Ultrassom do Diafragma
do B-mode ao desmame
Resumo clínico e didático da revisão Diaphragm Ultrasound: State-of-the-Art Review (Brighenti et al., UMB 2026): o que medir, como medir, valores de referência, cut-offs que mudam conduta — e onde os parâmetros ainda falham. Mantém as 8 figuras originais do artigo, com zoom.
O essencial em 7 pontos
Take-home da revisão — o que muda na beira do leito.
Mensagem central: os parâmetros convencionais (espessura, fração de espessamento e excursão) oferecem informação parcial e dependente de carga, com valor prognóstico moderado e variável. O ultrassom do diafragma é um componente dinâmico e complementar da avaliação respiratória multimodal — seu maior valor está no monitoramento longitudinal e na decisão individualizada, não em um único corte isolado.
Como medir — os 3 parâmetros convencionais
Cada um responde a uma pergunta fisiológica diferente. Não são intercambiáveis.
Espessura diafragmática (Tdi)
Transdutor linear de alta frequência na zona de aposição, entre o final da expiração e o pico da inspiração.
Sofre influência significativa de sexo, idade e IMC.
Fração de espessamento (TFdi)
TFdi = (Tdi inspiração − Tdi expiração) / Tdi expiração × 100.
Mais generalizável entre indivíduos: relativamente independente de variáveis antropométricas.
Saudáveis sentados: 57–264% (LLN 39–48%). UTI: mediana 46,8%.
Excursão diafragmática (DE)
M-mode em janela subcostal/hepática, com medidas em respiração tranquila e profunda (e manobra de sniff).
Saudáveis: 2,32 ± 0,54 cm à direita e 2,35 ± 0,54 cm à esquerda (tranquila); 5,5 cm na profunda (LLN 3,0 cm).
Valores de referência e cut-offs
Síntese da Tabela 2 da revisão (adaptada) — saudáveis vs. UTI.
| Parâmetro | População | Valor de referência | Limiar / LLN |
|---|---|---|---|
| Excursão (DE) | Saudáveis, supino, respiração tranquila | Direita 2,32 ± 0,54 cm · Esquerda 2,35 ± 0,54 cm | 1,2–1,3 cm |
| Saudáveis, respiração profunda | Direita 5,54 ± 1,26 cm · Esquerda 5,30 ± 1,21 cm | 3,0 cm | |
| Pacientes de UTI | Mediana 16,3 mm (3–31 mm) | acima de 10 mm = normal | |
| Fração de espessamento (TFdi) | Saudáveis, sentados | 57–264% | 39–48% (LLN) |
| Pacientes de UTI | Mediana 46,8% (5,9–152%) | acima de 30% = normal |
LLN = limite inferior da normalidade. Valores derivados de populações saudáveis e de coortes de UTI/desmame; a ampla variabilidade fisiológica limita cut-offs universais.
Aplicações por cenário clínico
Onde a evidência é mais (e menos) consistente.
UTI e desmame
TFdi abaixo de 20% e excursão reduzida associam-se a falha de desmame, com valor prognóstico moderado e variável entre estudos.
Cut-offs de TF na literatura: 20–30%.
VNI e CNAF
TFdi abaixo de 20% associou-se a 6× mais falha de VNI e 5× mais mortalidade em 90 dias (Marchioni et al.).
Ajuda a titular suporte e a detectar esforço inspiratório excessivo.
DPOC
Hiperinsuflação rebaixa e aplana o diafragma: a excursão cai, mas a fração de espessamento pode estar preservada.
Desvantagem mecânica crônica, remodelamento e maior trabalho respiratório.
Insuficiência cardíaca
Excursão abaixo de 10 mm define fraqueza diafragmática e identifica risco de recidiva precoce após descompensação.
Melhora com tratamento descongestivo; strain e movimento inspiratório respondem à carga cardíaca.
Doença pulmonar intersticial
Espessura e excursão alteradas em FPI e DPI associada a doenças do tecido conjuntivo; o US integrado (diafragma + pulmão) agrega informação funcional.
Neurologia e neuro-UTI
AVC, lesão medular cervical, ELA e pacientes neurocríticos: monitoramento seriado da espessura e da excursão.
Na neuro-UTI, os parâmetros correlacionam-se com a força muscular respiratória.
Figuras originais do artigo
8 figuras (B-mode e M-mode) reproduzidas do artigo de acesso aberto — clique para ampliar em alta resolução.
Limitações e erros comuns de interpretação
Excursão e espessamento não são intercambiáveis
Excursão preservada pode coexistir com espessamento reduzido (deslocamento passivo); TFdi preservada pode ocorrer com excursão limitada (hiperinsuflação, aumento da pressão abdominal).
Dependência do operador
Variabilidade persiste apesar de treinamento relativamente curto; padronização de janela, fase respiratória e condição ventilatória é decisiva.
Cut-offs universais não existem
Populações, metodologias e definições de desfecho diferem; a TF proposta varia de 20% a 30% na literatura.
Carga, volume e suporte mudam tudo
Os parâmetros refletem a interação entre drive neural, contratilidade, volume pulmonar e carga mecânica — não a força muscular intrínseca isolada.
Técnicas avançadas ainda investigacionais
Speckle tracking, elastografia, ecogenicidade, CEUS e análise por área são promissoras, mas carecem de protocolos padronizados de aquisição e interpretação.
Interpretação multimodal
Diafragma + pulmão + músculo periférico aumenta a relevância clínica. Nenhum parâmetro isolado substitui a avaliação integrada e a trajetória clínica.
Quiz rápido (5 questões)
Clique na alternativa — o feedback aparece na hora.
1. Qual parâmetro é considerado mais generalizável entre indivíduos, por ser menos influenciado por sexo, idade e IMC?
2. Em pacientes em desmame da ventilação mecânica, uma TFdi abaixo de qual valor se associa a falha de desmame?
3. Na insuficiência cardíaca, qual achado marca fraqueza diafragmática e risco de recidiva precoce após a descompensação?
4. Qual afirmação sobre excursão e espessamento está CORRETA?
5. Sobre as técnicas emergentes (speckle tracking, elastografia, ecogenicidade, CEUS), o que a revisão conclui?
Referências-chave
Seleção das 12 referências centrais citadas neste resumo — a lista completa (90) está na versão íntegra.
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