Manejo do choque vasoplégico pós-parada
Alvos, estratégias e desfechos — tudo que o intensivista precisa para manejar o choque pós-ROSC: fisiopatologia, alvos de pressão arterial, catecolaminas, vasopressina, angiotensina II e a abordagem multimodal, com as figuras originais.
Visão geral
O choque pós-parada (post-resuscitation shock) é definido como a falência cardio-circulatória após parada cardiorrespiratória (PCR), ocorrendo em até dois terços dos pacientes que recuperam a circulação espontânea (ROSC). É a principal causa não neurológica de morte pós-parada — com mortalidade que excede 50% em alguns casos, por choque refratário e disfunção de órgãos.
Apesar dos avanços no manejo da PCR, a mortalidade permanece alta — por dano cerebral extenso, disfunção miocárdica grave e resposta inflamatória sistêmica que leva a choque refratário. Além da fluidoterapia, vasopressores costumam ser necessários após o ROSC para contrapor a vasoplegia e preservar a perfusão de órgãos-alvo.
Choque pós-ROSC = 3 componentes que variam ao longo do tempo no mesmo paciente
Disfunção miocárdica
Vasoplegia
Hipovolemia relativa
O fenótipo predominante pode mudar no mesmo paciente com o tempo — daí a necessidade de monitorização hemodinâmica multimodal e em tempo real para guiar escolha, dose e timing do vasopressor.
Fisiopatologia
Na PCR, dois mecanismos ligados à lesão de isquemia-reperfusão de corpo inteiro contribuem para o estado vasodilatador pós-reanimação:
1. Disfunção endotelial por estresse oxidativo
O estresse oxidativo danifica o endotélio vascular.
2. Resposta inflamatória pós-ROSC
Surto inflamatório agudo → surto de citocinas.
Esses dois fatores up-regulam a óxido nítrico sintase induzível (iNOS), resultando em superprodução de óxido nítrico (NO) — potente vasodilatador. Isso reduz a responsividade vascular aos vasopressores (vasoplegia/hiporresponsividade).
Mecanismos adicionais de responsividade vascular reduzida
- Lesão intestinal (dano de enterócitos / endotoxemia).
- InsuFiciência adrenal relativa.
- Deficiência de vasopressina pós-parada.
Por que isso importa na prática
A vasoplegia é um estado de baixa resistência vascular sistêmica com débito cardíaco normal ou alto. Reconhecer esse fenótipo é o primeiro passo para escolher a estratégia vasopressora correta.
Hipotensão pós-ROSC
Clinicamente, a hipotensão arterial é o achado mais comum do choque pós-reanimação. A prevalência varia amplamente conforme a definição usada: de 15% a mais de 70% dos pacientes.
Definições de hipotensão
- PAS < 90 mmHg
- PAM < 65 mmHg
- Combinação dos dois
Impacto deletério em leitos vasculares regionais
- Cerebral: hipotensão significativa piora a perfusão e a oferta de oxigênio quando a PA cai abaixo da pressão de fechamento crítico cerebral.
- Coronariano: hipotensão diastólica reduz a perfusão coronariana e aumenta o tamanho do infarto em pós-PCR com choque após IAM.
- Sistêmico: hipotensão é preditor independente de no-reflow após reperfusão coronariana.
- Renal: hipotensão precoce pós-ROSC associa-se a risco aumentado de injúria renal aguda (AKI).
Alvos de pressão arterial
O limiar de risco comumente usado (PAM < 65 mmHg) origina-se de estudos observacionais que mostram associação, e não causalidade, entre hipotensão e mortalidade/desfecho neurológico adverso.
O alvo ótimo de PAM ainda não está elucidado
Estudos randomizados não demonstraram diferença significativa entre alvos padrão e mais altos — confirmado em revisão sistemática recente. Não há evidência para apoiar PAM acima de 70 mmHg rotineiramente.
Porém, efeitos notáveis no miocárdio e na microcirculação merecem destaque:
Post hoc NEUROPROTECT + COMACARE
Em pós-PCR com choque após IAM, alvos mais altos de PAM (80–85 a 100 mmHg) com suporte vasopressor-inotrópico adicional foram associados a menor injúria miocárdica vs PAM convencional (65 mmHg), sem aumento de rearrest ou FA.
Embora o alvo alto de PAM não tenha reduzido o dano cerebral anóxico nem melhorado o desfecho neurológico, associou-se a melhor oxigenação cerebral nas primeiras 12 h de UTI.
Perda de coerência hemodinâmica
Distúrbios microcirculatórios são frequentes após ROSC e associam-se a pior sobrevida (índices microcirculatórios sublinguais e tempo de enchimento capilar). Como há perda de coerência hemodinâmica, otimizar PAM/DC sistêmicos pode não ser suficiente para melhorar a perfusão microcirculatória — é preciso monitorar a microcirculação.
Autoregulação cerebral guiada
Estratégia personalizada de manejo da PA guiada pela autoregulação cerebral (p.ex. índice de fluxo médio por Doppler transcraniano) para identificar a faixa ótima de PAM. Justificativas: (1) a autoregulação pode estar prejudicada pós-ROSC, sobretudo em hipertensos prévios — associada a piores desfechos; (2) a lesão hipóxico-isquêmica compromete a reatividade cerebrovascular.
Alvos pré-hospitalares
Uma pesquisa recente mostrou variabilidade substancial nas práticas pré-hospitalares hemodinâmicas e neurológicas para pacientes pós-PCR reanimados.
Prática pré-hospitalar (survey)
- A maioria dos serviços usa PA não invasiva e adota a PAS como alvo primário — tipicamente PAS > 90 mmHg (recomendado) ou até mais alto (ex. >100 mmHg).
- Norepinefrina é o vasoativo pré-hospitalar de primeira linha relatado.
- Epinefrina (infusão ou pequenos bolus) também é usada.
Recomendação atual (diretrizes pós-PCR)
Evitar hipotensão arterial e visar PAM > 60–65 mmHg após ROSC, refletida por débito urinário > 0,5–1,5 mL/kg/h e lactato normal ou em queda. Os resultados do estudo MAP-CARE (em andamento) esclarecerão o impacto dos alvos de PAM nos desfechos.
Vasopressores: catecolaminas
Os vasopressores dividem-se em adrenérgicos e não-adrenérgicos:
Adrenérgicos
- Inopressores: norepinefrina, epinefrina, dopamina
- Vasopressores puros: fenilefrina (agonista α altamente seletivo)
Não-adrenérgicos
- Vasopressina e análogos (terlipressina, selepressina)
- Angiotensina II
Norepinefrina × epinefrina
Apenas um pequeno RCT (40 pacientes) com choque pós-reanimação (PAM <65 ou PAS <90 em 1h pós-ROSC) comparou os dois: mortalidade em 28 dias semelhante e alta (90%) em ambos os grupos.
Grande estudo observacional multicêntrico (766 pós-PCR)
Epinefrina foi associada a aumento significativo de:
- Mortalidade por todas as causas: OR 2,6 (IC 1,4–4,7), p=0,002
- Mortalidade cardiovascular (rearrest ou choque refratário): OR ajusted 5,5 (IC 3,0–10,3), p<0,001
- Pior desfecho neurológico na alta: OR 3,0 (IC 1,6–5,7), p=0,001
A associação persistiu após propensity score matching (OR 2,1 / 4,3).
Cuidado com viés de indicação
A epinefrina tende a ser usada nos casos mais graves (ritmos não-chocáveis, maior tempo até ROSC, pH inicial mais baixo, mais disfunção miocárdica) — pode ser um marcador de gravidade e pior status basal, não o causador. Além disso, dose e duração da exposição à epinefrina impactam: infusões mais longas e doses cumulativas maiores associam-se a arritmias, PCR recorrente e disfunção miocárdica.
Veredito
Não há evidência de dano da norepinefrina vs epinefrina. A norepinefrina é a primeira linha razoável.
Norepinefrina × dopamina
Não há RCTs nessas populações específicas. Em população geral de UTI, o SOAP II (1679 pacientes): sem diferença em mortalidade em 28 dias, mas dopamina associada a mais arritmia e, no subgrupo de choque cardiogênico, a mortalidade em 28 dias foi maior.
Em choque séptico, metanálise de 11 RCTs confirmou: norepinefrina associada a menor mortalidade (RR 0,89; IC 0,81–0,98) e menor risco de arritmia.
Em pós-ROSC: coorte ~1000 pacientes sem diferença de sobrevida em 30 dias; mas coorte de 310 pacientes mostrou que combinação de dopamina + norepinefrina/epinefrina associou-se a maior mortalidade em 30 dias (HR ajustado 2,0; IC 1,3–3,0) e maior mortalidade por lesão neurológica (HR 1,7; IC 1,1–2,7).
Limitações
Viés de indicação não é excluível: epinefrina ou combinações vasopressoras tendem a ser usadas em casos mais graves. Efeitos não-hemodinâmicos das catecolaminas (imunomodulação, metabolismo) também importam.
Por que norepinefrina é um bom primeiro agente
- Evidência indireta de choque séptico/cardiogênico: mais eficaz e melhor tolerada.
- Perfil de segurança favorável: baixo risco de arritmia nos ensaios COMACARE/NEUROPROTECT.
- Alta atividade α-adrenérgica e baixa β: aumenta PAM e DC minimizando efeitos inotrópicos/cronotrópicos deletérios.
- Barato, fácil de armazenar/preparar, já usado no pré-hospitalar.
- Pode ser dado em acesso venoso periférico.
Vasopressina
Dados clínicos sobre vasopressina no choque pós-reanimação são limitados, mas há dados em outras populações (evidência indireta, a considerar com cautela).
Evidência em choque séptico e cirurgia cardíaca
- Séptico: diretrizes recomendam adicionar vasopressina em dose baixa (≤0,03 U/min) quando PAM permanece baixa apesar de norepinefrina moderada (0,25–0,5 µg/kg/min) — baseado em VASST e VANISH. Não reduz mortalidade, mas: efeito poupador de norepinefrina, potencial nefroprotetor e interação com corticoide reduzindo necessidade de vasopressina.
- Cirurgia cardíaca (vasoplegia): VANCS mostrou que vasopressina como primeira linha reduziu AKI e FA vs norepinefrina (confirmado por metanálise). Especialistas apoiam norepinefrina e/ou vasopressina, com preferência por vasopressina em arritmias induzidas por adrenérgicos ou hipertensão pulmonar.
Início ótimo da vasopressina
Tempo de início — ainda sem orientação clara
O VANISH (RCT duplo-cego, adjuvante precoce em séptico) não mostrou benefício de mortalidade. Estudos mais recentes com emulação de alvo de tratamento ou modelos de reinforcement learning sugerem que início precoce <6h pode associar-se a menor mortalidade — mas com limitações (seleção, confusão residual).
Perfil de segurança
Riscos da vasopressina
- Vasoconstrição periférica excessiva, redução de DC, isquemia esplâncnica/coronariana.
- Falta de inotropia + aumento da pós-carga → piora o acoplamento ventrículo-arterial, reduz o DC.
- Vasoconstrição coronariana mediada por receptor V1 → redução dose-dependente do fluxo coronariano e risco de isquemia miocárdica.
- Poucas arritmias com vasopressina (metanálises).
- Impacto esplâncnico conflitante: doses baixas com status hídrico adequado não prejudicam a perfusão GI; doses >0,04 U/min associam-se a isquemia hepática (↑ transaminases/bilirrubina) e hipoperfusão GI (gap PCO₂ maior).
Usar com cautela
Em estados hipodinâmicos (exigem perfilagem hemodinâmica + avaliação do status hídrico + monitorização cardíaca seriada). Cautela extra em comorbidades cardiovasculares/hepáticas.
Fundamento do uso no choque pós-reanimação
Racional (4 pilares)
- (i) Deficiência de vasopressina nos pós-PCR → contribui à vasoplegia e hiporreatividade vascular.
- (ii) Efeitos adversos da carga adrenérgica excessiva durante e após a RCP: arritmias, piora da disfunção miocárdica pós-PCR, disfunção de órgãos e mortalidade. Em vasoplegia refratária a catecolaminas, vasopressina pode ser resgate; também pode ser iniciada precoce como agente poupador de catecolaminas. Pesar contra as complicações isquêmicas.
- (iii) Potencial nefroprotetor.
- (iv) Dados durante a RCP: vasopressina + metilprednisolona + epinefrina → maior taxa de ROSC em 3 RCTs. Mas sem efeito na sobrevida até a alta nem dias livres de ventilação → recomendações atuais contra o uso de vasopressina (sozinha ou com epinefrina) durante a RCP (fraca, certeza muito baixa).

Angiotensina II e inibidores de NO
Vasopressina no choque pós-reanimação (evidência específica)
Há poucos dados sobre vasopressina no choque pós-reanimação:
Estudos chave
- Pequeno estudo retrospectivo (23 pacientes), vasopressina adjuvante 4 U/h: ↑ PAM, ↓ necessidade de catecolaminas, maior clearance de lactato em 72h.
- Estudo baseado em registro (901 pacientes), vasopressina vs epinefrina como segundo vasopressor (além da norepinefrina): norepinefrina-vasopressina associou-se a pior sobrevida até a alta (OR adj 0,45; IC 0,28–0,75; p=0,002) e pior desfecho neurológico (OR 0,35; IC 0,15–0,79; p=0,012) vs norepinefrina-epinefrina. Adicionar dobutamina à norepinefrina-vasopressina restaurou sobrevida comparável → sugere que a falta de inotropia da vasopressina é deletéria nesse cenário.
- Estudo experimental porcino: vasopressina+norepinefrina melhorou perfusão renal mas reduziu fluxo carotídeo vs norepinefrina sozinha; vasopressina isolada falhou em manejar o choque, com alta mortalidade precoce.
- HYVAPRESS (NCT04591990): primeiro RCT sobre efeito sinérgico de vasopressina + corticoide no choque pós-reanimação. Recrutamento encerrado, resultados em breve.
