Diretriz Clínica 2026

Metabolismo e Nutrição no Doente Crítico

Revisão Sistemática & Framework de Precisão

Terapia Nutricional Baseada em Fases Metabólicas no Doente Crítico

Superando a abordagem homogénea convencional ("one-size-fits-all"). Estratégias adaptativas de escalonamento nutricional guiadas por biomarcadores dinâmicos de tolerância e cinética celular.

Dr. Christian Stoppe, Dr. Yaseen M. Arabi et al. Publicado em: Março, 2026
CAPÍTULO I|INTRODUÇÃO

1. A Inadequação das Estratégias Nutricionais Lineares

A terapia nutricional na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) evoluiu de uma intervenção de suporte básico para uma modulação metabólica ativa. Historicamente, as diretrizes convencionais defendiam metas calóricas e proteicas fixas atingidas de forma precoce. No entanto, múltiplos ensaios clínicos aleatorizados (ECAs) multicêntricos demonstraram de forma robusta a ausência de benefícios clínicos — e o potencial aumento de morbilidade — associados ao aporte precoce de doses totais de energia ou proteínas, especialmente em doentes com quadros severos de falência de múltiplos órgãos.

O erro fundamental reside na falha em reconhecer a heterogeneidade biológica do doente crítico a nível basal (idade, genética, comorbilidades, estado pré-mórbido) e a flutuação dinâmica da sua resposta metabólica ao longo do tempo. Protocolos uniformes geram respostas clínicas divergentes: enquanto alguns doentes podem tolerar o aporte, outros sofrem graves lesões por sobrecarga metabólica celular. Uma meta-análise recente confirmou que, mesmo em doentes diagnosticados com desnutrição ou em alto risco nutricional, o aporte calórico agressivo inicial não reduziu a mortalidade.

CAPÍTULO II|FASE AGUDA

2. A Fase Aguda Catabólica e a Subalimentação Permissiva

Nos primeiros dias da agressão crítica, o organismo entra numa fase dominada por inflamação sistémica profunda, picos de hormonas contrarreguladoras (cortisol, catecolaminas, glucagon) e citocinas pró-inflamatórias (IL-1, IL-6, TNF-alfa). Este cenário induz um estado severo de resistência à insulina e o que se denomina resistência anabólica. Ocorre uma mobilização massiva de substratos endógenos: a proteólise do músculo esquelético é ativada para fornecer aminoácidos à gliconeogénese hepática e à síntese de proteínas de fase aguda, enquanto a lipólise e a glicogenólise atuam na tentativa de suprir a procura energética celular.

Neste estágio de hiperglicémia e autofagia protetora suprimida, a introdução excessiva de macronutrientes exógenos sobrecarrega as vias metabólicas que já estão saturadas pela produção endógena. Os efeitos secundários clínicos incluem esteatose hepática, hipertrigliceridemia severa e agravamento do estresse respiratório e renal devido ao aumento da excreção de escórias nitrogenadas.

Conduta Recomendada na Fase Aguda

Recomenda-se estritamente a subalimentação permissiva ou nutrição trófica inicial de manutenção:

Energia Alvo 5 - 10 kcal/kg/dia
Proteína Alvo 0.2 - 0.6 g/kg/dia

O aporte calórico extra proveniente de fontes não nutricionais (como o veículo lipídico do propofol, citrato e soluções de dextrose) deve ser obrigatoriamente subtraído do cálculo diário fornecido.

Grandes ensaios clínicos suportam esta restrição inicial: o estudo NUTRIREA-3 demonstrou que a alimentação plena precoce padrão em doentes em choque ventilados aumentou significativamente a incidência de disfunção hepática, episódios de vómitos, diarreia e eventos graves de isquémia intestinal. Adicionalmente, o ensaio PRECISe de 2024 provou que o alvo hiperproteico precoce deteriorou as pontuações de qualidade de vida a longo prazo (aos 180 dias).

CAPÍTULO III|ESTABILIZAÇÃO

3. A Fase de Estabilização e a Triagem de Prontidão Metabólica

À medida que a resposta inflamatória sistémica aguda arrefece, o doente transita para a fase de estabilização. Esta janela clínica é caracterizada pela redução progressiva ou estabilização das doses de vasopressores/inotrópicos, declínio nos biomarcadores inflamatórios (como a Proteína C-Reativa [PCR] e Interleocina-6 [IL-6]) e melhora nos escores de disfunção orgânica global (SOFA, APACHE II).

O escalonamento nutricional neste período deve ser incremental e jamais abrupto. A prontidão metabólica para receber cargas maiores de substratos deve ser ativamente testada através da monitorização de eletrólitos e metabólitos. O surgimento de hipofosfatemia relativa — definida cientificamente por uma queda abrupta de mais de 0.16 mmol/l nos níveis plasmáticos de fosfato nas primeiras 72 horas após o início do suporte nutricional (atingindo valores inferiores a 0.65 mmol/l) — atua como um biomarcador crítico de "não prontidão" para o avanço da dieta e alerta para o risco iminente de Síndrome de Realimentação.

Diretriz de Progressão: Se o doente tolerar metabolicamente (glicémia inferior a 10 mmol/l, triglicéridos inferiores a 4.5 mmol/l e fosfato estável), progrida o aporte de forma gradual ao longo de 3 dias até atingir metas intermédias de 15 a 20 kcal/kg/dia e 0.8 a 1.0 g/kg/dia de proteína. Se houver deterioração clínica ou sépsis secundária, reduza imediatamente o aporte de volta aos níveis de manutenção da fase aguda.
CAPÍTULO IV|RECUPERAÇÃO

4. A Fase de Recuperação Anabólica e Reabilitação Física

A entrada na fase de recuperação é consolidada pela resolução da inflamação, restauração da flexibilidade metabólica, desmame completo do suporte ventilatório e vasopressor, além do restabelecimento do apetite e melhoria da responsividade à insulina. Sinais como o aumento de marcadores de síntese como a pré-albumina e o fator de crescimento semelhante à insulina 1 (IGF-1) marcam a transição para o anabolismo.

Neste estágio reparativo, o prolongamento da subalimentação é prejudicial, pois agrava a sarcopenia adquirida na UCI, perpetua a fraqueza muscular pós-doença crítica e atrasa a reabilitação funcional geral. O aporte deve atingir o topo das metas estruturais padrão: 20 a 25 kcal/kg/dia e 1.0 a 1.2 g/kg/dia de proteínas. Quando integrada num programa de mobilização ativa e exercícios de resistência, a oferta calórico-proteica pode ser otimizada para níveis superiores a 25 kcal/kg/dia e mais de 1.2 g/kg/dia com foco na recuperação de massa magra.

CAPÍTULO V|POPULAÇÕES ESPECIAIS

5. Particularidades de Triagem em Populações Vulneráveis

A abordagem adaptativa exige refinamentos anatómicos e funcionais em três fenótipos específicos:

  • ! Obesidade Sarcopénica: O excesso de tecido adiposo frequentemente mascara uma perda severa e pré-existente de massa muscular esquelética, induzindo a erros de subestimação do risco nutricional basal.
  • ! Baixa Muscularidade ao Ingresso: Doentes com baixa área muscular avaliada por tomografia computadorizada lombar na admissão apresentam riscos significativamente maiores de mortalidade a curto e longo prazo.
  • ! Idosos Frágeis: Indivíduos com pontuações elevadas na Escala de Fragilidade Clínica (CFS ≥ 5) apresentam reservas fisiológicas esgotadas e baixíssima tolerância a episódios de superalimentação e estresse metabólico.

Simulador de Precisão Nutricional Fásica

Insira as variáveis antropométricas e o volume calórico atual prescrito para mapear se o doente está sob risco de sobrecarga de acordo com a fisiopatologia celular atual.

Dados de Entrada

Peso Estimado/Ideal
Aporte Calórico Atual
Aporte Proteico Atual
Classificação Atual:

Faixas Alvo por Fase Metabólica

Fase Aguda (Dia 1-2)
Calorias Recomendadas
Proteínas Recomendadas
Estabilização (Dia 3-5)
Calorias Recomendadas
Proteínas Recomendadas
Recuperação (Dia 5+)
Calorias Recomendadas
Proteínas Recomendadas

Gráfico comparativo: Curva de Escalonamento Guiado (Verde) vs Sobrecarga Precoce Fixa do estudo NUTRIREA-3 (Vermelho Tracejado).

Impacto Sistémico da Conduta Nutricional

Contraste fisiopatológico entre a conduta de precisão em degraus e a infusão linear cega hipercalórica precoce.

Abordagem Escalonada Segura

Protetor Celular
Passo 1: Restrição Inicial Protetora

A subalimentação permissiva (5 a 10 kcal/kg/dia) respeita a produção de glicose endógena, poupando o fígado e preservando os mecanismos vitais de autofagia celular.

Passo 2: Monitorização Cinética de Eletrólitos

A progressão só ocorre se os eletrólitos intracelulares (especialmente o fosfato) estiverem estáveis, mitigando disfunções cardíacas e neuromusculares severas.

Passo 3: Janela Anabólica Otimizada

O alcance do alvo máximo calórico-proteico coincide com a remissão inflamatória e início da cinesioterapia metabólica, revertendo a sarcopenia adquirida de forma eficaz.

Aporte Pleno Hiperproteico Precoce

Sobrecarga Celular
Facto 1: Bloqueio Enzimático e Saturação

A oferta exógena agressiva colide com a insulinorresistência severa da fase aguda. O organismo não metaboliza o excesso, convertendo-o em hiperglicémia refratária e esteatose hepática.

Facto 2: Isquémia Intestinal e Êstase

A infusão enteral forçada em leitos vasculares esplâncnicos hipoperfundidos (doentes em choque) desvia o fluxo sanguíneo crítico e induz diarreia, vómitos e quadros de necrose ou isquémia intestinal.

Facto 3: Uremia Induzida por Sobrecarga de Azoto

O excesso de proteínas exógenas é desviado para a produção de ureia na presença de falência renal aguda, aumentando a necessidade precoce de Terapia de Substituição Renal (Hemodiálise).

Algoritmo de Triagem e Elegibilidade

Ferramenta diagnóstica sequencial baseada nos critérios e biomarcadores descritos na revisão de 2026 para identificação da fase e prontidão alimentar.

Identificação do Doente
Progresso

1. O doente apresenta instabilidade hemodinâmica crítica ou dose de vasopressores/inotrópicos em curva ascendente?

2. Houve registo de queda de fosfato sérico superior a 0.16 mmol/l nas últimas 72 horas após o início alimentar?

3. Qual a tendência atual dos biomarcadores inflamatórios sistémicos (PCR e IL-6)?

4. O doente exibe sinais latentes de intolerância (Glicémia > 10 mmol/l estável, Triglicéridos > 4.5 mmol/l ou pico isolado de ureia)?

5. Qual o status do desmame ventilatório e nível de atividade motora do doente?

Escore de Prontidão Clínica
Diretriz Recomendada para o Doente ():