ FR, SpO₂, FC, PA, nível de consciência
  • □ Sinais de desconforto respiratório
  • □ Estridor
  • Critérios para reintubação (Fase 5):

  • FR >35 ou <8 rpm persistente
  • SpO₂ <88% apesar de O₂ suplementar
  • Deterioração neurológica (queda ≥2 pontos GCS)
  • Incapacidade de proteger via aérea
  • Secreções não manejáveis
  • Fadiga respiratória evidente
  • § 14

    13. Tabela comparativa de protocolos institucionais

    ElementoENIO/ESICMVISAGEJohns Hopkins*Recomendação POP
    GCS mínimoNão definido (GCS-M=6 é preditor)>10 (1 ponto)Não absolutoGCS-M ≥5-6
    Tosse obrigatóriaSim — vigorosaNão avaliadaSimSim — PEF ≥60 ou SCSS ≥3
    DeglutiçãoTentativas presentesSim (1 ponto)AvaliadaTentativas presentes
    Aspiração≤2/horaNão avaliadaAvaliada≤2/hora
    Perseguição visualAvaliada no scoreSim (1 ponto)AvaliadaPresente
    Cuff LeakControversoNão incluídoSeletivoAlto risco apenas
    TRE30-120 minPré-requisito30-120 min30-120 min
    VNI pósSem benefício demonstradoSeletivaIndividualizada
    Score utilizadoENIO simplificadoVISAGEACSVISAGE + critérios
  • Baseado em publicações multicêntricas com participação institucional
  • § 15

    14. Considerações para contexto brasileiro e SUS

    14.1 Ferramentas de alta viabilidade (recomendadas)

    FerramentaCustoTreinamentoAplicador
    FOUR ScoreZeroSimples (1-2h)Qualquer profissional
    VISAGE ScoreZeroSimplesMédico/fisioterapeuta
    GUSS-ICUZeroModerado (4-8h)Fono/enfermagem
    Avaliação de secreçõesZeroBaixoEnfermagem
    Peak Expiratory FlowBaixo (fluxômetro)ModeradoFisioterapeuta

    14.2 Ferramentas de viabilidade moderada

    FerramentaBarreiraSolução
    USG diafragmáticoEquipamento, treinamentoPoint-of-care já presente em muitas UTIs
    FEESEquipamento, especialistaParceria com ORL/fono; priorizar alto risco

    14.3 Adaptações para equipe multiprofissional

    ProfissionalPapel no Protocolo
    Médico intensivistaDecisão final, avaliação neurológica, FOUR/VISAGE
    FisioterapeutaTRE, avaliação de tosse (PEF), USG diafragmático
    EnfermeiroMonitorização, frequência de aspiração, GUSS-ICU
    FonoaudiólogoGUSS completa, FEES, terapia de deglutição
    Técnico de enfermagemRegistro de aspirações, sinais vitais

    14.4 Checklist para implementação institucional

  • ▢ Capacitação da equipe em FOUR Score e VISAGE
  • ⚠️ imagem não exportável: falha download imagem 2e686d13-8477-803e-9489-d0d0fc1d79d9
  • ▢ Treinamento de enfermagem em GUSS-ICU
  • ⚠️ imagem não exportável: falha download imagem 2e686d13-8477-806e-9f11-d05380442b77
  • ▢ Disponibilização de fluxômetro para PEF
  • ⚠️ imagem não exportável: falha download imagem 2e686d13-8477-801f-9245-edf003f5d3a6
  • ▢ Parceria com fonoaudiologia para casos de alto risco
  • ⚠️ imagem não exportável: falha download imagem 2e686d13-8477-8067-b101-c46f19ba1a4c
  • ▢ Protocolo de comunicação entre turnos
  • ⚠️ imagem não exportável: falha download imagem 2e686d13-8477-8012-a207-e13d07055239
  • ▢ Indicadores de qualidade: taxa de reintubação, pneumonia aspirativa
  • ⚠️ imagem não exportável: falha download imagem 2e686d13-8477-80d3-860b-f4c96cef0289
  • ▢ Auditoria mensal de adesão ao protocolo
  • ⚠️ imagem não exportável: falha download imagem 2e686d13-8477-80ff-9cbb-f3e2386a0416
    § 16

    15. Conclusão e perspectivas

    A extubação de pacientes neurocríticos permanece um desafio clínico com nível de evidência majoritariamente baixo a moderado. Os principais avanços recentes incluem a validação dos scores VISAGE e ENIO, que incorporam parâmetros neurológicos específicos além dos critérios respiratórios tradicionais.

    Mensagens-chave para a prática:

  • O GCS isolado não deve determinar a decisão — a avaliação multifatorial com VISAGE Score ≥3 prediz 90% de sucesso
  • Parâmetros tradicionais de desmame (RSBI) não predizem falha em neurocríticos — a proteção de via aérea deve ser avaliada independentemente
  • Aceitar taxa de reintubação de ~20% é razoável para evitar ventilação mecânica prolongada desnecessária e suas complicações
  • Traqueostomia precoce não melhora desfechos funcionais em AVC, mas pode ter papel em TCE selecionados
  • A avaliação de deglutição pós-extubação é obrigatória — 80% dos neurocríticos extubados apresentam disfagia detectável por FEES
  • A implementação de protocolos estruturados, mesmo baseados em evidência de qualidade moderada, demonstra reduzir tempo de ventilação mecânica e complicações associadas. O estudo BIPER (stepped-wedge cluster-RCT em andamento) poderá fornecer evidências de alto nível para validar a abordagem baseada em scores clínicos nos próximos anos.

    § 17

    Tabela-Resumo: Níveis de Evidência e Recomendações Finais

    DomínioRecomendaçãoGRADE
    Triagem de prontidãoAvaliação diária de critérios gerais e neurológicosForte/Moderado
    TRE30-120 min com T-piece ou PSV baixaForte/Alto
    Avaliação neurológicaFOUR Score preferível ao GCS em intubadosCondicional/Moderado
    Score preditivoVISAGE ≥3 como critério favorávelCondicional/Moderado
    TossePEF ≥60 L/min ou SCSS ≥3 obrigatóriosForte/Moderado
    Aspiração≤2/hora como critério favorávelCondicional/Baixo
    Cuff LeakApenas em alto risco; corticoides se negativoCondicional/Baixo
    Traqueostomia em AVCNão realizar precoce rotineiramenteForte/Alto
    Traqueostomia em TCEConsiderar precoce em GCS persistentemente baixoCondicional/Moderado
    Avaliação pós-extubaçãoGUSS-ICU em 24h; FEES se disfagia detectadaForte/Moderado
    MonitorizaçãoIntensiva nas primeiras 72hForte/Consenso
    Refs

    Referências

    Conteúdo migrado do Central de Estudos (Blog Dr. Jackson Fuck, Notion).