Revisão Narrativa: Milrinone no Tratamento do Vasoespasmo Ce
O vasoespasmo cerebral é uma complicação grave da hemorragia subaracnóidea aneurismática, afetando até 70% dos pacientes. A milrinone, um inibidor da fosfodiesterase tipo III, demonstrou eficácia na reversão do vasoespasmo, com estudos mostrando taxas de reversão clínica de até 99%. A administração intravenosa de milrinone tem se mostrado segura, embora a hipotensão seja um efeito colateral comum.
Visão geral
O vasoespasmo cerebral permanece uma complicação grave da hemorragia subaracnóidea aneurismática (HSA), afetando até 70% dos pacientes e contribuindo para isquemia cerebral tardia (ICT), que ocorre em aproximadamente 40% dos casos [1][2]. A ICT está associada a elevada morbidade e mortalidade, sendo responsável por déficits neurológicos persistentes, distúrbios neuropsiquiátricos e redução da qualidade de vida [1][3].
Fisiopatologia e Mecanismo de Ação da Milrinone
A milrinone é um inibidor da fosfodiesterase tipo III que antagoniza a enzima responsável pela hidrólise do monofosfato de adenosina cíclico (AMPc) e monofosfato de guanosina cíclico (GMPc) [3]. O aumento subsequente de AMPc resulta em efeitos inotrópicos e lusitrópicos positivos, enquanto o aumento de GMPc promove relaxamento da musculatura lisa arterial e venosa [3]. Esses mecanismos conferem à milrinone propriedades vasodilatadoras cerebrais independentes do endotélio, aumento do débito cardíaco sem vasoconstrição associada aos vasopressores, melhora da microcirculação cerebral e potenciais efeitos anti-inflamatórios pela redução da produção de TNF-alfa e outras citocinas pró-inflamatórias envolvidas na fisiopatologia da ICT [3][4].
Evidências Clínicas Atuais
Administração Intravenosa
A experiência inicial do Montreal Neurological Institute demonstrou que a infusão intravenosa contínua de milrinone em 88 pacientes diagnosticados com vasoespasmo cerebral resultou em reversão clínica em 99% dos casos, com desfecho neurológico favorável (mRS ≤2) em 75% dos pacientes [3][4]. A mortalidade foi de apenas 5,7%, e somente um paciente necessitou terapia de resgate intra-arterial [3][4].
Estudo retrospectivo comparativo demonstrou eficácia semelhante entre milrinone intravenosa isolada e terapia combinada intra-arterial mais intravenosa [4]. A reversão de regiões vasoespásticas foi observada em 64% do grupo IV isolado versus 71% do grupo combinado, sem diferença estatisticamente significativa nos desfechos clínicos [4][5].
Protocolos Guiados por Tomografia de Perfusão
Estudo retrospectivo antes-depois envolvendo grande coorte de pacientes com HSA demonstrou que estratégia de manejo integrando tomografia de perfusão cerebral (CTP), monitorização clínica vigilante e administração sistêmica padronizada de milrinone reduziu significativamente a ocorrência de infarto cerebral tardio (OR ajustado 0,48; IC 95% [0,26-0,84]) [2]. A CTP facilitou diagnóstico precoce do vasoespasmo, com déficits neurológicos isquêmicos tardios menos prevalentes no momento do diagnóstico (11% vs 24%, p=0,001) [2]. A milrinone intravenosa foi administrada mais frequentemente (80% vs 54%, p<0,001) e associou-se a hemodinâmica superior [2].
Estudo MiVAR
O estudo MiVAR (Milrinone Infusion for VAsospasm treatment in subarachnoid hemoRrhage), ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, multicêntrico de fase III, representa a primeira investigação rigorosa para avaliar eficácia da milrinone intravenosa em melhorar desfechos neurológicos em 3 meses em pacientes com vasoespasmo cerebral após HSA [1][6]. O estudo incluirá 360 pacientes randomizados 1:1 para receber milrinone (bolus inicial de 0,1 mg/kg em 30 minutos seguido por infusão contínua a 1 µg/kg/min por no mínimo 48 horas) ou placebo [1][7]. O desfecho primário é proporção de pacientes com desfecho neurológico favorável em 3 meses (mRS ≤2), obtido através de entrevista telefônica centralizada padronizada [1][7]. O estudo iniciou em agosto de 2020 com seguimento final esperado para o último trimestre de 2025 [1].
Vasoespasmo Refratário
Análise de coorte retrospectiva recente incluindo maior proporção de pacientes com HSA grave (52% WFNS grau III-IV) estratificou pacientes em três grupos: sem sintomas de ICT, monoterapia IV com milrinone, e terapia de resgate IV+IA [3]. Terapia de resgate foi necessária em 19% dos pacientes que desenvolveram vasoespasmo/ICT, com 76% demonstrando melhora clínica em 24 horas [3]. As doses medianas de milrinone IV foram 1,25 µg/kg/min (IIQ 1,0-1,5) antes da terapia de resgate, aumentando para 1,75 µg/kg/min (IIQ 1,5-2,0) após [3]. Desfechos funcionais favoráveis (mRS ≤2) foram observados em 65% de todos os pacientes aos 4 meses [3].
Esquemas Posológicos
As doses recomendadas de milrinone baseadas na gravidade radiográfica do vasoespasmo são: 0,75-1,25 µg/kg/min para vasoespasmo leve, 1,0-1,5 µg/kg/min para vasoespasmo moderado, e 1,0-2,0 µg/kg/min para vasoespasmo grave [3]. A dose inicial mais comum nos estudos variou entre 0,5 a 0,75 µg/kg/min (54% dos estudos) [4][5].
Perfil de Segurança
A milrinone demonstrou perfil de segurança aceitável em todas as séries de casos [3][4]. O evento adverso mais consistentemente relatado foi hipotensão, que parece aumentar com escalonamento de dose da terapia IV [3]. Terapia vasopressora para reverter hipotensão induzida por milrinone foi necessária em 40-68% dos pacientes, sem complicações atribuídas à adição de vasopressores [3][4][8]. Arritmias foram infrequentes, ocorrendo em 0-7% dos pacientes [3][8]. Isquemia miocárdica foi rara, ocorrendo em apenas 2 de 555 pacientes em todas as séries [3]. Hiponatremia (Na <135 ou >155 mmol/L) e hipocalemia foram monitoradas mas não mostraram diferenças significativas entre grupos [3][8].
Diretrizes da AHA/ASA 2023
As diretrizes mais recentes da American Heart Association/American Stroke Association (2023) para manejo de pacientes com HSA aneurismática enfatizam que a isquemia cerebral tardia permanece complicação significativa associada a piores desfechos [9][10]. Recomenda-se início precoce de nimodipina enteral para prevenir ICT e melhorar desfechos funcionais [9]. Elevação da pressão arterial e manutenção de euvolemia em pacientes com ICT sintomática pode ser benéfica em reduzir progressão e gravidade [9]. Entretanto, as diretrizes ressaltam que evidências definitivas para tratamentos específicos de vasoespasmo/ICT ainda são limitadas [11][9].
Considerações para Implementação
A administração de milrinone requer monitorização hemodinâmica rigorosa, eletrocardiografia contínua, avaliação seriada de eletrólitos e função renal [8][12]. História cardiovascular significativa deve ser considerada com cautela, especialmente em doses mais elevadas [3]. Disfunção renal grave pode reduzir clearance de milrinone, necessitando ajuste posológico em pacientes com ClCr <30 mL/min [8][12].
1. OBJETIVO
Padronizar o uso de milrinone intravenosa contínua no tratamento do vasoespasmo cerebral e isquemia cerebral tardia (ICT) em pacientes com hemorragia subaracnóidea aneurismática (HSA) em ambiente de terapia intensiva [3][4].
2. INDICAÇÕES
2.1 Critérios de Inclusão
2.2 Critérios de Exclusão
3. CLASSIFICAÇÃO DA GRAVIDADE DO VASOESPASMO
3.1 Critérios Radiográficos (AngioTC ou ASD)
3.2 Critérios por Doppler Transcraniano
4. PROTOCOLO DE ADMINISTRAÇÃO
4.1 Preparo da Solução
4.2 Dose Inicial (Bolus)
4.3 Infusão Contínua
4.4 Avaliação de Resposta (2 horas após início)
Definir resposta como: regressão de sinais clínicos relacionados ao vasoespasmo e/ou diminuição/normalização das velocidades cerebrais no DTC [1][3].
Resposta positiva:
Ausência de resposta positiva:
4.5 Dose Máxima
5. MONITORIZAÇÃO
5.1 Monitorização Contínua
5.2 Avaliações Seriadas
5.3 Parâmetros Hemodinâmicos
6. MANEJO DE EVENTOS ADVERSOS
6.1 Hipotensão
6.2 Arritmias
6.3 Distúrbios Eletrolíticos
6.4 Isquemia Miocárdica
7. DESMAME E SUSPENSÃO
7.1 Critérios para Início do Desmame
7.2 Esquema de Desmame
7.3 Manejo de Recorrência Durante Desmame
7.4 Duração Máxima
8. TERAPIAS CONCOMITANTES
8.1 Nimodipina
8.2 Suporte Vasopressor
8.3 Euvolemia
9. TERAPIA DE RESGATE
9.1 Indicações para Terapia Intra-arterial
9.2 Protocolo Intra-arterial
10. AJUSTE EM SITUAÇÕES ESPECIAIS
10.1 Insuficiência Renal
10.2 Cardiopatia Prévia
11. DOCUMENTAÇÃO
11.1 Registros Obrigatórios
12. RESPONSABILIDADES
13. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Este POP foi elaborado com base nas evidências científicas mais recentes (publicadas nos últimos 10 anos), incluindo protocolos de centros especializados, revisões sistemáticas, diretrizes da AHA/ASA 2023 e o protocolo do estudo MiVAR [1][2][5][3][4][9].
Data de Elaboração: Novembro 2025
Revisão: Anual ou quando novas evidências significativas estiverem disponíveis
Aprovação: Comissão de Protocolos Clínicos da Instituição
Citações:
[1] Milrinone infusion for vasospasm treatment in subarachnoid ... - NIH https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12570933/
[2] CT perfusion-guided administration of IV milrinone is associated ... https://www.nature.com/articles/s41598-024-65706-w
[3] Treatment of Subarachnoid Hemorrhage-Associated Delayed ... - NIH https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8192346/
[4] Efficacy and safety of milrinone in the treatment of cerebral ... - NIH https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7853682/
[5] Eficácia e segurança da milrinona no tratamento ... - SciELO https://www.scielo.br/j/rbti/a/NKg9d9HtZbtR7yYCFCmZHPN/?lang=pt
[6] Milrinone infusion for vasospasm treatment in subarachnoid ... https://bmjopen.bmj.com/content/bmjopen/15/10/e101483.full.pdf
[7] protocol for a double-blind randomised clinical trial – the MiVAR study https://bmjopen.bmj.com/content/15/10/e101483
[8] Hemodynamic response and clinical outcome following ... https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8913475/
[9] 2023 Guideline for the Management of Patients With ... https://www.stroke-manual.com/wp-content/uploads/2024/03/2023-AHA-ASA-SAH-guidelines.pdf
[10] 2023 Guideline for the Management of Patients With ... https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37212182/
[11] 2023 Guideline for the Management of Patients With Aneurysmal ... https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/STR.0000000000000436
[12] Milrinone https://www.safercare.vic.gov.au/best-practice-improvement/clinical-guidance/critical/milrinone
[13] SOP for the Prescribing and Administration of Milrinone ... https://www.childrenshealthireland.ie/documents/906/Milrinone-Prescription-and-Administration-of-Milrinone-in-CHC-Aug-2017.pdf
[14] Repetitive intraarterial therapy with Milrinone and Nimodipine for ... https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2772529425000797
[15] Treatment Effect of Early Intravenous Milrinone for Cerebral ... https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40329063/
[16] protocol for a double-blind randomised clinical trial – the MiVAR study https://bmjopen.bmj.com/content/15/10/e101483.abstract
[17] Management of Cerebral Vasospasm after Aneurysmal ... https://www.thieme-connect.com/products/ejournals/pdf/10.1055/s-0044-1801369.pdf
[18] Systemic tolerance of intravenous milrinone administration for ... https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0883944124002946
[19] Milrinona para tratamento de vasoespasmo cerebral após ... https://translate.google.com/translate?u=https%3A%2F%2Fpubmed.ncbi.nlm.nih.gov%2F11322432%2F&hl=pt&sl=en&tl=pt&client=srp
[20] [PDF] Milrinone and Homeostasis to Treat Cerebral Vasospasm ... https://www.mcgill.ca/anesthesia/files/anesthesia/sah-vasospasm_-_lannes_-2012_1.pdf
[21] Milrinone-Associated Cardiomyopathy and Arrhythmia in ... https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1878875018306338
[22] [PDF] Milrinone for refractory cerebral vasospasm with delayed ... https://www.semanticscholar.org/paper/Milrinone-for-refractory-cerebral-vasospasm-with-Abulhasan-Jiménez/338964d189d1227fb55b172b41dc8dc2df138846
[23] Eficácia e segurança da milrinona no tratamento do ... https://www.scielo.br/j/rbti/a/NKg9d9HtZbtR7yYCFCmZHPN/?lang=en
[24] protocol for a double-blind randomised clinical trial https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41151960/?fc=None&ff=20251029015533&v=2.18.0.post22+67771e2
[25] 2023 Guideline for the Management of Patients With ... https://professional.heart.org/en/science-news/2023-guideline-for-the-management-of-patients-with-aneurysmal-subarachnoid-hemorrhage