Bottom line ⚠️⚠️ N3 · Confiança baixa
Sem definição padronizada
A STC ocorre em cirurgia cardíaca, trauma torácico e condições clínicas de UTI — mas sem definição clara, o diagnóstico é tardio e o tratamento inadequado.
Definição nova (este artigo)
STC = Hipertensão intratorácica (PIT >15 mmHg ou PIP >30 cmH₂O) + disfunção orgânica cardiovascular, pulmonar ou sinais de policompartimento.
Pressão transmitida para outros órgãos
↑PIT → ↑PAD → ↓retorno venoso → ↓DC → isquemia. A pressão se propaga ao crânio (↑PIC) e abdome (↓perfusão renal/hepática).
Base de evidência limitada
n=10 estudos incluídos; maioria relatos de caso (n=10). Nenhum RCT. Definição proposta não validada prospectivamente.
Definição proposta (Tabela 3) ⚠️⚠️ N3
Principal contribuição do artigo — critérios hierárquicos em dois níveis.
| Hipertensão Intratorácica (HIT) — critério obrigatório | |
|---|---|
| Via direta | PIT > 15 mmHg medida por cateter de pressão esofágica (Pes) |
| Substituto em ventilados | Pico de pressão inspiratória (PIP) > 30 cmH₂O |
| STC = HIT + disfunção orgânica em ao menos 1 domínio | |
| Cardiovascular | IC < 2,2 L/min/m² ou deterioração ≥20%; disfunção diastólica (E/A <0,8 ou >2, E/e' >14, e' septal <7 cm/s, vel. regurgitação tricúspide >2,8 m/s); hipotensão (PAS <90), ↑vasopressor, taquicardia >100 bpm |
| Pulmonar — ventilado | Deterioração da mecânica vs baseline: pico >30 cmH₂O*, platô >27, Pmva >20, Pes <−30 cmH₂O |
| Pulmonar — não ventilado | Deterioração do padrão respiratório; PaCO₂ >40 mmHg; Pes <−15 cmH₂O |
| Policompartimento | Sinais de hipertensão intracraniana secundária; oligúria <0,5 mL/kg/h; transaminases >20× VN; íleo sem outra causa |
*Em SDRA: considerar pico >35 cmH₂O. Disfunção diastólica conforme recomendações ASE/EACVI 2016.
Fisiopatologia e interação coração-pulmão
Fórmulas fundamentais
A PIT normal é de 5–7 mmHg. Quando a PIT excede a pressão capilar, ocorre colapso do sistema de drenagem venosa → queda no fluxo sanguíneo orgânico → hipóxia e isquemia tissular → disfunção multiorgânica.
A PIT negativa fisiológica aumenta o retorno venoso, ↓pós-carga do VD e ↑pós-carga do VE. Quando a pressão pleural aumenta (ventilação com pressão positiva, hiperinsuflação, lesão expansiva), essa interação se inverte: o ↑PIT é transmitido à PAD → ↓RV → ↓VS → ↓DC → acidose metabólica e instabilidade. O ↓DC também ↓pressão de perfusão coronariana → isquemia subendocárdica, piorando ainda mais o quadro hemodinâmico.
Figura 1 — Seleção de estudos (PRISMA)
Fluxograma de seleção (diagrama vetorial). Preservada abaixo com legenda traduzida; à direita, versão SVG em português.
Figura 2 — Mecanismos de aumento da PIT
Figura 3 — Síndrome multicompartimental
Diagrama anatômico complexo (coração, cérebro, fígado, intestinos, equação de Ohm) — preservado abaixo em alta resolução. O SVG à direita apresenta a cadeia causal em formato de fluxograma traduzido, para facilitar o entendimento pela equipe.
Causas da STC (Tabela 2)
| Primárias | Secundárias |
|---|---|
|
|
Histórico de definições (Tabela 1 — seleção)
| Ano | Autores | Definição proposta (traduzida) |
|---|---|---|
| 1975 | Riahi et al. | Síndrome de compressão cardíaca: queda súbita da PA + elevação da PVC no fechamento esternal |
| 1996 | Kaplan, Trooskin, Santora | SC: pressão do compartimento excede pressão de perfusão tecidual |
| 2010 | Balogh, Butcher | SC: disfunção orgânica no compartimento por ↓suprimento sanguíneo por ↑pressão local. STC: ↑PIP no fechamento da parede torácica |
| 2014 | Malbrain et al. | Hipertensão intratorácica: PIT >15 mmHg. STC: PIT >25 mmHg |
| 2023 | Posada-Rios et al. (Colômbia) | STC: ↑pressão em compartimento osteofibroso fechado, por aumento do volume interno ou ↓espaço, com ↓fluxo sanguíneo, isquemia e necrose tecidual |
| 2025 | Pérez-Garzón et al. (este artigo) | STC = HIT + disfunção orgânica cardiovascular, pulmonar ou sinais de policompartimento (Tabela 3) |
🧠 Cadeia de raciocínio — por que a definição proposta importa e seus limites
- Dados considerados: n=10 estudos, dos quais n=10 são relatos/séries de casos. Nenhum RCT. Revisões disponíveis são 2 (e foram excluídas). Base de evidência muito escassa.
- Gap identificado: sem definição padronizada, o diagnóstico de STC é retardado e o tratamento inadequado — cada autor usa critérios próprios (Tabela 1), impossibilitando comparação entre estudos.
- Hipótese dominante: uma definição baseada em fisiopatologia (HIT + disfunção orgânica) é mais útil clinicamente do que um limiar de PIT isolado, pois considera o impacto funcional.
- Evidência: os limiares propostos (PIT>15 para HIT, PIT>25 para STC) derivam de estudos de esofagiografia e analogia com outras síndromes compatimental (abdominal, intracraniana).
- Alternativas descartadas: usar só um limiar de PIT como critério único (como Malbrain 2014) — os autores argumentam que sem disfunção orgânica concomitante, a relevância clínica não é estabelecida.
- Confiança: N3 · incerteza de Evidência (E) e Factual (F). Definição fisiopatologicamente coerente, mas sem validação prospectiva. Todo intensivista experiente hesitaria antes de usar esses critérios como definitivos.
Veredito prático ⚠️⚠️ N3
Suspeita
Pense em STC em pós-op cardíaco, trauma torácico, SDRA, hiperinsuflação ou deterioração hemodinâmica sem causa clara.
Monitorar PIT
Cateter esofágico (padrão) ou PIP como substituto. PIT >15 → HIT; >25 + disfunção → STC.
Corrigir hemdinâmica
Ajustar PVC e POAP pelas pressões transmurais (PVCtm = PVC − PIT). Não confiar nos valores brutos na HIT.
Policompartimento
Monitorar diurese, creatinina, transaminases e sinais de hipertensão intracraniana — a pressão torácica se transmite a todos os compartimentos.
Mapa mental
Referências (ABNT-BR)
PÉREZ-GARZÓN, M.; ROJAS-ARRIETA, M.; QUINTERO-ALTARE, A.; ROBAYO-AMORTEGUI, H. Exploring Pandora's box: a review of thoracic compartment syndrome. Anaesthesiology Intensive Therapy, v. 57, p. e381-e387, 2025. DOI: 10.5114/ait/214054.
MALBRAIN, M. L. N. G. et al. The polycompartment syndrome: a concise state-of-the-art review. Anaesthesiology Intensive Therapy, v. 46, p. 433-450, 2014. DOI: 10.5603/AIT.2014.0064.
BALOGH, Z. J.; BUTCHER, N. E. Compartment syndromes from head to toe. Critical Care Medicine, v. 38, n. Suppl. 9, p. S445-S451, 2010. DOI: 10.1097/CCM.0b013e3181ec5d09.
MAURI, T. et al. Esophageal and transpulmonary pressure in the clinical setting: meaning, usefulness and perspectives. Intensive Care Medicine, v. 42, p. 1360-1373, 2016. DOI: 10.1007/s00134-016-4400-x.