Manual Clínico e Laboratorial de Troponina Elevada: Diagnóstico Diferencial, Falsos Positivos e Interferências Analíticas
1. Fundamentos Fisiopatológicos e Taxonomia das Elevações de Troponina
A introdução clínica dos imunoensaios de troponina cardíaca de alta sensibilidade (
e
) transformou a estratificação diagnóstica e prognóstica da dor torácica no serviço de urgência, permitindo identificar concentrações mínimas do biomarcador na circulação sistémica1. No miocárdio, cerca de 4% a 5% da troponina encontra-se livre no citosol celular, sendo responsável pela libertação precoce após a perda transitória de integridade da membrana do cardiomiócito, enquanto a fração restante permanece ancorada no complexo sarcomérico estrutural, sustentando a libertação plasmática prolongada em contextos de necrose tecidual estabelecida2.
Com o ganho substancial de sensibilidade analítica, emergiu uma crescente complexidade na interpretação dos resultados discordantes da apresentação clínica2. Torna-se imperativo distinguir com rigor a taxonomia das elevações de troponina, separando os falsos positivos analíticos das elevações biológicas secundárias:
- Falsos Positivos Analíticos (Interferência Metodológica): Consistem em medições numericamente elevadas que não decorrem de qualquer dano celular miocárdico, originando-se de artefactos pré-analíticos, ligação cruzada inespecífica nos reagentes do imunoensaio, macromoléculas circulantes ou perturbações físico-químicas da matriz do soro ou plasma2.
- Lesão Miocárdica Não Aterotrombótica (Elevação Biológica Verdadeira): Caracteriza-se pela libertação efetiva de troponina citosólica ou sarcomérica para o plasma em resposta a agressões inflamatórias, tóxicas, metabólicas ou mecânicas, bem como a desequilíbrios hemodinâmicos sistémicos entre a oferta e a procura de oxigénio miocárdico (Enfarte Agudo do Miocárdio Tipo 2 e lesão miocárdica não isquémica)2. Embora sejam biologicamente genuínas, estas elevações são incorretamente rotuladas como "falsos positivos" quando interpretadas precipitadamente como síndromes coronárias agudas aterotrombóticas (EAM Tipo 1)2.
| Classificação Fenotípica |
Fisiopatologia Subjacente |
Padrão Cinético Temporal |
Exemplos Clínicos e Analíticos |
| EAM Tipo 1 (Aterotrombótico) |
Rutura, erosão ou disseção de placa aterosclerótica com trombose intraluminal oclusiva ou suboclusiva4. |
Variação aguda dinâmica rápida ( acentuado de subida e/ou descida em 1–3h)3. |
Síndrome coronária aguda com ou sem supradesnivelamento do segmento ST3. |
| Lesão Miocárdica Secundária (EAM Tipo 2 / Injúria Não Isquémica) |
Mismatch hemodinâmico entre oferta e consumo de , agressão citotóxica direta ou sobrecarga mecânica ventricular2. |
Elevação aguda com moderado a alto, ou padrão em platô cronicamente alterado4. |
Sépsis, choque distributivo, miocardite, Takotsubo, embolia pulmonar, insuficiência cardíaca1. |
| Interferência Imunológica Analítica |
Formação de pontes inespecíficas entre os anticorpos de captura e deteção do imunoensaio4. |
Concentração persistentemente estável ao longo do tempo (platô estático, sem curva cinética)2. |
Anticorpos heterófilos, anticorpos humanos anti-rato (HAMA), fator reumatoide1. |
| Macromoléculas Circulantes (Macrotroponina) |
Formação de complexos de alto peso molecular entre a troponina endógena e autoanticorpos (IgG) com depuração retardada5. |
Elevação basal contínua e prolongada (semanas a anos) sem correlação com patologia isquémica6. |
Macro-cTnI ou Macro-cTnT (frequente em atletas e estados pós-infeção viral)6. |
| Expressão Ectópica Muscular Esquelética |
Re-expressão de isoformas fetais de troponina cardíaca em fibras musculares esqueléticas sob regeneração ativa14. |
Elevação crónica ou flutuante isolada de , com níveis de estritamente indetetáveis14. |
Miopatias inflamatórias idiopáticas (polimiosite, dermatomiosite), rabdomiólise intensa14. |
| Interferência Físico-Química e Pré-Analítica |
Perturbação ótica ou aprisionamento estérico na fase sólida do analisador decorrente de anomalias na amostra1. |
Flutuação espúria e isolada num único tubo; não se reproduz após nova colheita ou centrifugação rigorosa4. |
Microcoágulos de fibrina, hemólise intravascular/mecânica, hipertrigliceridemia grave, hiperbilirrubinemia1. |
2. Mecanismos e Etiologias das Interferências Analíticas
A arquitetura predominante dos imunoensaios de troponina de alta sensibilidade assenta no método sanduíche não competitivo de dois locais6. Neste sistema, a troponina cardíaca é simultaneamente imobilizada por um anticorpo de captura fixo à fase sólida e reconhecida por um anticorpo de deteção conjugado a uma molécula sinalizadora luminescente ou enzimática6. Qualquer elemento biológico ou químico presente na amostra capaz de estabelecer uma ponte física entre ambos os anticorpos na ausência de troponina livre, ou capaz de prolongar a sobrevivência intravascular do analito, gera um resultado falso positivo5.
2.1. Macrotroponina e Imunocomplexos Circulantes
A macrotroponina consiste na formação de um complexo de elevado peso molecular entre a troponina cardíaca endógena e autoanticorpos circulantes, predominantemente imunoglobulinas da classe G (IgG)6. É apontada como a causa mais comum de discordância quantitativa entre diferentes métodos analíticos e de falsas elevações persistentes de troponina, exibindo especial predileção pela isoforma
6.
O mecanismo fisiopatológico reside no facto de que o complexo macromolecular resultante excede a barreira de filtração dos glomérulos renais, provocando uma redução acentuada da taxa de depuração plasmática e prolongando a semivida intravascular do complexo5. Concomitantemente, a conformação espacial do complexo mantém expostos os epítopos reconhecidos pelos reagentes de ensaios específicos, amplificando o sinal analítico apesar da ausência de injúria tecidual ativa6. Autoanticorpos dirigidos contra a troponina I estão presentes em até 12,7% da população de dadores de sangue saudáveis6. Além disso, estudos em atletas no período pós-infeção viral (como após a COVID-19) demonstraram que mais de metade dos indivíduos com
elevada apresentavam macrotroponina comprovada laboratorialmente, sem qualquer substrato de miocardite evidenciado por ressonância magnética cardíaca13.
Para o diagnóstico laboratorial, o ensaio de precipitação com polietilenoglicol (PEG) é o método de rastreio de referência6. O polímero induz a insolubilização seletiva de imunocomplexos pesados; após centrifugação, dosa-se a troponina no sobrenadante isento de macro-analito e calcula-se a taxa de recuperação fracionária:

Valores de recuperação fracionária inferiores a 40% (
) definem e confirmam a presença de macrotroponina na amostra6. A confirmação definitiva pode ser obtida por cromatografia de exclusão molecular ou por depleção seletiva de imunoglobulinas através de colunas de Proteína A/G13.
2.2. Anticorpos Heterófilos e Anticorpos Humanos Anti-Espécie (HAMA)
Os anticorpos heterófilos são imunoglobulinas endógenas polirreativas com afinidade para antigénios e imunoglobulinas de diversas espécies animais1. Estão presentes em percentagens estimadas em até 40% da população geral, surgindo frequentemente sem história conhecida de exposição a imunógenos específicos ou desenvolvendo-se após terapêuticas com anticorpos monoclonais murinos, administração de imunoterapias, contacto profissional com animais ou infeções prévias1.
O mecanismo da interferência decorre da capacidade destes anticorpos ligarem simultaneamente o anticorpo de captura e o anticorpo de deteção do kit comercial através de reconhecimento das suas porções Fab ou Fc, estabelecendo uma ponte macromolecular espúria4. Este fenómeno produz emissão de sinal luminoso e acusa falsos níveis elevados de troponina sem que exista qualquer molécula de troponina na amostra10.
A identificação laboratorial desta interferência apoia-se em três estratégias principais:
- Tubos Bloqueadores de Anticorpos Heterófilos (HBT): A pré-incubação da amostra com reagentes contendo imunoglobulinas inespecíficas bloqueia os locais de ligação dos anticorpos heterófilos, resultando numa redução expressiva ou normalização da concentração medida1.
- Avaliação da Não-Linearidade em Diluições Seriadas: Ao diluir a amostra (ex.:
), a interação heterófila não responde à proporcionalidade matemática teórica, gerando discrepâncias e desvios percentuais expressivos face aos valores esperados6.
- Validação em Plataforma Analítica Alternativa (Ensaio Ortogonal): Uma vez que diferentes fabricantes utilizam formulações e fontes de anticorpos animais distintas (ovino, caprino, murino), a medição da mesma amostra num sistema analítico alternativo ou a quantificação cruzada de
em substituição de
frequentemente revela valores estritamente normais4.
2.3. Reatividade Cruzada Muscular Esquelética: A Dicotomia entre hs-cTnT e hs-cTnI
Em doentes portadores de miopatias hereditárias ou adquiridas (tais como distrofia muscular de Duchenne, polimiosite, dermatomiosite e miosite de corpos de inclusão), verifica-se de forma recorrente uma elevação basal pronunciada de troponina que desencadeia diagnósticos erróneos de síndrome coronária aguda14.
A base biológica desta interferência reside na re-expressão de isoformas fetais de troponina14. Enquanto o tecido muscular esquelético adulto e diferenciado expressa unicamente as troponinas esqueléticas rápidas e lentas, as fibras musculares sob processo intenso de necrose, regeneração e proliferação de mioblastos reativam programas genéticos fetais que expressam isoformas de troponina T que partilham sequências de aminoácidos com a troponina T cardíaca14. Consequentemente, os ensaios de
reconhecem estes epítopos musculares esqueléticos em regeneração14.
Em contraste, a isoforma cardíaca da troponina I (
) possui uma sequência estrutural exclusiva do miocárdio, não sendo expressa em mioblastos esqueléticos em qualquer circunstância fisiopatológica14. Assim, entre 45% a 69% dos doentes com miopatias ativas apresentam
falsamente elevada com
concomitantemente normal, demonstrando a superioridade da
na exclusão de doença coronária nestes doentes14.
2.4. Interferências Físico-Químicas, Paraproteínas e Fatores Pré-Analíticos
As falhas de manipulação pré-analítica e os compostos interferentes solúveis são fontes críticas de elevação espúria em contextos de urgência:
- Microcoágulos e Polimerização Residual de Fibrina: A colheita de sangue em tubos de soro sem respeito pelo tempo fisiológico de retração do coágulo (frequente em doentes heparinizados ou com coagulopatias) gera microfilamentos de fibrina que se depositam sobre a fase sólida do analisador, aprisionando mecanicamente os anticorpos de deteção marcados e induzindo leituras falsamente aumentadas1.
- Fator Reumatoide e Autoanticorpos Anti-Fc: Imunoglobulinas circulantes de isotipo IgM dirigidas contra a fração constante (Fc) de imunoglobulinas humanas ou animais mimetizam a ação de anticorpos heterófilos, formando pontes reativas nos ensaios1.
- Interferência por Biotina Exógena (Vitamina B7): Em plataformas analíticas cuja separação depende do complexo biotina-estreptavidina, a presença de concentrações séricas elevadas de biotina proveniente de suplementos vitamínicos compete diretamente pelos sítios de ligação da fase sólida, podendo originar resultados aberrantes conforme a formulação competitiva ou não-competitiva do método2.
- Índices Séricos Anormais (Hemólise, Icterícia e Lipemia): Concentrações massivas de hemoglobina livre, bilirrubina ou quilomicrons alteram a turbidimetria, causam dispersão luminosa ou inibem as reações quimioluminescentes, comprometendo a precisão espetrofotométrica do analisador1.
3. Matriz Analítica de Interferências e Estratégias de Resolução
| Agente / Interferente Analítico |
Mecanismo Bioquímico da Interferência |
Prevalência e Contexto Típico |
Teste Laboratorial Específico |
Conduta e Estratégia de Resolução |
| Macrotroponina [cite: 5, 6] |
Formação de complexos de alto peso molecular cTn-IgG; clearance renal drasticamente reduzido5. |
Elevada em ; frequente em pós-infeções virais e atletas assintomáticos6. |
Precipitação com Polietilenoglicol ( )6. |
Quantificação no sobrenadante pós-PEG; depleção por Proteína A/G; dosagem em plataforma imunoensaio ortogonal6. |
| Anticorpos Heterófilos / HAMA [cite: 1, 4] |
Formação de pontes inespecíficas entre os anticorpos de captura e deteção de origem animal4. |
Até 40% da população geral; doentes expostos a terapias biológicas monoclonais murinas1. |
Tratamento em tubos bloqueadores (HBT); testes de diluição com desvio não-linear1. |
Neutralização imune prévia em tubos HBT; migração da análise para plataforma de fabricante concorrente1. |
| Fator Reumatoide (FR) [cite: 1, 4] |
Reação cruzada de IgM autoimune com o domínio constante de imunoglobulinas murinas do kit2. |
Frequente em artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistémico e síndrome de Sjögren2. |
Titulação de FR; avaliação em tubos com agentes bloqueadores específicos de FR1. |
Neutralização imunoquímica com bloqueador específico de FR; ensaio ortogonal1. |
| Isoformas Musculares em Miopatias [cite: 14, 16] |
Re-expressão de isoformas esqueléticas regenerativas com reatividade cruzada homóloga para 14. |
45% a 69% dos doentes com miosites e distrofias musculares sob regeneração14. |
Comparação analítica paralela entre (elevada) e (normal)14. |
Substituição mandatória do pedido de por no seguimento destes doentes14. |
| Microcoágulos de Fibrina [cite: 1, 14] |
Aprisionamento estérico inespecífico de conjugados marcados luminescentes na fase sólida1. |
Colheitas de urgência em soro com centrifugação precoce ou em doentes anticoagulados1. |
Inspeção visual direta do tubo primário; não-reprodutibilidade em nova centrifugação4. |
Recentes centrifugações rigorosas; preconização de plasma com heparina de lítio como matriz padrão14. |
| Interferência por Biotina [cite: 2] |
Competição de moléculas livres de vitamina B7 pelos sítios de ligação da estreptavidina2. |
Doentes em regimes de suplementação vitamínica em doses elevadas (>5–10 mg/dia)2. |
Anamnese farmacológica; normalização dos valores 48 horas após suspensão do suplemento2. |
Suspensão da biotina por 48h antes da colheita ou recurso a ensaios imunes sem ponte estreptavidina-biotina2. |
| Hemólise / Icterícia / Lipemia [cite: 1, 2] |
Interferência fotométrica, dispersão de radiação ótica ou atenuação química de sinais luminosos1. |
Amostras hemolisadas mecanicamente no ato da punção venosa ou soros quilomicrónicos1. |
Deteção e quantificação através dos índices séricos automatizados (Índices HIL)1. |
Rejeição da amostra caso os índices HIL ultrapassem os limites de tolerância do fabricante; nova punção14. |
4. Diagnóstico Diferencial de Lesão Miocárdica Não Aterotrombótica
Sempre que a investigação afasta a presença de interferências analíticas metodológicas, a elevação de troponina deve ser encarada como o reflexo de lesão miocárdica biológica verdadeira2. No entanto, a troponina é um biomarcador órgão-específico do miocárdio e não doença-específico do enfarte do miocárdio1. A Quarta Definição Universal de Enfarte do Miocárdio estabelece critérios operacionais para separar as patologias cardíacas primárias não isquémicas e as perturbações sistémicas agudas e crónicas2.
| Entidade Clínica |
Mecanismo Fisiopatológico de Injúria Miocárdica |
Cinética da Troponina |
Ferramentas Auxiliares de Diagnóstico Diferencial |
| Miocardite Aguda [cite: 1, 4] |
Citotoxicidade viral direta, infiltrado inflamatório intersticial e necrose imuno-mediada de cardiomiócitos1. |
Elevações agudas substanciais ( ), com curva dinâmica prolongada2. |
Ressonância magnética cardíaca (Critérios de Lake Louise: edema, hiperemia e realce tardio subepicárdico)4. |
| Cardiomiopatia de Takotsubo [cite: 2] |
Efeito citotóxico de tempestade catecolaminérgica, espasmo microvascular e sobrecarga intracelular de cálcio2. |
Elevação aguda desproporcionalmente baixa em relação à extensa área de hipocinesia segmentar2. |
Ventriculografia/Ecocardiograma com balonamento apical típico; coronárias angiograficamente sem lesões obstrutivas2. |
| Tromboembolismo Pulmonar Agudo [cite: 1, 4] |
Aumento abrupto da pós-carga do ventrículo direito com sobrecarga de pressão, dilatação e isquemia transmural do VD2. |
Elevação aguda transitória com ascensão rápida e normalização nas primeiras 24–48 horas2. |
Angio-TC de artérias pulmonares; ecocardiograma com disfunção de VD e sinal de McConnell; D-dímeros elevados2. |
| Insuficiência Cardíaca Descompensada [cite: 1, 4] |
Tensão transmural da parede miocárdica por sobrecarga volumétrica, apoptose celular e isquemia subendocárdica2. |
Elevação basal crónica em platô com flutuações discretas durante as fases de descompensação aguda2. |
Níveis marcadamente elevados de NT-proBNP ou BNP; ecocardiograma com disfunção sistólica ou diastólica avançada2. |
| Doença Renal Crónica (DRC) [cite: 1, 4] |
Cardiopatia urémica, hipertrofia ventricular esquerda difusa, microangiopatia e atenuação da depuração renal4. |
Níveis cronicamente aumentados sem padrão dinâmico agudo de entre medições seriadas4. |
Taxa de filtração glomerular reduzida; ausência de alterações dinâmicas no eletrocardiograma seriado4. |
| Sépsis e Choque Sético [cite: 1, 4] |
Depressão miocárdica por endotoxinas bacterianas, tempestade de citocinas ( ) e hipoperfusão microcirculatória1. |
Elevação mantida em patamar proporcional à severidade sistémica e ao score SOFA2. |
Foco sético ativo documentado; hiperlactatemia; necessidade de suporte com vasopressores1. |
| Excesso Físico Extremo (Maratona / Ultramaratona) |
Aumento transitório e reversível da permeabilidade do sarcolema com extravasamento do pool citosólico livre1. |
Pico precoce nas primeiras 4–8 horas após a prova com regressão espontânea completa em 24–48 horas2. |
Contexto imediato de exercício de endurance extenuante; doente assintomático em repouso e ECG estritamente normal2. |
5. Algoritmo de Decisão Diagnóstica e Investigação Laboratorial
O reconhecimento de uma dosagem de troponina falsamente positiva baseia-se na discordância clínico-laboratorial, configurada pela presença de valores elevados num doente sem sintomas anginosos típicos, sem alterações isquémicas dinâmicas no eletrocardiograma e sem anomalias segmentares de contratilidade no ecocardiograma1.
5.1. Estrutura Sequencial de Decisão Clínica e Laboratorial
A abordagem diagnóstica organiza-se em três etapas operacionais integradas:
Nível 1: Avaliação da Cinética Temporal e Critérios de Delta
- Aplicação rigorosa dos algoritmos validados de 0/1h ou 0/2h da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), quantificando a variação absoluta (
) dos níveis de troponina nas colheitas seriadas3.
- Interpretação:
- Se houver
dinâmico significativo de subida ou descida, o quadro reflete lesão miocárdica aguda ativa (EAM Tipo 1, EAM Tipo 2, miocardite ou TEP)4.
- Se a concentração permanecer estática em platô estável ao longo de horas ou dias sem
significativo, impõe-se a suspeita de interferência analítica metodológica ou, em alternativa, de lesão miocárdica estrutural crónica (ex.: DRC ou insuficiência cardíaca estável)2.
Nível 2: Despistagem Pré-Analítica Imediata
- Exame visual e fotométrico da amostra original para avaliação de integridade física (descarte de microcoágulos de fibrina, hemólise, hiperbilirrubinemia ou lipemia através dos índices HIL)1.
- Recolha de uma nova amostra venosa e repetição da medição no analisador original após centrifugação adequada4. Caso o resultado normalize, confirma-se artefacto pré-analítico pontual4.
Nível 3: Protocolo Laboratorial Avançado de Diferenciação Analítica
- Etapa 3A — Avaliação de Não-Linearidade em Diluição: Processamento da amostra em diluições seriadas (
). Se a recuperação divergir significativamente da linearidade teórica esperada, presume-se a presença de anticorpos interferentes6.
- Etapa 3B — Análise Cruzada em Plataforma Ortogonal: Envio da amostra para teste num sistema imunoensaio de outro fabricante ou medição da isoforma complementar (se o ensaio inicial utilizava
, dosa-se
, e vice-versa)4. A obtenção de valores estritamente normais na segunda plataforma confirma interferência analítica específica do kit inicial4.
- Etapa 3C — Neutralização em Tubos Bloqueadores de Heterófilos (HBT): Incubação da amostra com reagentes HBT; uma redução expressiva da troponina confirma interferência por anticorpos heterófilos ou HAMA1.
- Etapa 3D — Rastreio e Confirmação de Macrotroponina com PEG: Realização do ensaio de precipitação com polietilenoglicol (PEG) e cálculo da percentagem de recuperação no sobrenadante6. Uma taxa de recuperação inferior a 40% confirma a presença de macrotroponina6.
- Etapa 3E — Investigação Muscular Esquelética em Caso de hs-cTnT Isolada: Em doentes com elevação sustentada de
sem evidência coronária, a confirmação de
normal associada a níveis aumentados de creatina quinase total (CK) e mioglobina confirma reatividade cruzada decorrente de miopatia esquelética14.
5.2. Guia de Interpretação e Conduta Laboratorial
| Etapa Diagnóstica |
Teste Laboratorial Executado |
Resultado Obtido |
Conclusão Diagnóstica e Conduta Clínica |
| Passo 1 |
Repetição em nova colheita com centrifugação rigorosa4. |
Normalização imediata do valor de troponina4. |
Falso positivo por microcoágulo de fibrina ou erro pré-analítico; alta clínica se assintomático4. |
| Passo 2 |
Dosagem paralela de e 14. |
muito elevada com indetetável/normal14. |
Expressão muscular esquelética ectópica em miopatia; suspender investigação coronária e dosear CK14. |
| Passo 3 |
Avaliação em analisador ortogonal de outro fabricante4. |
Valor normal ou discrepância superior a 80% entre métodos4. |
Confirmação de interferência analítica metodológica restrita ao ensaio primário4. |
| Passo 4 |
Teste de precipitação por Polietilenoglicol (PEG)6. |
Recuperação de troponina pós-PEG no sobrenadante6. |
Confirmação de Macrotroponina; cessar imediatamente fármacos antitrombóticos e anti-isquémicos6. |
| Passo 5 |
Pré-tratamento com tubos bloqueadores de heterófilos (HBT)1. |
Queda pronunciada da concentração após bloqueio imune1. |
Confirmação de anticorpos heterófilos ou HAMA; registar a interferência no processo do doente1. |
6. Recomendações e Boas Práticas Clínico-Laboratoriais
A utilização racional e segura dos biomarcadores cardíacos de alta sensibilidade exige a adesão estrita a princípios de governação clínica e de medicina laboratorial:
- Adequação da Solicitação Clínica: A troponina cardíaca é um biomarcador de injúria tecidual e não deve ser utilizada como teste indiscriminado de rotina em doentes sem probabilidade pré-teste plausível de síndrome coronária aguda ou lesão miocárdica clinicamente relevante2.
- Priorização da Cinética sobre o Valor Único Isolado: Valores isolados moderadamente elevados sem cinética temporal de variação (
) refletem primariamente condições clínicas estáveis, nefropatia crónica ou interferências analíticas, não justificando a realização de cateterismos cardíacos invasivos de urgência na ausência de instabilidade hemodinâmica ou alterações eletrocardiográficas dinâmicas2.
- Comunicação Interdisciplinar Imediata: Sempre que os resultados de troponina se mostrarem incompatíveis com o quadro clínico e os exames de imagem, o corpo clínico deve estabelecer contacto direto com o laboratório de patologia clínica para a ativação imediata do protocolo de investigação de interferências (diluições, bloqueadores HBT, precipitação por PEG e ensaios ortogonais)4.
- Registo Clínico Permanente e Orientação Futura: Uma vez identificada e comprovada uma interferência analítica por macrotroponina, anticorpos heterófilos ou re-expressão em miopatia, o laboratório e a equipa médica devem registar de forma inequívoca o achado no processo clínico do doente, indicando expressamente quais as plataformas analíticas e isoformas validadas para futuras avaliações de emergência4.
Referências citadas
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